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Noite Adentro – 1ª temporada | Crítica

Noite Adentro – 1ª temporada | Crítica

Crítica de Noite Adentro, da NetflixNoite Adentro (Into the Night)

Temporada:

Ano: 2020

Criação: Jason George

Elenco: Pauline Etienne, Laurent Capelluto, Stefano Cassetti, Mehmet Kurtulus, Babetida Sadjo, Jan Bijvoet, Ksawery Szlenkier, Vincent Londez, Regina Bikkinina, Alba Gaia Bellugi, Nabil Mallat

O fim do mundo nunca sai de moda. Ano após ano, somos surpreendidos por uma nova ameaça e, talvez, seja apenas uma questão de tempo até a humanidade sucumbir ao apocalipse. Enquanto isso não acontece, a ficção procura imaginar como o mundo acabaria e o que aconteceria durante (ou depois) desse processo. Em Noite Adentro, a premissa é que o sol, por algum motivo, está acabando com a vida na Terra. Simba teria sérios problemas nessa série.

A história começa quando o major Terenzio (Stefano Cassetti), da OTAN, invade um avião ainda no terminal de embarque, rendendo os poucos passageiros que haviam entrado e ordena ao piloto Mathieu (Laurent Capelluto) que levante voo e siga para Oeste, pois o sol está matando tudo que toca. Num primeiro momento, a série segue a fórmula clichê da descrença, de modo que o espectador possa tomar partido desde cedo: quem está falando a verdade? Quem tem — ou deveria ter — o comando da situação? Qual é o melhor plano ao pousarem?

De arrancada, o clima da série é morno. Infelizmente, seu desenvolvimento também. A temporada se sustenta no conflito entre pessoas tendo o apocalipse como pano de fundo. O roteiro é firme nesse sentido: não existe o herói e o vilão, todos estão na grande área cinzenta da moral, cada qual em sua tonalidade. Há um ingrediente interessante que é o contexto social da Europa. A série se passa na Bélgica — tecnicamente, se passa dentro do avião, mas os personagens são belgas — que é um país com sérios problemas de discriminação racial. Os passageiros são de origens diversas: Marrocos, Turquia, Itália, Inglaterra; e é preciso entender um pouco da relação geopolítica dessa região para compreender os constantes embates entre determinados personagens. Contudo, a exemplo da série, esse texto não irá explicar essa relação.

A temporada é curta: apenas seis episódios com pouco menos de 40 minutos cada, cada um focado em um personagem e sua influência sobre o grupo e sobre a trama. À primeira vista, a série não tem nada de especial. Não encanta, não inova e não emociona. As relações são firmes e bem trabalhadas, mas é isso. O clima é tenso o tempo todo, o que acaba tirando o peso deste recurso. Este fator seria compreensível, pois se trata do fim do mundo, mas o resultado não foi satisfatório. Momentos-chave que deveriam causar angústia, se tornam mais do mesmo e enfraquecem o conjunto da obra.

Noite Adentro tem dois destaques positivos: o primeiro é o elenco, que entrega um bom resultado naquilo que os compete. As relações são bem construídas, e é possível notar a boa química até entre personagens antagônicos. O segundo é a construção desses personagens: cada passageiro traz na bagagem, além das roupas, uma pesada carga emocional. Doenças, crimes, morte de entes queridos; todos precisam lidar com os fantasmas de seu passado enquanto tentam entender seu lugar nesse momento confuso e aterrorizante.

A cena final desta temporada é sofrível, um desfecho sem pé nem cabeça que poderia até colocar em risco a continuação da série. Com tantos pontos negativos é de se questionar por que raios a Netflix investiria nisso? A resposta está no material base. Acontece que Noite Adentro é inspirada numa série de livros digitais chamada The Old Axolotl, que se passa num planeta Terra pós-apocalíptico, e revelar mais sobre a trama dos livros daria muitos spoilers sobre a série. É necessário destacar, contudo, que a pergunta central da série de livros sustenta sozinha os pontos positivos da produção da Netflix. O autor questiona: o que significa ser humano? Pode parecer simples, mas olhar cada passageiro daquele voo nos faz refletir um pouco mais sobre nós e aquilo que acreditamos.

Vista por si só, a obra não se sustenta. Tem seus pontos positivos, mas é morna demais para ser considerada boa, além de não trazer nenhuma novidade por enquanto. Vista dentro do contexto geral, daquilo que está por vir, Noite Adentro é muito promissora, e pode colocar seu nome no panteão das séries cult. Mas é preciso avaliar a atração pelo que ela é, e não pelo que ela pode ser. Nesse caso, o resultado não é bom.

Nota:


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Ator, escritor, diretor e roteirista, Gabryel é ruim em todas essas coisas. Crítico por natureza, adora reclamar de tudo, e é fã de filmes que ninguém tem paciência pra assistir. Carrega a convicção de que Click é um clássico cult e quem discorda é clubista.

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