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O Oficial e o Espião | Crítica

O Oficial e o Espião | Crítica

O Oficial e o Espião (J’accuse)

Ano: 2019

Direção: Roman Polanski

Roteiro: Robert Harris

Elenco: Jean Dujardin, Louis Garrel, Emmanuelle Seigner, Grégory Gadebois, Hervé Pierre, Wladimir Yordanoff, Didier Sandre, Melvil Poupaud, Eric Ruf, Mathieu Amalric, Laurent Stocker, Vincent Perez, Vincent Grass, Laurent Natrella, André Marcon.

Não raramente, a arte nos coloca em situações que provocam sentimentos dúbios. Somos levados a conhecer obras, sejam elas músicas, pinturas, esculturas ou filmes que, apesar da qualidade — muitas vezes inquestionável —, foram realizadas por artistas que possuem em seu histórico pessoal crimes ou comportamentos inaceitáveis. Quando isso ocorre, sempre volta aquela dúvida: é possível separar a obra do artista? E, uma pergunta ainda mais importante e complexa: nós devemos fazer isso? Confesso que, apesar de já ter parado para refletir sobre isso inúmeras vezes, ainda não consegui encontrar respostas para nenhum destes questionamentos. E, independente da qualidade que possa ter o filme, certamente esse é o ponto mais marcante de O Oficial e o Espião.

Dirigido por Roman Polanski e roteirizado por Robert Harris — em uma adaptação de seu livro denominado An Officer and a Spy —, o filme conta a história real de um escândalo judicial ocorrido na França em 1894, que só teve sua conclusão 12 anos depois, e expôs a xenofobia e antissemitismo da sociedade francesa e de suas instituições naquele momento histórico. De forma muito fiel aos fatos, apresenta a injusta condenação do capitão de origem judaica Alfred Dreyfus (Louis Garrel) por alta traição, e a conturbada investigação do Coronel Georges Picquart (Jean Dujardin) em busca da verdade e de uma consequente absolvição.

A fidelidade do roteiro de Harris aos fatos amplamente divulgados nos jornais da época é um ponto positivo do filme, pois traz à tona, em um momento histórico delicado, um caso que envolve uma condenação sem provas definitivas, em um julgamento contaminado por preconceito, e influenciado pela imprensa e pela opinião pública. Seria uma ideia louvável, não fosse um filme de Roman Polanski. O diretor foi condenado por estupro de uma jovem de 13 anos, e possui pelo menos outras três denúncias do mesmo crime feitas por atrizes com quem trabalhou nas décadas de 70 e 80. Todas elas eram menores de idade na época. Ainda assim, o diretor afirmou em uma entrevista que se identificava com Dreyfus, por ser condenado publicamente por pessoas que nada sabem sobre o seu caso. Como separar o artista de sua obra? É possível? Devemos fazer isso?

O filme não é focado em Dreyfus, mas sim no Coronel Georges Picquart e em sua investigação. Em meio aos fatos conhecidos, vemos algumas amarras que tratam de sua vida pessoal, que levam a diversas decisões questionáveis, tanto em aspectos narrativos quanto éticos. No que se refere à narrativa, a inserção de um relacionamento secreto de Picquart com Pauline Monnier (Emmanuelle Seigner), uma mulher casada, ganha muito destaque e dá a entender que terá um papel muito mais relevante do que se vê no decorrer da trama. Além disso, as cenas que envolvem o casal, que no início geram uma certa expectativa sobre suas consequências, enfraquecem e tornam-se até mesmo bobas nos atos seguintes.

Sobre os aspectos éticos, ao apresentar Picquart como um antissemita confesso, torna-se estranho vê-lo lutar tão bravamente, colocando sua liberdade e até sua vida em risco, em busca de justiça para Dreyfus. Se por um lado isso evita que o personagem seja mostrado de forma unidimensional, por outro podemos interpretar que é uma maneira do diretor dizer que apesar de ser mau caráter (afinal, ele é um antissemita!) , ele pode ser também um herói, justo e abnegado. De quem Polanski está falando afinal? De Picquart, ou de si mesmo? Como separar o artista de sua obra?

E parece que nem mesmo Jean Dujardin aceitou muito bem este comportamento quase esquizofrênico de seu personagem. Com exceção de duas falas no filme, em nenhum outro momento o ator demonstra qualquer receio em ajudar Dreyfus. Assim, o astro praticamente corrige o roteiro com uma excelente atuação, fazendo com que o público consiga esquecer que suas atitudes não condizem com o que vimos do personagem no início do filme. Louis Garrel, mesmo com pouco tempo de tela, compõe seu Alfred Dreyfus de maneira muito mais sólida e coerente. Como oficial do exército, ele é obediente, mas não deixa de ser questionador e de se posicionar diante das injustiças que sofre. Garrel consegue mostrar uma raiva contida, falando de forma firme mas sem demonstrar desrespeito, algo que se faz necessário visto que seu personagem sabe que está cercado por pessoas que, na melhor das hipóteses, não o querem ali.

A direção de Polanski é muito eficiente em construir uma tensão que cresce de forma gradual, como já é de costume nos trabalhos do cineasta. O público toma conhecimento dos fatos à medida que o protagonista vai desvendando o mistério, fazendo com que compartilhe com ele as suspeitas e desconfianças sobre aqueles que o cercam. Isso funciona muito bem até quase o final do segundo ato, mas perde muita força quando já temos praticamente todas as informações, o que faz o terceiro ato parecer bem pouco inspirado, além de trazer algumas cenas desnecessárias para o desenvolvimento da trama, ainda mais se tratando do seu encerramento.

Apesar da importante história que foi contada e de ter qualidades indiscutíveis, como a fantástica direção de arte e uma fotografia marcante, é bem provável que O Oficial e o Espião passaria relativamente incógnito não fosse por seu diretor. Polanski deu peso e visibilidade a esta produção. E aí, novamente chegamos naquele dilema que nada tem de simples. Devemos separar o artista de sua obra? É difícil. Ainda mais neste caso, no qual o próprio artista usa a obra como um argumento de defesa para suas ações. E, convenhamos, este argumento nem é tão bom assim.

Nota:


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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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