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La Casa de Papel: Parte 4 | Crítica

La Casa de Papel: Parte 4 | Crítica

Crítica de la Casa de Papel: Parte 4La Casa de Papel: Parte 4

Ano: 2020

Criação: Álex Pina

Elenco: Úrsula Corberó, Álvaro Morte, Itziar Ituño, Pedro Alonso, Alba Flores, Miguel Herrán, Jaime Lorente, Esther Acebo, Darko Peric

O final da Parte 3 de La Casa de Papel, lançada no ano passado, trouxe uma sensação inédita em relação à série: o otimismo. Os últimos minutos daquela temporada foram trágicos e, ao que tudo indicava, os personagens tinham entrado em um caminho sem volta. Na trama, uma guerra havia explodido. As atitudes tomadas eram irreparáveis. Promissor. A atração, agora da Netflix, poderia, finalmente, tornar-se interessante, caso desse continuidade para aquele desfecho. Mas, assim como os planos do Professor, nada é o que parece.

A tão aguardada Parte 4 do seriado criado por Álex Pina já começa baixando a adrenalina deixada, buscando amenizar os danos e trazer de volta a mesma sensação de novela mexicana que pairou sobre La Casa de Papel na maioria do tempo. Logo, aquele fio de esperança deixado pela temporada anterior se esvai e o mais do mesmo retorna. E com tudo.

Ainda dentro do Banco da Espanha para derreter e roubar 50 toneladas de ouro, os assaltantes precisam lidar com a situação de Nairóbi (Alba Flores), baleada gravemente, o que os obriga a transformarem-se em cirurgiões — e dos bons, vale ressaltar. Neste meio tempo, fora dali, o Professor (Álvaro Morte) segue transtornado com a suposta morte de Lisboa (Itziar Ituño). Tudo parece muito difícil de se contornar. Os dois pontos dramáticos deixados pela Parte 3, porém, se resolvem graças a Tóquio (Úrsula Corberó), obviamente. Péssima e pobre decisão.

Nesta nova leva de episódios de La Casa de Papel, os roteiristas, liderados por Álex Pina, decidem dar mais espaço para a pior personagem da atração. Instável e conhecida por tomar as piores decisões possíveis, Tóquio acaba se tornando uma líder dentro da continuação do atraco, mostrando que a história sequer tenta encontrar algum tipo de verossimilhança, uma vez que os seus colegas incentivam que ela assuma a frente do assalto. E, claro, como se já não fosse ruim o bastante, Úrsula Corberó entrega uma performance constrangedora, que ainda é potencializada quando a atriz contracena com qualquer um dos seus colegas de elenco, que são profissionais infinitamente melhores. Deve ser por isso que ela passa boa parte do tempo trancafiada, sozinha… Enfim.

Mas, bem, falar de verossimilhança e La Casa de Papel não adianta muito. É água e azeite. Nestes novos episódios, o assalto é deixado ainda mais de lado para focar nos dramas dos personagens — no primeiro capítulo, a ação para roubar o ouro é mostrado por menos de um minuto. Sério. O atraco não tem espaço. Entretanto, o seriado encontra tempo para investir em comédia — como em uma lamentável sequência em que um touro ameaça o Professor. Pois é. Esses momentos de humor não seriam ruins, desde que soubessem dosar e colocar nas ocasiões certas. O que não acontece.

Como o roubo se tornou apenas o acessório que leva aos conflitos, que é no que a série coloca o seu holofote, temos momentos que chegam a dar vergonha alheia nestes novos episódios. Diálogos sofridos, brigas incompreensíveis e situações tão bizarras que parecem ter sido tiradas das novelas mexicanas dos anos 1990, mas, infelizmente, não são. A decisão de trazer Arturo Román (Enrique Arce) de volta é um dos pontos que não fazem sentido, por exemplo. Na Parte 4, o personagem não acrescenta em nada, é condutor de uma trama que traz à tona um assunto grave, mas nada acontece. É um satélite defeituoso e barulhento orbitando aquele planeta. Assim como vários outros arcos.

É interessante observar que, como o assalto é apenas um complemento, uma desculpa para reunir aquelas pessoas naquele lugar, os planos do Professor, que, antigamente, eram inteligentemente engenhosos, agora, são apenas planos quaisquer. Na verdade, um deles, utilizado para resgatar uma personagem mais para o final, sequer faz sentido. E que se dane. O que importa é o beijo, é o choro.

Nestes oito novos capítulos, a sensação que fica é que tudo poderia ter se resolvido em apenas dois ou três. Berlim (Pedro Alonso), como exemplo, um personagem que caiu no gosto popular nas primeiras partes da série, serve aqui para ajudar a explicar o novo plano, através de flashbacks, e, também, para soltar teorias de efeito que, intercaladas com a narrativa principal, vão explicando as ações de alguns personagens. É um artifício que serviria bem, se não fosse utilizado à exaustão. Em determinados momentos, ele está abordando os mesmos assuntos, dizendo frases repetidas. Pouco acrescenta. É apenas para que os fãs possam ver mais do amigo/irmão do Professor. Apesar da performance de Alonso ser uma das melhores da série, cansou.

Para complementar, Álex Pina e seus escritores decidiram misturar ficção científica com La Casa de Papel. Sim, porque é apenas esta a explicação para o vilão Gandía (José Manuel Poga). O personagem, que é chefe de segurança do Banco da Espanha, que estava sendo mantido como refém e consegue se soltar, incorpora o T-1000 de Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final e simplesmente não morre. De jeito nenhum. Completando a sessão sci-fi, todos os atracadores viram Stormtroopers, de Star Wars, e não conseguem acertar o alvo. Vergonhoso.

É claro que a diferença de La Casa de Papel para outras produções que focam em grandes e engenhosos assaltos é, justamente, esse ar de novela. Os conflitos. O lado humano. E isso seria algo a se respeitar, caso essa novela fosse… uma boa novela! Mas não. A mistura toda é confusa, mal dosada. Inacreditável. Os maiores assaltantes do mundo não têm controle. Não conseguem passar por alguns dias sem brigar, transar, trair, chorar ou controlar os seus reféns. E o pior nem é isso: a Parte 5, certamente, está vindo aí.

Não aguento mais esses atracadores roubando as minhas horas de vida…

Nota:


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Jornalista e radialista, é um dos fundadores do Bode na Sala. Se orgulha de ter nascido em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, e, atualmente, mora em Porto Alegre. Trabalhou em todas as áreas que se pode imaginar, mas acabou caindo no submundo geek. É fã do Jim Carrey, acha que o Ben Affleck é o melhor Batman do cinema, não suporta pseudo-cultismo e pretende dominar o mundo.

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