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Você Nem Imagina | Crítica

Você Nem Imagina | Crítica

Crítica de Você Nem Imagina, da NetflixVocê Nem Imagina (The Half of It)

Ano: 2020

Direção: Alice Wu

Roteiro: Alice Wu

Elenco: Leah Lewis, Daniel Diemer, Alexxis Lemire, Collin Chou, Enrique Murciano, Becky Ann Baker

As comédias românticas da Netflix são, facilmente, o carro-chefe do serviço de streaming. Com baixo custo, as produções do gênero conseguem conquistar milhões de fãs, sendo um excelente custo-benefício para a plataforma — e a qualidade, na maioria das vezes, não é levada em consideração. Desagrada aos críticos, mas faz sucesso com os espectadores. Como negócio, é excelente. Por isso, é surpreendente a façanha de Você Nem Imagina: ele é bom. Na verdade, é muito bom.

Ao contrário de A Barraca do Beijo, Sierra Burgess é uma Loser, Para Todos os Garotos que Já Amei, O Date Perfeito e tantos outros exemplos esquecíveis que levam o selo Original Netflix, Você Nem Imagina traz todos os elementos dos filmes citados, porém com uma dosagem certa. A diretora e roteirista Alice Wu, que surpreendentemente tem apenas mais um título em sua filmografia, Livrando a Cara, do já distante 2004, mostra maturidade em sua escrita e em sua condução da obra, mesmo contando uma história sobre adolescentes.

Na trama, conhecemos a jovem Ellie Chu (Leah Lewis), que mora em uma cidadezinha e que, após a perda de sua mãe, precisa cuidar de sua casa e de seu pai — inclusive, assumindo o seu emprego —, ao mesmo tempo em que lida com as dificuldades da escola. Neste período, a garota, que é uma das mais inteligentes do local, aceita escrever cartas de amor para a popular Aster Flores (Alexxis Lemire) para ajudar o desajeitado Paul Munsky (Daniel Diemer) e ganhar uns dólares para pagar a conta de luz. No entanto, Ellie tem um crush em Aster e, obviamente, essa paixão vai aumentando enquanto ela vai conhecendo mais a garota e se correspondendo com ela.

Pois é, essa trama não tem nada de muito novo — o já citado Sierra Burgess é uma Loser tem um plot semelhante, por exemplo —, mas, como sabemos, não importa qual história está sendo contada, mas, sim, como isso está sendo feito. E Você Nem Imagina trabalha muito bem na condução de seus personagens, seus dramas e conflitos, sem apelar para situações que beiram ao ridículo para fazer graça ou apostar em sentimentalismo barato para emocionar.

O elenco escolhido para conduzir essa história é excelente, com destaque para os dois protagonistas, Leah Lewis e Daniel Diemer, que conseguem ser divertidos e mandam bem em momentos dramáticos, mas sem exageros. A dupla, por sinal, entrega bons diálogos e questionamentos profundos para uma produção voltada para o público jovem, inclusive, sobre o que é o amor e exploram, mesmo que de forma rasa, a filosofia. O contraste intelectual entre eles faz com que as explicações e as respostas soem organicamente.

Um ponto interessante do longa é fictícia Squahamish, cidade em que a trama do filme se passa. O clima do local, chuvoso, beirando ao melancólico, faz com que conflito dos adolescentes ganhe mais peso. Os enquadramentos de Alice Wu, por sinal, colaboram para essa experiência, reforçando como o local é deprimente e claustrofóbico para Ellie, que frequentemente é filmada em pequenos espaços, fazendo referência ao livro Entre Quatro Paredes, de Jean-Paul Sartre, citado diversas vezes durante a película. Ela precisa sair, se libertar, mas está presa. Seja no emprego no qual substitui o pai, na sua modesta casa ou na cidadezinha.

Como diz a protagonista, no início da projeção, o filme não é uma comédia romântica em que tudo dá certo. E é essa honestidade e essa complicação nas relações humanas que fazem com que essa produção seja acima da média. O último diálogo entre Ellie e Aster é sincero e cheio de significado, desde a composição da cena, com a protagonista nitidamente mais livre, desde suas roupas até em seu penteado e sua postura. Um ótimo final, mesmo que não seja um encerramento propriamente dito para aquela história.

Você Nem Imagina, obviamente, tem os seus defeitos. A sequência em que Ellie e Aster se encontram e vão tomar banho em uma fonte, por exemplo, é apressada e dispersa da construção dos arcos das personagens. No entanto, são pequenas falhas que, dentro do todo, não prejudicam a obra. Dentro das opções que a Netflix já entregou para o público, o filme se destaca positivamente. E apenas isso já é motivo para elogios.

Nota:


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Jornalista e radialista, é um dos fundadores do Bode na Sala. Se orgulha de ter nascido em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, e, atualmente, mora em Porto Alegre. Trabalhou em todas as áreas que se pode imaginar, mas acabou caindo no submundo geek. É fã do Jim Carrey, acha que o Ben Affleck é o melhor Batman do cinema, não suporta pseudo-cultismo e pretende dominar o mundo.

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