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O Declínio | Crítica

O Declínio | Crítica

O Declínio, sucesso francês da NetflixO Declínio (Jusqu’au déclin)

Ano: 2020

Direção: Patrice Laliberté

Roteiro: Patrice Laliberté, Charles DionneNicolas Krief

Elenco: Guillaume Laurin, Réal Bossé, Marie-Evelyne Lessard, Marc Beaupré, Marilyn Castonguay

Estamos vivendo em tempos paranoicos. A quantidade de informações não-filtradas que chegam ao público é gigantesca. Assim, entre notícias reais e falsas, as pessoas escolhem quais as que se adéquam às suas crenças e seus desejos, transformando-as em fatos — é assim que surgem terraplanistas e crentes de que o nazismo foi de esquerda, por exemplo. E o YouTube é um grande propagador destes boatos que desacreditam séculos de ciências.

Ciente da nossa realidade, o diretor e roteirista Patrice Laliberté, ao lado de Charles Dionne e Nicolas Krief, escreveu a trama de O Declínio. Nela, Antoine (Guillaume Laurin) é um pai de família neurótico com possíveis ataques terroristas, vírus (ok, aí ele tem razão), desastres naturais e, claro, teorias de conspiração. Ele simula evacuações de emergência no meio da madrugada, estoca alimentos e tem em Alain (Réal Bossé), um youtuber que despeja informações sem embasamento, o seu guru — é a arte do Canadá imitando a vida no Brasil?

Em um certo dia, Antoine e mais um grupo de paranoicos se reúnem em uma espécie de treinamento de sobrevivência na fazenda gigantesca de Alain. Neste período, os ‘alunos’ praticam tiro, agricultura, caça e, até mesmo, manuseio de explosivos. Tudo vai bem — dentro daquele universo lunático, é claro —, até que um acidente acaba fazendo com que surjam dois grupos: um que quer abafar o caso e o outro que quer fazer o certo, chamando a polícia. A partir daí, aquele sem-fim de terras congeladas se torna o cenário de um jogo de gato e rato.

A direção de Laliberté é eficiente ao criar um ambiente tenso, até antes mesmo da harmonia ir pelos ares. Alain, por mais que pareça gentil, mostra que um homem que vive em uma realidade atormentada não possuiu muito equilíbrio — o trabalho do ator Réal Bossé é ótimo neste sentido, revelando as diversas camadas do seu personagem. O grupo convidado para o treinamento também foi eficaz, mostrando personalidades distintas, apesar de todos estarem focados no mesmo propósito.

O cenário escolhido para rodar O Declínio é outro grande acerto. Sem qualquer sinal de civilização ao redor, a fazenda de Alain é um local no meio do gelo e, apesar de ser um lindo, o lugar também é angustiante, por não revelar qualquer tipo de esperança para os personagens que fogem. O trabalho de fotografia, que é assinado por Christophe Dalpé, também merece destaque, usando daquele deserto branco para criar a sensação de perigo iminente, em que o ser humano ou a natureza podem causar a morte.

Apesar de sua curta duração — 83 minutos —, O Declínio consegue desenvolver a sua história de maneira satisfatória, com uma boa introdução, sequências de ação competentes e uma interessante troca de foco de personagem no terceiro ato, realizada de maneira surpreendente. Contendo muita violência, totalmente justificada, o longa canadense consegue captar as paranoias dos tempos atuais para entregar um desfecho condizente com a sua proposta. No final das contas, a mensagem que fica é: escolha bem os seus líderes.

Nota:


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Jornalista e radialista, é um dos fundadores do Bode na Sala. Se orgulha de ter nascido em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, e, atualmente, mora em Porto Alegre. Trabalhou em todas as áreas que se pode imaginar, mas acabou caindo no submundo geek. É fã do Jim Carrey, acha que o Ben Affleck é o melhor Batman do cinema, não suporta pseudo-cultismo e pretende dominar o mundo.

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