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O Dia do Atendado | Crítica

O Dia do Atendado | Crítica

O Dia do Atentado (Patriots Day)

Ano: 2016

Direção: Peter Berg

Roteiro: Peter Berg, Matt Cook, Joshua Zetumer

Elenco: Mark Wahlberg, John Goodman, Kevin BaconJ.K. Simmons, Michelle Monaghan

Esta foi uma daquelas vezes em que me senti incomodado ao sair do cinema. De início, um leve desconforto. Com o passar do tempo, ao refletir mais sobre o que vi e relembrar cenas e falas, o desconforto foi se transformando em indignação. Dirigindo de volta para casa após a cabine de imprensa de O Dia do Atentado, uma frase do cineasta cubano Santiago Alvarez não saía da minha cabeça. Eu lembrava do significado e não das palavras exatas. Ao chegar em casa, eu reli o que ele dizia: “O cinema não é uma extensão da ação revolucionária. O cinema é e deve ser a ação revolucionária em si”. “A força do cinema”, pensei. Lembrei também de Sergei Eisenstein referindo-se aos seus filmes como balas de canhão atingindo os inimigos. E então percebi como tudo isso pode ser perigoso quando utilizado de maneira desonesta, excessivamente parcial, ainda mais tratando de um tema delicado que gera sentimentos intensos e, por vezes, reações violentas e irracionais.

Dirigido por Peter Berg, que também escreveu o roteiro em conjunto com Matt Cook e Joshua Zetumer, o filme conta com um elenco de apoio respeitável formado por Kevin Bacon, John Goodman, J.K. Simons (fantástico, diga-se de passagem) e é protagonizado por Mark Wahlberg.  O filme mostra os eventos que precederam o atentado na reta final da Maratona de Boston em 2013, apresentando alguns personagens centrais da tragédia, até a perseguição alucinante aos suspeitos que mobilizou o FBI, a polícia de Boston e toda a comunidade de Watertown após o ataque. Fazendo uma reconstituição incrivelmente fiel e chocante do atentado, inclusive utilizando imagens de arquivo, acaba por mostrar todo o terror que foi experimentado pelas pessoas presentes no local, o sofrimento das vítimas, o heroísmo dos policiais, médicos e bombeiros e a união da população na caçada aos assassinos. E vejam que eu escrevi “assassinos” e não “terroristas”, mesmo que o filme os chame dessa maneira o tempo inteiro.

Você pode se perguntar: “mas eles não são terroristas”? Depende do seu conceito de terror. Eu considero aterrorizante ter meu país invadido, bombardeado, manipulado e destruído por exércitos e pela inteligência de países estrangeiros simplesmente porque estes possuem grande interesse em se adonar das enormes reservas de petróleo e gás natural que poderiam fazer a minha terra natal um país rico. Estudos mostram que apenas no Iraque, um dos países invadidos pelos EUA, estes ataques causaram 115 mil mortes diretas e mais de meio milhão se considerarmos as mortes indiretas, nas quais praticamente todas são de civis. Esta política externa dos EUA vem, há décadas, desestabilizando governos que não cedem aos seus interesses financeiros e alimentando grupos extremistas. Osama Bin Laden e seus familiares já foram grandes amigos do governo norte-americano, enquanto foi interessante, antes de perderem totalmente o controle sobre os monstros que criaram. Não vou citar a participação de países europeus para não me estender até porque o assunto aqui é a representação do atentado em solo americano.

Voltando ao filme: após uma breve introdução do personagem Tommy Saunders (Mark Wahlberg) inicia-se uma espécie de comercial de margarina. É um belo dia de sol em Boston. Casais jovens acordam de maneira encantada e apaixonada, casais mais velhos sendo extremamente carinhosos uns com os outros, jovens tímidos se preparam para o primeiro encontro com belas e simpáticas garotas, policiais brincam uns com os outros alegremente enquanto fazem os últimos preparativos para a organização da maratona. Tudo ao som de uma música leve e agradável. Música esta que se torna pesada e ameaçadora ao mostrar um lar de uma família muçulmana. Um homem, seu irmão, sua esposa e a filha pequena. Diga-se de passagem, os únicos muçulmanos retratados no filme. Saindo daquela casa mostrada como o antro da maldade, voltamos ao comercial de margarina.

Este primeiro ato, caso fosse uma obra totalmente ficcional, já seria ruim e ofensiva. Um melodrama cheio de clichês e um toque forte de preconceito. O que agrava ainda mais é o fato do filme se basear em fatos reais e isso ser do conhecimento de todos que o assistem. A família muçulmana que aparece no filme é a responsável pelo atentado que matou três pessoas (incluindo um garoto de 8 anos) e feriu mais de 200, sendo que diversas tiveram uma ou as duas pernas amputadas. Nenhum outro muçulmano é retratado durante as longas duas horas e nove minutos de projeção. Que mensagem isso passa?

O filme, se conseguirmos esquecer por um momento o teor panfletista anti-islâmico, melhora muito a partir do segundo ato. A reconstituição do ataque unida a imagens de arquivo das câmeras de segurança próximas ao local, e creio que também de celulares, torna tudo o que vemos incrivelmente real. A cena das explosões e das pessoas feridas, com pedaços de corpos aparecendo espalhados em alguns momentos é chocante. A ação rápida da polícia, a chegada do FBI, as investigações e a perseguição aos suspeitos retratados no filme seguiram praticamente à risca o que foi noticiado sobre o atentado nos noticiários da época. Inclusive situações inacreditáveis que acontecem na perseguição são absolutamente fiéis aos fatos conforme podemos inclusive verificar nas imagens de arquivo. E este é o ponto forte do filme. Conseguiram reproduzir a realidade de maneira fantástica e em um ritmo de tensão crescente sem precisar inventar nada. A verdade já era o suficiente. Então o que faltou?

Faltou honestidade. Faltou autocrítica. Faltou o contraponto. Os dois irmãos responsáveis pelo ataque podem ser sim o que chamamos normalmente de “monstros”. Até onde se sabe, eles em nenhum momento mostraram qualquer tipo de arrependimento sobre o que fizeram e ainda planejavam realizar um novo ataque, dessa vez em Nova York. Mas por quê? Isso nunca é discutido no filme. Minto. Acontecem diversos diálogos deles dizendo que odeiam os EUA. Nenhuma linha sobre o motivo desse ódio. Por que será que pessoas desequilibradas odeiam os Estados Unidos e não a Costa Rica, por exemplo? Ou o Canadá? Eles realmente acreditam que são alvos de ataques porque alguém se opõe ao seu “american way of life”? O personagem de Mark Wahlberg chega a fazer uma reflexão constrangedora e ofensiva dizendo que aquela caçada era uma representação do “Bem contra o mal. O ódio contra o amor”. Não era suficiente tudo que eles haviam mostrado com imagens até então. Apresentando os muçulmanos como terroristas impiedosos e o povo de Boston e sua polícia como “os cidadãos de bem” que não sabem o motivo de tanta violência contra sua terra. A polícia de Boston, aquela mesma cuja brutalidade contra os negros gerou protestos recentemente e a campanha Black Lives Matter é representada todo o tempo de forma heroica e benevolente. Claro que a violência policial em Boston não pode ser generalizada, mas tampouco pode e nem deve ser ignorada.

Uma situação em particular comprova a desonestidade ideológica do filme (pode ser um leve spoiler, mas para quem acompanhou os fatos na época não fará diferença). Em todas as cenas da casa dos irmãos Dzhokhar e Tamerlan Tsarnaev, a esposa de Tamerlan está presente com sua filha no colo. Escuta as conversas, os vê acompanhando o noticiário, se preocupa ao perceber que eles foram reconhecidos. Ou seja: não há nenhuma dúvida, segundo o filme, de que ela estava envolvida ou pelo menos sabia de tudo que eles planejavam. No entanto, quase chegando nos créditos finais, surgem fotos e depoimentos das pessoas reais que estiveram envolvidas na tragédia. E lá pelas tantas aparece a foto de Katherine, a esposa, vivida por Melissa Benoist (de Supergirl). Qual não foi minha surpresa ao receber ali a informação de que ela está em liberdade porque nunca foi comprovada sua participação no atentado e sequer que ela tinha conhecimento do que aconteceria. Se não há provas, se ela não confessou, como é que o filme retrata o tempo inteiro uma situação à qual eles não podem possuir nenhuma informação e que incrimina indubitavelmente uma pessoa?

Qual seria o impacto visual se mostrássemos cenas reais ou reconstituídas de países do Oriente Médio atacados pelos Estados Unidos? Entre as mortes indiretas da guerra estão crianças que ficam sem atendimento médico em função da superlotação dos hospitais com feridos civis após bombardeios realizados até mesmo através de drones. Outras morrem por ter sua água contaminada. Ou por escassez de alimentos. Em busca de petróleo os Estados Unidos transformaram diversos países em uma espécie de inferno na Terra. Assim eles criaram os “terroristas” que os atacam. Os atentados jamais serão justificados mas são obviamente explicáveis, e se alguém acredita que vão resolver esta questão através da força, é melhor pensar de novo. É impossível aniquilar um exército silencioso que está espalhado pelo mundo inteiro. A única forma de acabar com o “terror” (sempre entre aspas), se ainda for possível, é deixando de alimentá-lo através de sua postura imperialista.

Ao invés disso, os americanos preferem seguir transmitindo essa ideia de que são o bem contra o mal. Uma propaganda que lembra muito o que alguns partidos políticos brasileiros fazem ao criar uma cruzada contra a corrupção enquanto estão envolvidos até o pescoço nela. Ou uma empresa de telecomunicações envolvida em uma das maiores fraudes fiscais da história tentando convencer o povo de que a reforma da previdência é necessária e que não há mal nenhum em trabalhar até morrer. A hipocrisia e a manipulação das massas. Dessa forma, fica difícil demais analisar O Dia do Atentado apenas artisticamente. Como terá sido analisar O Triunfo da Vontade ou O Nascimento de uma Nação na época em que foram lançados, separando a forma do conteúdo? Não sei dizer. Só sei que não me sinto à vontade de dar uma simples nota para este filme. E não farei.

Nota considerando o fato de ser uma obra panfletária que justifica o massacre e a perseguição aos muçulmanos: 0/10

Nota ignorando a ideologia perversa por trás dele: 6/10

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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