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Milagre na Cela 7 | Crítica

Milagre na Cela 7 | Crítica

Crítica de Milagre na Cela 7Milagre na Cela 7 (7. Koğuştaki Mucize)

Ano: 2019

Direção: Mehmet Ada Öztekin

Roteiro: Kubilay Tat

Elenco: Aras Bulut İynemli, Nisa Sofiya Aksongur, Cankat Aydos, Deniz Baysal, Hayal Köseoğlu

De tempos em tempos, algum filme com uma história triste e cheia de lições cai nas graças do público, e estúdios e produtoras dos mais diversos países decidem refazê-lo, com pouca ou nenhuma alteração na trama, para apostar suas fichas em uma fórmula que já deu certo. Normalmente, o que resulta disso é uma produção sem alma, sem personalidade, com toda pinta de um mero caça-níqueis. Recentemente vimos isso acontecer com o drama francês Intocáveis, de 2011, que ganhou remakes na Índia, Argentina e Estados Unidos poucos anos depois. O que torna essa prática incompreensível – quando analisada pelo viés artístico – , é o fato de não haver nenhum acréscimo dramático significativo nestes filmes, algo que os torne relevantes, mostrando que o único objetivo destas produções era a busca por dinheiro fácil. Seguindo essa mesma linha, a Netflix traz para seu catálogo o drama turco Milagre na Cela 7, de 2019, remake de um filme coreano homônimo de 2013, que teve também uma outra releitura feita no ano passado, mas esta nas Filipinas. Infelizmente, como já era de se esperar, esta versão turca comete os mesmos erros da maior parte desses remakes.

Utilizando a premissa do original coreano, Özge Efendioglu e Kubilay Tat escrevem um roteiro incrivelmente preguiçoso. Na trama, Memo (Aras Bulut Iynemli), um rapaz com deficiência mental, é acusado injustamente do assassinato da filha de um poderoso coronel do exército turco. Ele é preso e condenado à morte, sendo afastado de sua pequena filha, Ova (Nisa Sofiya Aksongur). Na prisão, após um início no mínimo complicado, Memo é acolhido pelos colegas de cela, que passam a tentar ajudá-lo a provar sua inocência, enquanto o mesmo movimento é realizado fora da cadeia, mas lá, partindo de Ova e da sua professora Mine (Deniz Baysal).

O que vemos na tela é uma sucessão de situações inverossímeis, arcos dramáticos não finalizados, personagens que surgem e somem de forma totalmente incoerente, e diálogos inacreditáveis – no mal sentido. O que dizer da conversa entre Ova e o “gigante caolho”? O roteiro não demonstra nenhum cuidado em fazer sentido ou criar o ambiente que despertaria emoções de maneira genuína. Ele simplesmente utiliza como muleta o clichê melodramático da injustiça com uma pessoa incapaz de se defender, de uma criança fofinha e carismática que fica sozinha no mundo, e o pior, usando a trilha sonora para forçar uma sensação de tristeza que a história não consegue desenvolver por si só.

Com elementos que remetem a Uma Lição de Amor e Um Sonho de Liberdade, o diretor aproveita também para fazer uma referência (ou simplesmente copiar) o plano de À Espera de um Milagre no qual John Coffey (Michael Clarke Duncan) é encontrado com as meninas mortas e, devido a isso, acusado do crime. Ou seja, o resultado medíocre que enxergamos não foi por falta de boas fontes de inspiração, transparecendo ainda mais que em nenhum momento houve a preocupação em trazer ao público algo original, ou qualquer coisa além de um drama genérico.

O elenco principal é o que salva a produção do fracasso completo. Driblando os péssimos diálogos e as situações absurdas, eles conseguem conduzir a trama de forma minimamente lógica. Aras Bulut Iynemli, que interpreta Memo, parece meio fora de tom nos momentos iniciais, mas a coerência na composição de seu personagem se torna perceptível com o desenrolar da história, principalmente no terceiro ato. Já a pequena Nisa Sofiya Aksongur é, sem dúvida, o grande destaque do filme. Demonstra um talento incrível ao alternar diversos sentimentos em uma mesma cena, e muitas vezes até no mesmo plano. Aos 8 anos de idade, ela é a responsável por carregar um filme nas costas. E em meio a diversos coadjuvantes inúteis ou incrivelmente mal construídos (o que dizer de um suicida que se “cura” simplesmente aprendendo que se matar não é uma coisa boa?), encontramos em Askorozlu, muito bem interpretado por Ilker Aksum, um personagem um pouco mais complexo e com um arco melhor desenvolvido. Mesmo que no final do segundo ato haja uma conclusão meio estúpida para uma história pessoal sua, no que se refere aos acontecimentos da prisão, ele possui uma trama mais coerente.

Apesar de longo e de seus tantos problemas, Milagre na Cela 7 não é cansativo. Sua montagem dá um ritmo mais acelerado do que poderíamos esperar de um filme com esta temática. Talvez, isso até sirva para que o público não tenha tempo de perceber as inúmeras inconsistências narrativas que se acumulam com o desenrolar da trama. Mesmo que não tenha funcionado comigo, não posso dizer que o filme não tenha a capacidade de emocionar o público e, ainda que eu não concorde, para muitos, isso pode ser o suficiente.

Nota:


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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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Comments

  1. Concordo totalmente com essa crítica. O filme é péssimo, roteirista preguiçoso, não da pra se apegar a história pq além de tudo parecer forçado, não tem nenhuma coerência algumas “soluções”, vide o “Gigante Caolho”.

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