Sala Crítica
Resgate | Crítica

Crítica de Resgate, na NetflixResgate (Extraction)

Ano: 2020

Direção: Sam Hargrave

Roteiro: Joe Russo

Elenco: Chris Hemsworth, Rudhraksh Jaiswal, Randeep Hooda, Priyanshu Painyuli, Golshifteh Farahani, Pankaj Tripathi, Suraj Rikame, David Harbour

Os filmes de astros estão em extinção. Isso não é uma crítica ou um desejo, e sim uma constatação: Hollywood, que nos anos 1980 e 1990 organizava seus grandes lançamentos em torno de estrelas como Arnold Schwarzenegger, Sylvester Stallone e Bruce Willis, está dando lugar à Hollywood das franquias, onde ‘sagas’ como Transformers, Velozes e Furiosos e Star Wars monopolizam a atenção — e o dinheiro — do público. É raro, portanto, o que vemos em Resgate: um filme de ‘macho’, que se organiza em torno de Chris Hemsworth, o Thor do Universo Marvel. Embora seja fruto de outra época, Resgate não se limita a isso, já que apresenta uma ação contemporânea e arrojada, e até mesmo resquícios de comentários sobre masculinidade e paternidade.

Produzido pelos irmãos Anthony e Joe Russo (Vingadores: Guerra Infinita e Vingadores: Ultimato), Resgate adapta com muitas liberdades a graphic novel Ciudad, de 2014, escrita pelo próprio Joe Russo (que roteiriza a produção) em parceria com Ande Sparks e desenhada por Fernando León González. Tyler Rake (Hemsworth) é um mercenário alcoólatra que aceita um trabalho de grande risco: resgatar um filho de um traficante indiano chamado Ovi (Rudhraksh Jaiswal), sequestrado por um mafioso rival de Bangladesh, Amir (Priyanshu Painyuli). Em seu caminho, encontrará toda sorte de obstáculos, desde os próprios homens de Amir, passando pela polícia de Bangladesh e um agente do próprio pai de Ovi, Saju (Randeep Hooda), até chegar em um antigo aliado (que não vou nomear para não dar spoilers). E, acredite, é tudo o que você precisa saber sobre a trama.

Todos os clichês de filmes de ação estão presentes aqui: o protagonista durão com passado traumático, o garotinho que irá dobrar o coração do protagonista, o vilão que faz maldades apenas por ter vontade, o homem misterioso que tem um passado com o mocinho e aparece para salvá-lo quando este está em apuros.  Todas as peças são colocadas em jogo apenas para que a ação possa correr freneticamente por toda a produção. Ela é a grande motriz do filme, que funciona maravilhosamente bem por isso.

A ação é frenética, intensa, arrojada. Há um ‘plano sequência’ (expressão que sempre deve vir cercada de muitas aspas) de mais de 20 minutos que reúne, em si, todas as qualidades do restante da produção: movimentos arrojados de câmera, coreografias realistas, controle total do espaço, do tempo, construção de tensão constante. Um desbunde que só poderia ser comandado por quem manja do riscado. Sam Hargrave, diretor da produção, é da mesma linhagem de David Leitch: realizador que foi de dublê a coordenador de dublês, e disto a diretor. Nesse projeto, Hargrave emula a lógica dos video games para nos colocar diretamente em meio ao caos, sem perder a perspectiva do protagonista e sua missão.

Não é do interesse de Hargrave desenvolver personagens. Graças a isso, muitas atuações não entregam o que o filme precisa, como as de Jaiswal e Painyuli, que não conseguem extrapolar o texto raso que receberam. Sorte dele que o astro à moda antiga dá conta do recado. Chris Hemsworth lança mão de toda sua fisicalidade e carisma para conduzir a produção. O australiano é preciso, tanto na intensidade nas cenas de campo, quanto na sensibilidade de construir um homem rude, mas com sentimentos que o definem.

A cena em que admite a Ovi que não se acha um homem corajoso é a materialização de figura do homem que compensa sua fragilidade emocional interna com uma suposta força exterior, exalando testosterona e vivendo em torno de violência, dinheiro e álcool. Um comentário superficial, mas correto sobre masculinidade, e especialmente sobre a masculinidade vendida nos filmes de ação de Hollywood. Não fosse Hemsworth a interpretá-lo, seria difícil acreditar em alguma fraqueza por debaixo daquela montanha de músculos. Mas ele a entrega com louvor.

Resgate é uma bela opção de entretenimento para os fãs do gênero e para os fãs do trabalho de Hemsworth. Com uma bela direção de ação que compensa o roteiro frágil e esquemático, servirá para divertir as pessoas que querem ver seu astro favorito em ação em um filme feito apenas para ele. Aproveitem enquanto isso ainda existe.

Nota:


Quer ficar por dentro de todas as novidades sobre filmes e séries? Siga a gente no Instagram!

The following two tabs change content below.
Jornalista em formação, ex-membro do finado e saudoso Terra Zero e leitor de histórias em quadrinhos. Fã de ficção científica e terror, divide seu tempo livre entre o cuidado com suas dezenas de gatos e a paixão pela cultura pop. Sonha com o dia em que perceberão que arte é sim, uma forma de discutir política.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *