Sala Crítica
Críticas Destaque Filmes

Superman: Entre a Foice e o Martelo | Crítica

Superman: Entre a Foice e o Martelo | Crítica

Superman: Entre a Foice e o MarteloSuperman: Entre a Foice e o Martelo (Superman: Red Son)

Ano: 2020

Direção: Sam Liu

Roteiro: J.M. DeMatteis

Elenco: Jason Isaacs, Roger Craig, Diedrich Bader, Amy Acker, Vanessa Marshall, Paul Williams

Superman: Entre a Foice e o Martelo é uma das HQ’s mais celebradas da última década. Imaginando um universo onde o Superman pousou 12 horas antes na Terra e acabou desembocando na União Soviética, a obra de Mark Millar é uma das mais relevantes histórias do Superman contadas neste século, para o bem ou para o mal. Portanto, foi com grande expectativa que sua adaptação para as telinhas foi recebida na comunidade de leitores de quadrinhos.

E é triste perceber que, mesmo sob uma execução técnica relativamente competente, a animação roteirizada pelo veterano quadrinista J. M. DeMatteis e dirigida pelo renomado animador Sam Liu tenha esvaziado tudo aquilo que a obra original tinha de melhor, que é justamente a crítica equilibrada ao regime soviético. Red Son (nome original da HQ e da animação, que ainda não tem previsão de estreia no Brasil) apresenta uma visão política rasa, tola e, até certo ponto, desonesta, caricaturizando o ‘inimigo vermelho’ de forma banal e tratando o mais icônico dos super-heróis como um mero instrumento de propaganda capitalista. Tudo isso através de um roteiro problemático e inconsistente.

A trama tem início quando o jovem Solnyshka descobre seus poderes em uma fazenda coletiva na Ucrânia, em 1946, e recebe um conselho de sua amiga Svetlana: dedicar seus poderes ‘ao Estado’. A partir daí, uma série de acontecimentos históricos fictícios se entrelaçam com a vida de Solnyshka, que passa a atender pelo nome de Superman (Jason Isaacs) e se torna arma viva e símbolo do regime soviético, e de Lex Luthor (Diedrich Bader), o cidadão-gênio que é escolhido pelo governo americano para dar a resposta capitalista ao Homem de Aço. 

A animação apresenta um competente trabalho técnico, trazendo vida aos momentos mais icônicos da HQ, como o embate com o Batman (Roger Craig Smith) — aqui, um anarquista russo que se rebela contra a opressão do regime —, os monstros enviados por Luthor para derrotar o Superman (desde clones até Lanternas Verdes), a participação da Mulher Maravilha… Tudo é feito com o apuro e a qualidade que a DC acostumou o seu público. Até mesmo mudanças sutis em design de uniformes e cenários surgem para ajudar na funcionalidade em movimento, como o traje de Lex Luthor no terceiro ato ou o visual da Mulher Maravilha.

Ainda assim, a inserção de elementos em CGI surge problemática, chamando a atenção para si quando aparece e atrapalhando a imersão do espectador. A nave de Braniac, que deveria ser a principal ameaça do terceiro ato, não assusta justamente por sua artificialidade — que fica ainda mais evidente considerando que a animação fora tão eficiente em apresentar o próprio Superman como uma ameaça nos atos anteriores, através de jogos de câmera e usos certeiros da trilha sonora.

Mas é no roteiro que a produção apresenta suas maiores inconsistências. Primeiramente, a dificuldade óbvia apresentada pela ‘timeline‘ da história não é bem contornada por DeMatteis. O espaçamento excessivo entre os acontecimentos da trama atrapalha na imersão da história, e a ‘cola’ que o roteirista usa para ligar os fatos não é verossímil: é, no mínimo, improvável que os personagens tenham mantido personalidades tão consistentes no intercurso de 40 anos (período entre o início e o desfecho do filme). Quando Lex Luthor surge recuperando uma fala dita por ele próprio em sua cena anterior do filme, e se percebe que essas cenas têm um intervalo de 20 anos entre si, fica difícil superar a barreira da descrença e embarcar em sua jornada pessoal de poder, por exemplo. A curta duração da animação e a dificuldade de apresentar essa passagem de tempo visualmente acabam se tornando empecilhos para uma experiência consistente — não fossem as legendas informando o período em que a trama está, apostaria que entre o início e o fim se passaram no máximo 10 anos, por exemplo.

A opção de apresentar estes personagens apenas como avatares de um jogo político dificulta a identificação para com eles. Superman e Lex Luthor não são indivíduos com anseios e medos, são figuras que representam nações e ideologias, as próprias ideias encarnadas em carne e osso. Isso não seria um problema, se o filme se ocupasse de apresentar uma trama de conflito de ideias que fosse interessante e desafiadora por si só. O que está bem longe de acontecer.

A visão política defendida pelo filme é absolutamente maniqueísta. Toda produção audiovisual o é, claro, mas a propaganda anticomunista que Red Son promove beira a irresponsabilidade histórica, além de não encontrar paralelo nem na própria lógica estabelecida pela produção. É simplesmente inaceitável que Superman, após 30 anos à frente da União Soviética e diante de todas as melhorias que promoveu no país, de uma hora para outra, apenas com a simples lembrança de uma cidade que ficou para trás, tenha desistido de tudo aquilo que acreditou até aquele momento. A ideia que DeMatteis apresenta, de que toda a União Soviética iria colapsar pelo simples fato de haver uma alternativa de ‘liberdade’ que seduziria os cidadãos russos, fica no limite entre a ingenuidade e a desonestidade.

A tomada de lado que o filme faz destrói tudo o que foi construído por ele próprio, como a ideia de que o Superman ‘consertou’ o regime de Stalin após descobrir e pulverizar os gulags — o que chegou a me fazer pensar: será que se um ser guiado exclusivamente pela bondade estivesse à frente da uma nação tão poderosa quanto a URSS, teria ela se tornado uma utopia? Infelizmente, não é esse debate que a produção estabelece.

Aliás, não há qualquer debate. O filme acredita que o que apresentou ao longo de sua duração é suficiente para que o espectador simplesmente aceite que os EUA e o capitalismo são melhores, e que o Superman, por ser bondoso, naturalmente optaria por estes — uma suposição que ofende a inteligência e a capacidade crítica de qualquer espectador que seja ao menos moderado.

Com uma produção competente, mas com um roteiro problemático demais para ser ignorado, Superman: Entre a Foice e o Martelo é uma decepção quase que completa. Saber, ainda, que o personagem que protagoniza a obra foi concebido como um sonho de esperança de jovens imigrantes judeus, que ansiavam por justiça independente de sua cor, credo ou nacionalidade, torna a experiência ainda mais decepcionante.

Nota:


Quer ficar por dentro de todas as novidades sobre filmes e séries? Siga a gente no Instagram!

The following two tabs change content below.
Jornalista em formação, ex-membro do finado e saudoso Terra Zero e leitor de histórias em quadrinhos. Fã de ficção científica e terror, divide seu tempo livre entre o cuidado com suas dezenas de gatos e a paixão pela cultura pop. Sonha com o dia em que perceberão que arte é sim, uma forma de discutir política.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *