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A Vastidão da Noite | Crítica

A Vastidão da Noite | Crítica

A Vastidão da Noite (The Vast of Night)

Ano: 2019

Direção: Andrew Patterson

Roteiro: James Montague, Craig W. Sanger

Elenco: Sierra McCormick, Jake Horowitz, Gail Cronauer, Bruce Davis, Cheyenne Barton, Mark Banik, Gregory Peyton, Adam Dietrich, Mallorie Rodak, Mollie Milligan, Ingrid Fease, Brandon Stewart

Na noite de 30 de outubro de 1938, moradores da costa Leste dos Estados Unidos entraram em pânico enquanto escutavam no rádio o relato, em tempo real, de uma invasão alienígena que ocorria a partir da pequena comunidade de Grover’s Mill. No entanto, o que o povo estava ouvindo era, na verdade, Orson Welles dramatizando o livro A Guerra dos Mundos, de Herbert George Wells, para um especial de Halloween da rádio CBS. Para nós, que nascemos bem depois deste evento, pode ser difícil entender o sentimento de pavor que se instaurou na população naquele momento. Entretanto, com A Vastidão da Noite, talvez seja possível compreender como uma história assustadora pode ser bem convincente quando é bem contada.

A produção original da Amazon, dirigida por Andrew Patterson, se passa na década de 1950. na pequena cidade fictícia de Cayuga – nome dado em homenagem à Cayuga Productions, que produziu o seriado Além da Imaginação. Everett Sloan (Jake Horowitz) é o confiante e quase arrogante apresentador/operador da rádio local. A insegura Fay Crocker (Sierra McCormick) trabalha na central telefônica da cidade, e é amiga e admiradora de Everett. Na noite de um importante jogo de basquete do campeonato estudantil, que atraiu praticamente todos os habitantes para o ginásio da escola municipal, começam a surgir alguns relatos assustadores sobre objetos no céu, e Fay intercepta um misterioso sinal sonoro na central telefônica. Ela decide mostrar para Everett o som captado, e os dois iniciam uma tensa investigação que vai se tornando cada vez mais assustadora.

O primeiro ato do filme pode ser um obstáculo complicado de ser transposto para aquela parcela menos paciente do público. No caso, aquelas pessoas com predisposição a abandonar filmes que não engrenam rapidamente. Isso porque, apesar de construir uma atmosfera fantástica e contar com belos planos e movimentos de câmera, os protagonistas oscilam, inicialmente, entre se mostrarem monótonos ou irritantes. Os diálogos iniciais, além de rápidos — daquele tipo que fica realmente difícil de acompanhar as legendas —, também são, por vezes, sem graça e repetitivos. Felizmente, esse problema desaparece rapidamente e, logo no início do segundo ato, um plano longo, que é seguido de um lindo e revelador plano-sequência, transforma de vez o ritmo do filme e a ação de seus protagonistas que, a partir daí, nos mantém presos e atentos até o final.

O plano-sequência citado é precedido de um longo plano estático que acompanha o trabalho de Fay na central telefônica de Cayuga. É quando começam a surgir os primeiros indícios de que aquela não seria uma noite normal. Quando ela vai até a porta para fumar enquanto aguarda a ação de Everett, a câmera a acompanha por alguns metros apenas para, em seguida, flutuar pela cidade até o ginásio onde ocorre o jogo de basquete e, após passar pela quadra, em meio aos jogadores, sair por uma janela e seguir sua trajetória até a rádio WOTW – sigla que faz referência a War of the Worlds, ou A Guerra dos Mundos.

Mesmo que alguém possa considerar o artifício do plano-sequência como um certo exibicionismo do diretor, ele tem uma função narrativa significativa ao construir, de forma eficaz, a geografia do local onde a história se desenrola. Além disso, ajuda a situar cronologicamente a trama, ao passo que vemos o início da investigação coincidir com os momentos iniciais do jogo de basquete. Essa informação ainda se torna mais relevante ao percebermos que o filme se passa praticamente em tempo real, com seu desfecho ocorrendo quase que simultaneamente ao apito final da partida. E até isso tem uma justificativa convincente no roteiro.

Roteiro este que consegue, de forma eficiente e sem precisar de muitas explicações, abordar o tema do racismo e da paranoia anticomunista nos Estados Unidos durante a década de 1950, apenas o encaixando em diálogos que fluem de maneira orgânica entre os personagens. Por exemplo, uma história estúpida e trivial, sobre um esquilo que roeu um cabo de energia, é conhecida por praticamente todos os habitantes da pequena cidade, ao passo que um mistério, que envolvia um homem negro da cidade, jamais chegou ao conhecimento dos moradores, provavelmente por jamais terem considerado relevante saber algo sobre ele.

É então que chegamos às semelhanças com o caso da dramatização realizada por Orson Welles. A tensão provocada no público dispensa quase que por completo a utilização de elementos gráficos. É baseada predominantemente no conteúdo e na forma do que é contado, fazendo com que sintamos, provavelmente, uma sensação semelhante ao que Welles provocou na população estadunidense em 1938, com a diferença que agora todos nós sabemos que é uma história fictícia. Trabalho competente de direção, mas grande parte dos méritos recaem sobre Bruce Davis, intérprete do ouvinte Billy, que conta a sua incrível história para Everett e Fay. Estes que, a partir do segundo ato, encontram um tom bem mais acertado de atuação, até por não serem mais boicotados pelos diálogos ruins e desnecessários dos minutos iniciais do filme. Dessa maneira, conseguem criar uma boa química entre seus personagens, e provocar no público a empatia fundamental para que se tema pelo destino de ambos.

Com elementos que lembram clássicos da ficção científica como Contato e Contatos Imediatos de 3o Grau, e até uma pitada de a A Bruxa De Blair, A Vastidão da Noite consegue, mesmo assim, manter a originalidade. Por exemplo, como o conceito de mostrar o filme como se fosse um episódio de um programa no estilo Além da Imaginação. Com o ritmo acertado a partir início do segundo ato, e um tempo de duração reduzido — pouco mais de 80 minutos —, o longa se mostra bem objetivo, e o resultado final é muito positivo. Uma boa opção para os fãs de ficção científica mais realista, que estejam buscando algo sem tiros, correrias e monstros espaciais.

Nota:


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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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