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O Homem Invisível | Crítica

O Homem Invisível | Crítica

O Homem Invisível (The Invisible Man)

Ano: 2020

Direção: Leigh Whannell

Roteiro: Leigh Whannell

Elenco: Elisabeth Moss, Aldis Hodge, Storm Reid, Oliver Jackson-Cohen, Harriet Dyer, Michael Dorman

Em 1933, estreava o impressionante O Homem Invisível, baseado na obra de H.G. Wells. O filme se tornou um dos clássicos do gênero e o personagem principal entrou no hall dos grandes monstros do cinema. Agora, quase 90 anos depois, a Blumhouse reimagina a história, a trazendo para os dias de hoje, fazendo diversas alterações, mas sem deixar a essência do original de lado.

No entanto, antes de seguir com a resenha, vamos voltar alguns anos atrás — mais precisamente a 2017. Naquela época, a Universal Studios tinha como ambição criar um universo compartilhado, o Dark Universe, com os seus icônicos monstros — entre eles, O Homem Invisível, que seria vivido por Johnny Depp. Porém, com o fracasso de A Múmia, a primeira empreitada deste ambicioso projeto, a iniciativa foi deixada de lado, caindo no esquecimento. Ainda bem.

Com o conceito de universo compartilhado, a liberdade para a criação de histórias realmente interessantes se perde em prol do show. Certamente, se a produção tivesse saído dentro do Dark Universe, o estúdio faria uma história pasteurizada, ambicionando muitos milhões e não teríamos um filme realmente relevante como este — feito com apenas US$ 7 milhões, valor que nem pagaria o cachê de Depp, por exemplo. Falando no ator, é até irônico que o filme que realmente saiu do papel traga o monstro como um homem doentio e que abusa física e psicologicamente de sua esposa…

Em O Homem Invisível, este de 2020, o diretor e roteirista Leigh Whannell pega a clássica história e a transforma em uma angustiante crítica sobre os homens que enxergam as mulheres como suas propriedades e que não aceitam ser rejeitados. Na trama, Cecilia Kass (Elisabeth Moss), vivendo em um relacionamento abusivo por parte de Adrian Griffin (Oliver Jackson-Cohen), um gênio milionário da área de óptica, decide fugir de casa no meio da noite. Depois de algumas semanas, o homem controlador é dado como morto por suicídio, deixando uma herança de US$ 5 milhões para Cecilia.

Ao receber essa quantia, a protagonista começa a perceber situações estranhas ao seu redor e não demora para que ela se dê conta que é Adrian que está por perto, mesmo sem poder enxergá-lo. E é aí que a trama ganha o suspense, pelo medo do desconhecido, do imprevisível, mas também o drama da mulher que é desacreditada, vista como surtada, que não entende o mundo. Afinal, como ela vai convencer a todos que o ex-marido descobriu uma forma de ficar invisível apenas para atormentá-la? E isto funciona tanto por ser um assunto atual, que engaja diversas pessoas para mudar esta realidade, quanto pela performance impecável de Elisabeth Moss.

A atriz, que tem experiência em personagens sofridas, porém fortes, repete aqui o que sabe fazer de melhor, demonstrando as suas dores e angustias desde a sua primeira cena, sem precisar sequer de um diálogo. Inclusive, em falas expositivas, que podem ser consideradas fraquezas de roteiro, Moss consegue convencer e deixar o momento mais natural. Com o foco de O Homem Invisível sendo totalmente em Cecilia, a sua intérprete não poderia ter sido melhor escolhida. Por sinal, o elenco de apoio todo está muito bem em cena, até mesmo o invisível Jackson-Cohen, que personifica um homem perturbado em poucas aparições, fazendo com que a sua presença seja sentida a todo momento.

Por sinal, ao falar de poucas aparições, o trabalho de Whannell ao trazer a presença de Adrian para as cenas, mesmo que ele não possa ser visto, é ótimo. O cineasta, ao enquadrar espaços e móveis aparentemente vazios, consegue construir tensão e claustrofobia, fazendo do silêncio um aliado do medo. E, com um orçamento apertado, o diretor é inventivo para desenvolver o seu filme, não dando o passo maior que a perna — até nos momentos em que a computação gráfica está presente, Whannell é contido e vai só até onde é preciso ir.

O Homem Invisível, ao atualizar a sua história e colocar o holofote sobre uma sociedade machista e que sempre desconfia de vítimas mulheres, consegue fazer muito mais do que apenas um remake — afinal, não precisamos rever o mesmo filme de 90 anos atrás. Este está lá, intacto. Ao utilizar um monstro clássico como este para falar de problemas atuais, o longa se torna mais do que apenas um entretenimento rápido, sendo um poderoso recorte do nosso tempo e de tudo de retrógrado que ele tem, embalado por uma ótima ficção científica.

Nota:


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Jornalista e radialista, é um dos fundadores do Bode na Sala. Se orgulha de ter nascido em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, e, atualmente, mora em Porto Alegre. Trabalhou em todas as áreas que se pode imaginar, mas acabou caindo no submundo geek. É fã do Jim Carrey, acha que o Ben Affleck é o melhor Batman do cinema, não suporta pseudo-cultismo e pretende dominar o mundo.

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Comments

  1. […] A grande estreia da semana, O Homem Invisível, dominou os primeiros três dias em cartaz com US$ 29 milhões arrecadados nos primeiros três dias em cartaz. Protagonizado por Elisabeth Moss, o novo terror da Blumhouse custou apenas US$ 7 milhões e, junto com os outros 26 territórios em que estreou, já levou US$ 49,2 milhões para o estúdio, tornando-se a melhor estreia para um longa do gênero desde It – Capítulo 2. Confira a nossa crítica! […]

  2. […] Após liderar em sua estreia, O Homem Invisível ficou com a segunda posição, somando mais US$ 15,15 milhões. Agora, a produção totaliza, domesticamente, US$ 52,69 milhões — mais de sete vezes o valor do orçamento do suspense, que foi de US$ 7 milhões. Mundialmente, a obra conta com US$ 98,29 milhões. Confira a nossa crítica! […]

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