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O Poço | Crítica

O Poço | Crítica

O Poço (El Hoyo)

Ano: 2020

Direção: Galder Gaztelu-Urrutia

Roteiro: David Desola, Pedro Rivero

Elenco: Iván Massagué, Antonia San Juan, Zorion Eguileor, Emilio Buale Coka, Alexandra Masangkay

Um filme metafórico precisa funcionar em dois níveis: o narrativo e o alegórico. Antes de tudo, o longa-metragem tem que contar uma boa história, que entretenha até o espectador que não entenda ou não se interesse pelos temas que o diretor quer transmitir. E, depois, de forma implícita ou não, a produção precisa que sua abordagem presente na história faça sentido. A ficção científica espanhola O Poço, na maior parte do tempo, é funcional das duas camadas.

O poço titular se trata do Centro Vertical de Autogestão, uma espécie de prisão em forma de torre com um número absurdo de andares, duas pessoas em cada. A alimentação, em teoria, é justa. No nível zero, uma equipe dedicada de cozinheiros prepara um verdadeiro banquete todos os dias, com comida o suficiente para chegar a todos os andares — isso, se cada um comesse apenas o que precisasse. Os primeiros a receber a alimentação comem tudo o que conseguem nos breves minutos em que a plataforma fica no andar, sem se importar com os de baixo. Ou seja, conforme os níveis vão ficando mais baixos, cada um recebe menos comida que o anterior e as pessoas abaixo do 100º nível não comem absolutamente nada.

Com essa premissa, somos apresentados a Goreng (Iván Massagué) em seu primeiro dia no poço. Ao contrário das centenas de colegas de confinamento, o protagonista não cometeu crime algum e se submeteu ao Centro por seis meses para conseguir um certificado, algo extremamente valioso para a sociedade apresentada no filme. Seu colega de andar é Trimagasi (Zorion Eguileor), um velho e experiente presidiário. Ele é quem explica o funcionamento da prisão para Goreng e, por extensão, à audiência. Trimagasi já esteve em níveis favoráveis e desfavoráveis, pensando apenas na própria sobrevivência, enquanto Goreng, ainda ingênuo, se preocupa com os outros.

Não é preciso pensar muito pra entender a clara alusão à desigualdade social do capitalismo. Um sistema injusto que favorece apenas os do topo, deixa os do meio em uma situação suficientemente confortável e abandona os de baixo — o que, no papel, é justo para todos. O que torna o poço mais interessante do que isso é o fato de todos mudarem periodicamente de andar, quem está no topo pode acordar em baixo, sem comida, e vice-versa. Nisso, depois de uma pessoa passar um mês sem comida, literalmente morrendo de fome, tendo que recorrer a comer excremento ou canibalismo, é óbvio que não iria pensar nos outros quando estivesse em um andar com comida, desejando apenas comer tudo o que pode enquanto tem chance.

Logo, O Poço não é simplesmente uma crítica social que é férrea contra os ricos (aqui conhecidos como A Administração), mas uma análise de o que o pobre pode chegar a fazer em situações extremas para sobreviver, mesmo que seja prejudicar um igual. Mesmo que ancore seus 95 minutos de duração neste comentário, a produção nunca deixa ser curiosíssima. Parte disso se dá a uma galeria interessante de personagens. Imoguiri (Antonia San Juan), uma funcionária da Administração disposta a provar que o sistema pode mudar se convencer os demais detentos; Miharu (Alexandra Masangkay), uma mulher trocando de níveis diariamente, à procura de seu filho perdido no sistema; e Baharat (Emilio Buale), um otimista religioso que anda com uma corda, crente de que as pessoas dos andares de cima vão ajuda-lo a chegar ao topo.

O roteiro de David Desola e Pedro Rivero é ágil e nunca fica repetitivo, mas enfraquece ao começar a apostar em óbvias alegorias religiosas — note como Goreng fica parecido com Jesus depois que o cabelo e a barba crescem. E, enquanto a transição para o terceiro ato é simplesmente espetacular, finalmente dando algum propósito aos personagens que cansaram de apenas tentar sobreviver e pretendem mandar uma mensagem para a Administração, também marca o ponto em que o filme sai dos trilhos. Da mesma forma que aconteceu com Nós e Expresso do Amanhã, O Poço passa a focar muito no metafórico e os elementos deixam de funcionar no literal. No final da missão do protagonista, as coisas param de fazer em sentido e muitas perguntas ficam em aberto.

Dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia, que nunca deixa evidenciar o baixo orçamento da produção, O Poço é um retrato violento e satírico dos dias atuais. No entanto, por diversas vezes nojento e não entregar uma conclusão concreta como muitos podem esperar, não é uma experiência para todos. Assim como Parasita, As Golpistas e tantos outros longas do ano passado, o filme aposta em críticas certeiras ao capitalismo, encontrando uma linguagem universal em que todos os países possam relacionar: injustiça.

Nota:


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Estudante de jornalismo, tem 20 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli e de musicais, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

Comments

  1. Com estes dias de quarentena, irei aproveitar para assistir este filme. Amanhã volto aqui para dar a minha opnião sobre ele

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