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O Caminho de Volta | Crítica

O Caminho de Volta | Crítica

Crítica de O Caminho de Volta, com Ben AffleckO Caminho de Volta (The Way Back)

Ano: 2020

Direção: Gavin O’Connor

Roteiro: Brad Ingelsby

Elenco: Ben Affleck, Al Madrigal, Janina Gavankar, Michaela Watkins, Brandon Wilson

Quantas vezes você já assistiu a um filme em que o basquete é usado como pano de fundo para contar a história de redenção de um homem desacreditado? Várias, né? Pois bem, O Caminho de Volta, novo filme de Gavin O’Connor, em um primeiro momento, pode até parecer que vai ficar no lugar-comum de outros dramas esportivos (que, muitas vezes, são ótimos), porém, o seu foco é outro. É mais denso que isso. E que bom.

Com cara daquelas produções que carregam o selo de ‘baseado em uma história real’, o longa, de maneira geral, não se inspira em fatos. Porém, seu protagonista, Ben Affleck, recentemente, viveu o mesmo drama do personagem o qual interpreta. O ator, por sinal, é o único nome de peso no projeto, pois o foco é realmente seu — e foi uma decisão mais do que acertada.

Com espaço e material para brilhar, o Batman de Zack Snyder entrega a sua atuação mais sólida e dramática até agora, colocando-se, possivelmente, entre as grandes performances do ano. Em um determinado momento, por exemplo, Affleck consegue arrancar lágrimas dizendo poucas palavras, apenas deixando transparecer a angustia e a dor que o seu personagem carrega.

A história de O Caminho de Volta acompanha Jack Cunningham, um homem que trabalha na construção civil e que vive uma vida solitária, tendo apenas a companhia de bebidas alcoólicas e daquelas amizades de boteco — além de alguns raros contatos com a família. Com o decorrer da projeção, mais camadas do personagem vão sendo apresentadas, explorando não apenas o alcoolismo, mas os motivos que o levaram até aquela situação.

Quando jovem, no ensino médio, Jack era a estrela do time de basquete e virou uma espécie de herói local. No entanto, decisões ruins que lhe custaram um futuro promissor no esporte. Anos depois, com a vida praticamente voltada ao seu vício, ele recebe um convite para treinar o seu antigo time. Relutante, o homem aceita o cargo e, aos poucos, tanto ele quanto os seus jogadores vão mudando a sua postura, o que ocasiona na já manjada arrancada da equipe rumo ao sucesso. Seria tão mais fácil se ficasse por aí…

Gavin O’Connor, entretanto, não se contenta apenas em contar uma história já vista várias vezes. Com uma boa mão para explorar os seus atores e seus personagens, o cineasta busca o lado mais realista das situações, fazendo com que suas produções, por mais distantes da realidade do espectador, consigam trazer uma identificação genuína — vide Guerreiro e O Contador, este último também conta com uma ótima performance de Affleck. As tramas comandadas pelo diretor podem não ser filmes inesquecíveis, mas é inegável que elas vão além do mais do mesmo, explorando o fator humano.

Escrito por Brad Ingelsby, dos bons Noite Sem Fim e Tudo Por Justiça, O Caminho de Volta se mostra uma obra que não conta com resoluções fáceis — não vou contar detalhes, pois, a cada nova descoberta sobre a vida de Jack, o drama ganha um novo significado. O trabalho de fotografia do longa também merece destaque, fazendo com que a cidade ajude a contar a história de Jack e do seu vazio, do seu isolamento. As cores empregadas, sempre sem brilho, colaboram para mostrar a melancolia com que o personagem enxerga a vida — lembrando o ótimo trabalho feito em Manchester à Beira-Mar.

Obviamente, o longa também tem seus problemas. Em dois pontos de virada, importantes para a história, O’Connor acaba perdendo um pouco a mão e não consegue entregar o resultado que, provavelmente, gostaria. Em um dos momentos, por exemplo, o personagem de Affleck acaba sendo chamado para participar de um momento extremamente dramático na vida de duas pessoas que, anteriormente, já havia sido citado que não eram tão próximas assim. Foi apenas uma forma de fazer com que gatilhos de Jack fossem acionados. Enfraquece o filme? Um pouco. Mas não estraga o resultado final.

O Caminho de Volta acaba não entregando exatamente aquilo que espectadores de filmes de esportes esperam, mas consegue mostrar que, às vezes, a melhor maneira de tentar superar traumas é, realmente, buscando ajuda. Fazer o que se ama ajuda, é claro, mas algumas feridas são profundas demais para cicatrizarem sozinhas. E o primeiro passo é admitir isso. A mensagem final é, de fato, uma cesta de três pontos.

Nota:


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Jornalista e radialista, é um dos fundadores do Bode na Sala. Se orgulha de ter nascido em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, e, atualmente, mora em Porto Alegre. Trabalhou em todas as áreas que se pode imaginar, mas acabou caindo no submundo geek. É fã do Jim Carrey, acha que o Ben Affleck é o melhor Batman do cinema, não suporta pseudo-cultismo e pretende dominar o mundo.

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