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Legado nos Ossos | Crítica

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Crítica de O Legado nos OssosLegado nos Ossos (Legado en los Huesos)

Ano: 2019

Direção: Fernando González Molina

Roteiro: Dolores Redondo, Luiso Berdejo

Elenco: Marta Etura, Carlos Librado, Francesc Orella, Leonardo Sbaraglia, Benn Northover, Imanol Arias

Imagine o seguinte cenário: uma pequena localidade ao norte da Espanha, em um vale muito antigo, cuja ocupação data do século XI, e é cercado por uma densa e nobre floresta. Seu povo, de origem basca, compartilha um dialeto próprio, uma culinária tradicional e uma cultura riquíssima. A vida moderna se confunde com a ancestralidade, e lendas do folclore local parecem rondar a cidade nos dias de hoje. 

É com essa premissa que somos apresentados à trilogia Bastán, que narra a relação da inspetora Amaia Salazar (Marta Etura) com o passado sombrio de sua família, enquanto investiga casos que flertam com o sobrenatural na pacata e pequena Elizondo. O primeiro filme, O Guardião Invisível, nos apresenta os principais personagens e contextos da vida de Amaia, e para entender o todo se faz fundamental assisti-lo.

Ao contrário de seu predecessor, Legado nos Ossos não tem medo de abraçar o viés sobrenatural de sua história, e começa com uma cena de séculos atrás, estabelecendo uma conexão entre os Salazar e algo muito maior que discussões familiares. Em seguida, ignorando os espectadores desavisados, a história parece começar pela metade, já apresentando desfechos com pouco tempo de filme. Esse é um dos problemas do longa: ele não funciona sozinho. Sem assistir ao primeiro, torna-se impossível entender diversos acontecimentos, e algumas grandes revelações tornam-se vazias, pois carecem de contexto.

Tal fato não prejudica o valor da obra, pois a trilogia Bastán é inspirada em uma série de livros, e os fãs da autora já esperavam por essa divisão. É curioso, porém, que ao decidir pela dependência ao primeiro filme, a história como um todo se torne mais interessante. Um espectador casual vai se incomodar com a falta de contexto dos acontecimentos, e desfechos que não fazem sentido algum; mas ao assistir às duas obras, a história ressoa perfeitamente, e se encaixa de modo satisfatório. 

Outro ponto negativo é algo costumeiro em adaptações literárias: certos personagens não funcionam no contexto cinematográfico. É o caso de James (Benn Northover), marido de Amaia, que demonstra ser uma pessoa confusa além de um personagem com a profundidade emocional de uma azeitona. Suas variações de humor soam forçadas, assim como os diálogos com a inspetora; boa parte desse resultado negativo, contudo, cai na conta da falta de talento de Northover.

Temos também Aluisius Dupree (Colin McFarlane), o bizarro guru espiritual/agente do FBI/mentor de Amaia, que aparece em momentos de necessidade para falar uma frase enigmática e instigar a inspetora para fazer exatamente aquilo que levará à solução do caso. Parece um personagem ótimo para um livro, mas que foi muito mal traduzido para o filme. 

O destaque positivo vai para a direção geral, que fez um excelente trabalho. Os planos são utilizados de forma didática, reforçando a mensagem liminar da obra. Algumas sequências que poderiam ser maçantes foram realizadas de forma inteligente, elevando Molina a um novo patamar. Cabe destacar também a excelente fotografia do filme, que nos faz imergir nessa aura sobrenatural que envolve os acontecimentos. 

O terceiro ato do filme acaba se arrastando mais do que o necessário, e traz um número excessivo de clímax. O primeiro deles é o mais animador, transformando um personagem que julgávamos bom em um inimigo, mas isso logo é desfeito e acaba esfriando a história, que se encerra em uma sucessão de acontecimentos previsíveis. 

Algo interessante trazido pela escola moderna de cinema espanhol é a quebra de paradigma do cliffhanger, que é aquele momento que percebemos que a história não acaba ao subir dos créditos, ainda existem questões importantes a serem tratadas. Ao assistir Legado nos Ossos, é possível notar que seu antecessor semeou a todo tempo perguntas importantes, e a fórmula foi repetida na parte dois, de modo que já é possível antecipar algumas questões que aparecerão na terceira e última parte desta trilogia. 

Legado nos Ossos nos prende e entrega um resultado positivo. Uma boa direção, fotografia bem executada e atores esforçados em contraponto a um roteiro que oscila em sua própria essência, embora tenha seus pontos fortes. Não é um marco histórico dos filmes de suspense psicológico, mas certamente agradará aos fãs do gênero. Por depender de seu antecessor, pode ser mal interpretado como longa solo, mas é preciso questionar se a intenção da obra é existir sozinha ou pertencer a algo maior.

 Nota:


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Ator, escritor, diretor e roteirista, Gabryel é ruim em todas essas coisas. Crítico por natureza, adora reclamar de tudo, e é fã de filmes que ninguém tem paciência pra assistir. Carrega a convicção de que Click é um clássico cult e quem discorda é clubista.

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Comments

  1. Maurício de Souza - 19 de abril de 2020 at 17:39 - Responder

    Adoro as críticas do Gabryel Nunes, por mim sempre antes de ver qualquer filme gostaria de ver a crítica escrita pelo Gabryel.

  2. Maurício de Souza - 19 de abril de 2020 at 17:40 - Responder

    Adoro as críticas do Gabryel Nunes, por mim sempre antes de ver qualquer filme gostaria de ver a crítica escrita pelo Gabryel para saber se vale a pena gastar meu dinheiro.

  3. Ótima crítica!!! O filme me surpreendeu positivamente, fechando a trilogia sem dever muito aos livros.

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