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Eu Nunca – 1ª temporada | Crítica

Eu Nunca – 1ª temporada | Crítica

Eu Nunca (Never Have I Ever)

Temporada: 

Ano: 2020

Criação: Mindy Kaling, Lang Fisher

Elenco: Maitreyi Ramakrishnan, Darren Barnet, Ramona Young, Lee Rodriguez, Richa Moorjani, Poorna Jagannathan, Jaren Lewison, John McEnroe

Criada por Mindy Kaling e Lang Fisher, Eu Nunca aparenta ser como qualquer outra série adolescente. Uma garota nerd disposta a tudo para conquistar o interesse amoroso atlético e popular, bem como o objetivo de perder a virgindade com ele, é dificilmente algo nunca antes visto. Já vimos bastante disso. A princípio, a diferença é o elenco etnicamente diverso neste gênero de série em que estamos acostumados a ver apenas jovens brancos como protagonistas. Mas a nova produção original da Netflix vai muito além de escolhas no elenco para entreter.

Devi Vishwakumar (Maitreyi Ramakrishnan) é uma brilhante aluna indiana de 15 anos, destaque em tudo o que se propõe a fazer na escola e, por extensão, impopular. Junto com Eleanor Wong (Ramona Young), sua amiga japonesa viciada em teatro, e Fabiola Torres (Lee Rodriguez), uma jovem negra especialista em robótica, as três formam um grupo de garotas talentosas que são ignoradas pelos colegas. Devi, disposta a mudar isso, cria um plano para que todas consigam sair com meninos e, possivelmente, começar a namorar. A protagonista tem em mente pegar Paxton Hall-Yoshida (Darren Barnett), um galã repetente que caiu na mesma sala que ela neste ano.

Tudo bem padrão, certo? Pois bem, é no desenvolvimento dos seus personagens que Eu Nunca mostra seu diferencial. O pai de Devi, Mohan (Sendhil Ramamurthy), morreu alguns meses antes do início das aulas e a garota, apesar de não estar mais de luto, vive em negação. Ela se recusa a admitir seus verdadeiros sentimentos em relação a perda para a Dr. Jamie Ryan (Niecy Nash), sua psicóloga, e fica a maior parte das suas consultas se distraindo com problemas mais recentes para não ter de lidar com aquilo que mais a incomoda. A morte do pai também deixou a relação com a mãe, Dalini (Poorna Jagannathan), ainda pior. A mãe é conservadora nos costumes indianos e quer que a filha comece a namorar só depois dos 18 anos. Mais uma vez, não traz nada de novo. Adolescentes lamentando com a morte do pai esteve presente na memória recente em Quase 18 e Bumblebee, enquanto diferenças culturais de pais hindu querendo criar os filhos nos Estados Unidos foi recentemente visto em Doente de Amor. Mas ambas as tramas funcionam muito bem.

Eleanor herdou a paixão pelo teatro por causa da mãe, que a abandonou quando criança para perseguir a carreira de atriz. Fabiola está no armário e não tem coragem de contar para as amigas a verdade sobre a sua sexualidade, muito menos para a família, que apesar de ser bem mente aberta, não passa confiança para a garota. Ben Gross (Jaren Levinson), rival de Devi na escola, apesar de ser rico e ter uma namorada linda, se sente sozinho: seus pais vivem o deixando para trás e dando dinheiro para compensar a ausência, a namorada só está com ele por status e o garoto sequer tem amigos. Por fim, Kamala (Richa Moorjani), prima da protagonista, precisa lidar com a vontade da família de que ela aceite um casamento arranjado enquanto namora escondido com alguém de fora da religião. Todos os personagens têm seus próprios dramas muito competentes, com a exceção de Paxton, que só é bonito e sequer tem personalidade, só na reta final que os roteiristas dão um pouco de conflito para ele, mas, ainda assim, empalidece diante do desenvolvimento dos demais.

O humor da série é muito eficiente. Mindy Kaling, que escreveu para The Office e The Mindy Project, já provou o seu talento para a comédia e aqui, em sua quarta série original, não poderia ser diferente. Todo o elenco é ótimo em seus papéis e têm um bom timing cômico. Nem todas as piadas dão certo, mas as que funcionam são ótimas. A narração do tenista John McEnroe é divisiva. Por vezes, os comentários dele são certeiros e engraçados, por outras, desnecessários e óbvios. Principalmente quando ele diz como a protagonista está se sentindo sendo que nós estamos vendo as emoções dela. Como dito anteriormente, a série raramente inova, o que acaba a tornando sempre previsível e com poucas surpresas. O outro narrador, que só aparece em um episódio e é outra celebridade, é uma grata surpresa.

Eu Nunca também é bastante eficiente na sua abordagem da cultura indiana. Devi e Kamala, apesar de viverem dentro do sonho americano, ainda sofrem com limitações impostas pela religião, que acabam as impedindo de fazer o que elas realmente querem. E, mesmo assim, a série nunca coloca nem religião nem a cultura como algo negativo, apenas como algo diferente. Os conflitos que ela gera entre a protagonista e a mãe dentro da trama são excelentes. O episódio em que as três Vishwakumar precisam ir para uma celebração hindu é lindíssimo e oferece ótimos insights sobre a cultura e como ela funciona fora da Índia.

O drama vivido por Fabiola com a sua sexualidade, mesmo sendo relevante, acaba sendo uma das partes menos eficientes da série, por fazer apenas o básico. Existe o conflito que além de nunca ser tenso (afinal, a própria jovem diz que a família dela é tranquila), é facilmente resolvido. A insistência de Devi por algo com Paxton pode ser frustrante, principalmente quando ela o coloca acima das necessidades de suas amigas, o que não deixa de ser realista — adolescentes conseguem ser bem egoístas. No final das contas, Eu Nunca é uma excelente série de comédia que consegue superar os poucos problemas que tem e proporcionar cinco horas de um excelente entretenimento.

Nota:


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Estudante de jornalismo, tem 21 anos e é assistidor de séries semi profissional. Viciado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli, slashers e musicais, adora cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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