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Legado: os 100 anos de O Gabinete do Dr. Caligari

Legado: os 100 anos de O Gabinete do Dr. Caligari

1920. Com apenas dois anos do fim da 1ª Guerra Mundial, a recessão do pós-conflito deixou a Alemanha enfraquecida e vulnerável entre as grandes potências. Dois jovens veteranos, agora transformados em pacifistas pelos horrores da guerra, decidiram voltar suas vidas para o cinema, sem saber que dariam início a um novo movimento cinematográfico. Assim, O Gabinete do Dr. Caligari, obra escrita por Hans Janowitz e Carl Mayer, marcou o início do expressionismo no cinema, de forma tão intensa que passou a ser conhecido simplesmente como ‘caligarismo’.

O expressionismo foi um movimento artístico datado do início do século XX na Alemanha, com suas linhagens espalhadas pelos mais diferentes tipos de artes, do cinema à literatura, das artes plásticas ao teatro. Ao contrário do impressionismo, em que o foco era a observação do real, no expressionismo predominava a visão do artista, de forma mais pessoal e subjetiva. O movimento nasceu de uma necessidade de negar o mundo burguês e o racionalismo do trabalho nos anos de ouro do fordismo, para trazer a fantasia não como um escapismo da realidade, mas para expressar os sentimentos de angústia e ansiedade que a vida fora da arte proporcionava. Assim, o movimento expressionista, especificamente no cinema, traduziu essa deformação do real em uma atmosfera de horror e inquietação.

Com direção do também estreante Robert Wiene, o filme se passa majoritariamente em um pequeno vilarejo alemão, e narra a chegada de Dr. Caligari (Werner Krauss) com seu misterioso acompanhante, Cesare (Conrad Veidt). Em seu show, Dr. Caligari afirma que Cesare é um sonâmbulo que tem dormido pela maior parte dos últimos 24 anos e, além disso, pode prever o futuro. No entanto, a chegada da dupla coincide com estranhos assassinatos, que levantam suspeita em Francis (Friedrich Feher) após a morte de seu amigo Alan (Hans Heinrich von Twardowski), conforme a previsão de Cesare. Francis decide levar suas suspeitas para a polícia e, após uma frustrada investigação, Dr. Caligari decide se vingar do rapaz ao mandar Cesare matar Jane (Lil Dagover), por quem Francis é apaixonado.

A trama que se desenrola a partir desse ponto no filme é investigativa e cheia de aflições ao telespectador, em um mundo tomado pela loucura e com uma narrativa de desconfiança. Sem dar spoilers (apesar de se tratar de um filme centenário), temos uma narrativa que se aprofunda cada vez mais em um mistério tenebroso, que culmina em um plot twist que, muito provavelmente, foi um dos primeiros e mais chocantes da história do cinema.

O Gabinete do Dr. Caligari é uma obra como o mundo jamais havia visto na década de 1920. Nos cenários geométricos e oníricos — mais especificamente com pontas, sombras e ângulos que remetem aos pesadelos – temos uma ambientação que grita indiscretamente a sua irrealidade e dá pistas sobre a reviravolta que se apresenta no fim do filme, especialmente se comparada aos cenários mais concretos que se apresentam no final e início da obra. Da mesma forma, as aparências dos personagens também passam uma sensação de delirante surrealismo, com maquiagens fantasiosas e sombrias que auxiliam na ambientação soturna da narrativa como um todo.

É curioso notar que, apesar de um enredo com os pés fincados na ciência, O Gabinete do Dr. Caligari é uma obra recheada de misticismo. Seu roteiro é elaborado em camadas, com uma história contada dentro de outra história. Essa é uma técnica narrativa chamada “narrativa moldura” (rahmenerzählung, no original alemão), com prólogo e epílogos bem definidos e um flashback explicativo entre as partes.

No livro De Caligari a Hitler (1947), do jornalista Sigfried Kracauer, essa narrativa moldura é contestada, pois o autor alega que originalmente o filme não possuía o prólogo e o epílogo que alteram severamente o destino dos personagens e, por consequência, seria uma versão mais revolucionária e menos conformista. A teoria de Kracauer conectava a República de Weimar (período pré-2ª Guerra Mundial, despolitizado e pessimista, com um saudosismo da grande nação que Alemanha costumava ser antes da 1ª Guerra) e o totalitarismo alemão que veio a seguir. Para ele, filmes como O Gabinete do Dr. Caligari haviam previsto a ascensão nazista no país, ao mostrar tendências autocráticas inerentes à Alemanha, pois o próprio personagem de Caligari representaria a sede de poder e o desejo de dominação. Sua teoria foi bastante rejeitada pelos seus contemporâneos, que não acreditaram que o filme escrito por Hans Janowitz e Carl Mayer, apesar de todos os seus méritos cinematográficos, tivesse previsto o que ia acontecer tal qual o personagem Cesare.

O Gabinete do Dr. Caligari pode não ter previsto o futuro, mas com certeza o mudou. Seu lançamento inspirou diversos outros filmes do mesmo movimento artístico que marcaram a história do cinema alemão, tais como Metropolis, Nosferatu e Dr. Mabuse, para citar os mais famosos. Foi por causa desses filmes que o cinema alemão se tornou conhecido fora do circuito europeu e chamou a atenção de Hollywood. Isso fez com que, do expressionismo alemão, suas raízes se estendessem até outros gêneros mais modernos, tais como o horror, o giallo e o noir. O conto de Caligari e Cesare, com seus elementos de fantasia macabra, deixou uma forte pegada que serviu de inspiração para vários diretores que surgiram ao longo das décadas: David Lynch, Martin Scorsese, Ingmar Bergman, Mario Bava, Alfred Hitchcock, Tim Burton… E a lista se alonga. Reza a lenda de que a obra serviu até mesmo como uma das fontes de inspiração para Orson Welles gravar Cidadão Kane (1941), considerado até hoje um dos melhores filmes já produzidos em toda a história do cinema.

Assim como todas as formas de expressão artística, a sétima arte caminha em constante evolução, somando suas partes para trazer novas perspectivas e ideias. Ainda que atualmente a maioria das pessoas considere um teste de paciência assistir a um filme mudo filmado antes mesmo da 2ª Guerra Mundial, os 90 minutos de O Gabinete do Dr. Caligari revelam a nascente de várias formas de se fazer filme que o mundo desenvolveria mais tarde.

Para os fãs de horror, em especial, ele marca o verdadeiro e definitivo nascimento do gênero. Tudo em O Gabinete do Dr. Caligari é um alerta de perigo, desde a trilha sonora estridente até os cenários cheios de pontas, sombras e ameaças, e sua influência é palpável desde os filmes de monstros dos anos 1930 a 1950 do Estúdio Universal até os dias de hoje. É impressionante como um filme que, sem qualquer obra precedente para servir de inspiração, conseguiu trazer tantos elementos que arrepiam os cabelos até dos telespectadores dos anos 2020.

A loucura que se espalha pelas estranhas dos personagens, juntamente com a suspeita generalizada e as memórias conflituosas são escolhas narrativas clássicas do horror, ao evocar aquele sentimento de Alice no País das Maravilhas: o desconforto de ser a única pessoa sã em um mundo louco, cruel e desinteressado em seu pavor. Porém, no caso do primeiro filme do expressionismo alemão, o único são não é um personagem, e sim o telespectador.


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Jornalista que migrou para a veterinária, mas sem deixar para trás as jornalices. Vive e respira horror, seja em quadrinhos, filmes, séries ou livros. Último posto de defesa da DC Comics em relação à Marvel, embora tenha que fazer vista grossa quando o papo é cinema. Fã de Heavy Metal, games single player e cospobre de carteirinha quando sobra dinheiro no final do mês.

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Comments

  1. Brilhante texto, em uma análise coerente e precisa.

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