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Tigertail | Crítica

Tigertail | Crítica

Tigertail

Ano: 2020

Direção: Alan Yang

Roteiro: Alan Yang

Elenco: Tzi Ma, Christine Ko, Hayden Szeto, Lee Hong-chi, Kunjue Li, Fiona Fu, Yang Kuei-mei, James Saito, Joan Chen

Começando sua carreira como roteirista e diretor de episódios da sitcom Parks and Recreation, o vencedor do Emmy Alan Yang dedicou os seus projetos seguintes para contar a experiência do imigrante nos Estados Unidos. Nisso, Yang cocriou as séries Master of None, para a Netflix, e Little America, para a AppleTV+, explorando os motivos que levavam os estrangeiros a sair das suas terras-natais e as dificuldades que encontravam procurando construir um futuro melhor. Tigertail, seu primeiro longa-metragem, não poderia ser diferente na sua mensagem.

Ao longo de cinco ou seis décadas, acompanhamos a vida de Pin-Jui (Lee Hong-chi), um jovem sonhador que passou por uma infância difícil, obrigado a morar com a tia, enquanto a mãe (Yang Kuei-mei) trabalhava para sustentá-lo após morte do pai dele. Pin-Jui, agora um jovem descontraído e carismático, por ter crescido longe da mãe, quer trabalhar para dar um futuro melhor para ela. Quando surge uma oportunidade de mudar para os Estados Unidos, casando-se com a filha do chefe, Zhenzhen (Kunjue Li), o protagonista precisa abandonar a namorada (Yo-Hsing Fang) para não perder a oportunidade que sempre quis.

A primeira meia hora de Tigertail se desenvolve como qualquer outro drama sobre imigração e demora um pouco para convencer, mas acertando em estabelecer a relação do personagem principal com a mãe e a namorada, dando um peso maior quando ele finalmente muda de país. Quando a trama chega aos Estados Unidos, o filme ganha sua verdadeira força, tanto no presente quando no passado. Somos introduzidos a um Pin-Jui já idoso (agora vivido por Tzi Ma), como um velho frio e de poucas palavras, o que acarretou em seu divórcio e no distanciamento da relação com a sua filha, Angela (Christine Ko).

A diferença entre as duas versões do protagonista é gritante e trágica. Testemunhamos a mudança acontecer quando ele não encontra o sonho americano que tanto esperava, tendo de lidar com dificuldades e precisando trabalhar ainda mais duro nos EUA, agora tendo que sustentar a esposa, com a qual estava começando a se dar bem antes de ter que se entregar totalmente ao emprego. No entanto, as diferenças na personalidade de Pin-Jui acontecem muito rápido, já que a produção tem apenas uma hora e meia, definitivamente falta um desenvolvimento mais bem trabalhado e crível.

Mostrar o lado de Zhenzhen da história também é uma escolha competente. A garota precisou mudar de país com um homem que mal conhecia por escolha do pai e, por mais que, a princípio, Pin-Jui fosse um marido esforçado e trabalhador, passava o dia inteiro sozinha em casa sem conhecer ninguém por não falar inglês. Mesmo que queira fazer algo da vida e começar a trabalhar, ela fica presa nas função de mãe e de esposa de um marido cada vez mais distante. No presente, o longa brilha ao não só mostrar o protagonista como um produto de tudo o que aconteceu com ele, mas de alguém com a capacidade de mudar. A relação do pai com a filha ancora o terceiro ato e leva à uma linda conclusão, com Pin-Jui aprendendo a entrar em termos com o que viveu no passado e se abrindo com Angela, tentando construir uma relação que ele deveria ter tido com ela a vida inteira, mas conseguiu apenas tarde demais.

O roteiro, escrito por Yang, baseado nas experiências do pai dele, demora um pouco pra engrenar, mas não falha em mostrar a habilidade do diretor em contar uma história que não se resume apenas aos asiáticos e seus descendentes, mas que é universal, por poder ser relacionável com todos aqueles que precisaram migrar ou que têm pais que migraram. No entanto, existem algumas ideias que poderiam ser mais bem desenvolvidas, mas que foram abandonadas logo de cara, — como Pin-Jui alucinar com os pais quando criança ou a relação de Angela com o pai durante a infância, que aparece durante uma única cena. Uns dez ou quinze minutos a mais seriam ótimos para explorar mais diversos aspectos do filme.

A direção não deixa a desejar. Alan Yang, que comandou dois dos melhores episódios de Master of None — que já é muito mais bem dirigida do que outras séries de comédia —, consegue compor bons visuais sem nunca perder o foco nos personagem. Todos os atores de um elenco praticamente desconhecido (com exceção de Tzi Ma e Joan Chen, que têm décadas de créditos de atuação) são bastante competentes. Tigertail é um filme original da Netflix como poucos, emocionalmente autêntico e com algo a dizer. Se apenas mais produções da plataforma fossem assim…

Nota:


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Estudante de jornalismo, tem 21 anos e é assistidor de séries semi profissional. Viciado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli, slashers e musicais, adora cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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