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Conheça Cassiopeia, o filme nacional que deveria ter entrado para a história no lugar de Toy Story

Conheça Cassiopeia, o filme nacional que deveria ter entrado para a história no lugar de Toy Story

Em novembro de 1995, a Pixar, em parceria com a Disney, lançava Toy Story: Um Mundo de Aventuras, filme que entrou para a história como a primeira animação feita inteiramente em computação gráfica. Será mesmo?

Três anos antes, em 1992, começava a ser produzida a animação brasileira Cassiopeia, comandada pelo ex-publicitário e animador Clóvis Vieira, que tinha como objetivo fazer um longa com 100% de suas imagens geradas por computadores. O filme nacional, no entanto, mesmo tendo começado a ser produzido bem antes, acabou estreando em fevereiro de 1996, três meses depois da pomposa produção norte-americana chegar às telonas dos Estados Unidos.

Ok, em um primeiro momento, parece que o Brasil perdeu para os Estados Unidos na corrida para lançar o primeiro filme feito totalmente por computação gráfica. Entretanto, um detalhe faz com que essa disputa não seja decidida de uma maneira assim tão simples.

Enquanto Cassiopeia, realizado com apenas US$ 1,5 milhão (e com muita dificuldade de financiamento), conseguiu ser 100% realizado através de computadores, Toy Story, que dispunha de um orçamento de US$ 30 milhões e uma grande equipe de mentes, utilizou escaneamento de bonecos modelados em argila. Essa prática faz com que o longa nacional seja classificado por diversos especialistas da área como o primeiro filme de animação feito inteiramente de maneira digital.

Na época, Clóvis Vieira afirmou, em conversa com a Folha, que foi procurado pelo estúdio de Toy Story. “Um representante da Disney chegou a nos procurar há dois anos, querendo saber como era o nosso projeto”, disse Vieira. Mas preferiu não alimentar polêmicas: “Seria o mesmo que ficarmos discutindo quem é o verdadeiro inventor do avião, Santos Dummont ou os irmãos Wright”.

No entanto, as tretas não acabam por aí: na corrida pelo lançamento pioneiro, a produção de Cassiopeia sofreu um grande golpe. Por volta de seis meses antes da finalização do filme, houve uma invasão na produtora, a NDR Filmes, e alguns CDs com o trabalho dos animadores foram roubados. “Isso atrasou o lançamento”, lembra Patricia De Rossi, assistente de montagem do longa, em entrevista ao Risca Faca. “Foi proposital pra Disney dizer que lançou [um filme 100% digital] antes. Os americanos gostam de fazer primeiro. A gente acredita que foi uma sabotagem intencional”, disse.

Na mesma matéria do Risca Faca, Clóvis afirmou que não liga muito para o título ou para a polêmica: “Isso não tem muita importância. O que vale no mundo é o marketing e a data do lançamento nos cinemas”. “Contudo, nós saímos na frente. A Disney soube que estávamos fazendo um filme totalmente digital. Quando perceberam que estávamos na frente, correram para a Pixar, de Steve Jobs, que tinha projetos na área. Então, a Disney jogou US$ 30 milhões no colo de Jobs para terminar antes que nós. Pessoalmente, fico feliz em fazer a Disney e Jobs terem corrido atrás de nós por algum tempo. Hoje, perdemos de mil a zero. Mas essa disputa fez bem a ambas as partes”, explicou o diretor.

Outra grande dificuldade para Cassiopeia, que foi finalizado em janeiro de 1996, foi arranjar uma empresa que o distribuísse — enquanto a Pixar tinha a Disney para fazer tal tarefa. A PlayArte aceitou distribuir o longa, mas o fez durante as Olimpíadas de 1996, o que fez com que o filme perdesse atenção da mídia, que pouco divulgou sobre seu lançamento nos cinemas. Com exceção da TV Cultura, era muito difícil ver teasers da animação nas emissoras brasileiras.

É, não foi fácil a vida de Cassiopeia e, por isso, devemos relembrar deste marco do cinema mundial.

Mas do que se trata a animação brasileira? O enredo foca no planeta Ateneia, que fica na constelação de Cassiopeia e sofre um ataque de invasores que querem sugar toda a energia do local. Quatro heróis que viajavam pela galáxia recebem um pedido desesperado de socorro e vão até o local combater os inimigos e fazer novos amigos.

Além de Clóvis Vieira, diretor-geral de Cassiopeia, outros três diretores de animação e mais onze animadores foram responsáveis pelo projeto, que começou em janeiro de 1992. Os personagens e cenários ficaram definidos com o uso de figuras geométricas básicas. A equipe até tentou fazer uma continuação do longa nacional, utilizando sua expertise e ferramentas mais poderosas, mas em 2002 o projeto foi cancelado.

Toy Story arrecadou mais de US$ 400 milhões e se tornou uma franquia bilionária, ganhando mais três capítulos — o último, lançado em 2019.


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Jornalista e radialista, é um dos fundadores do Bode na Sala. Se orgulha de ter nascido em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, e, atualmente, mora em Porto Alegre. Trabalhou em todas as áreas que se pode imaginar, mas acabou caindo no submundo geek. É fã do Jim Carrey, acha que o Ben Affleck é o melhor Batman do cinema, não suporta pseudo-cultismo e pretende dominar o mundo.

Comments

  1. Oi Carlos adorei , muito esclarecedora está reportagem, parabéns vou repassar tá amigão
    Abraços e sucesso

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