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A Vida e a História de Madam C.J. Walker | Crítica

A Vida e a História de Madam C.J. Walker | Crítica

Crítica de A Vida e a História de Madam C.J. WalkerA Vida e a História de Madam C.J. Walker (Self Made: Inspired by the Life of Madam C. J. Walker)

Ano: 2020

Direção: DeMane Davis, Kasi Lemmons

Roteiro: Nicole Jefferson Asher, A’Lelia Bundles, Elle Johnson, Janine Sherman Barrois, Tyger Williams

Elenco: Octavia Spencer, Tiffany Haddish, Carmen Ejogo

Biografias inspiradoras são lugar-comum na indústria do entretenimento. Sempre há interesse por histórias de pessoas que superaram todas as barreiras para vencer na vida. Mas o gênero sempre prega armadilhas aos seus realizadores, que tendem a soarem genéricos e sem personalidade quando investem seus esforços em produções do tipo — raros são os casos em que um filme ou série consegue se destacar em meio à essa multidão. Este poderia ser o caso de A Vida e a História de Madam C.J. Walker, produção da Netflix estrelada por Octavia Spencer. Apesar de escorregar, muitas vezes, nessas armadilhas, a atração aposta em uma estética arrojada para encontrar sua personalidade e alcançar brilho, mesmo que o custo ético para isso seja significativo.

A minissérie se dedica a ficcionalizar a vida de Madam C.J. Walker, oficialmente a primeira mulher negra a se tornar milionária nos Estados Unidos. Vivida pela soberba Octavia Spencer, Walker era uma lavadora de roupas humilde que passou a produzir e vender produtos para o cabelo exclusivos para mulheres negras e, a partir disso, construiu um império que a colocou em evidência em uma sociedade preconceituosa ao extremo. Em sua jornada, Walker não teve que superar apenas a pobreza de suas origens, mas também o racismo de uma América que recém havia abolido a escravidão e o machismo dentro do próprio movimento negro.

A série aposta em uma narrativa enxuta e objetiva, com apenas quatro episódios que não ultrapassam os 50 minutos de duração cada. Recortando um período de tempo relativamente curto, a produção não perde tempo com flashbacks: os traumas passados de Walker são colocados em tela de maneira orgânica e não quebram o ritmo da narrativa. A montagem ágil dá um ritmo intenso à série, que aposta em uma linguagem moderna, com cortes rápidos e precisos de câmera, ilustrados por uma trilha sonora que aposta em músicas contemporâneas.

A escolha da trilha sonora é acertada não somente para dar um ar jovial a um produto que podia soar tão datado (a série se passa durante os anos 1920), mas também para situar o espectador no espaço para que saibamos que aqueles locais existem; que não são apenas espaços que ficaram congelados no tempo. Quando a narrativa nos leva ao Harlem e a trilha que ilustra essa passagem é o Harlem Shake, a ideia é de que aquele lugar não é apenas um bairro da Nova York dos anos 1920, mas sim um espaço vivo, que tem sua personalidade e suas particularidades, que mudou mas ainda possui a mesma essência de 100 anos atrás. Embora a série exagere em algumas incursões, como o cafoníssimo ringue em que Walker e a ‘vilã’ Maddie lutam, a maioria das escolhas estéticas se mostram certeiras.

Octavia Spencer cria uma sinergia evidente com Madam. Apenas com a expressividade de seu olhar, confere um mundo de sutilezas à personagem, tornando-a complexa. Mesmo sendo uma mulher assertiva e ambiciosa, Madam possuía fragilidades e medos que a transformam sua personalidade única. Porém, a mesma sensibilidade na construção de Walker não é encontrada nos demais personagens, e é aí que reside o grande problema da produção.

Quem exerce o papel de antagonismo na série é Addie Munroe (Carmen Ejogo), personagem inspirada levemente em Annie Malone, que, assim como Walker, era uma mulher negra que se tornou uma empreendedora bem-sucedida do ramo dos cosméticos. Munroe é uma personagem fraquíssima, apresentando uma personalidade mesquinha e absolutamente maniqueísta, digna de vilã de Malhação. Somente essa má construção seria motivo para críticas, mas quando comparamos Munroe com a pessoa real que a inspirou, o sentimento de vergonha alheia se transforma em revolta.

Annie Malone foi uma mulher tão importante para a história da comunidade negra dos EUA quanto C.J. Walker, e, pelo que os relatos sobre sua vida contam, nada tinha de mesquinha ou invejosa. Pelo contrário: era uma filantropa que militou por anos na causa das mulheres negras, sendo uma das vozes mais importantes em sua época. Além disso, tinha o tom de pele tão escuro quanto a protagonista, o que destrói um dos grandes eixos da rivalidade entre as duas na série. Os roteiristas de A Vida… parecem ter testado os limites do debate sobre ética em torno da ficcionalização de fatos e personas reais, já que para elevar a memória de uma pessoa, destruíram de forma injusta a reputação de outra.

Com uma linguagem ousada e funcional na maior parte do tempo, A Vida e a História de Madam C.J. Walker apresenta um bom entretenimento para os fãs do gênero ‘história de vida inspiradora’, podendo, inclusive, ir além, graças à competência de sua realização. Porém, é inegável que os problemas éticos na construção tirem boa parte do brilho da obra.

Nota:


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Jornalista em formação, ex-membro do finado e saudoso Terra Zero e leitor de histórias em quadrinhos. Fã de ficção científica e terror, divide seu tempo livre entre o cuidado com suas dezenas de gatos e a paixão pela cultura pop. Sonha com o dia em que perceberão que arte é sim, uma forma de discutir política.

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