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The Last Days of American Crime | Crítica

The Last Days of American Crime | Crítica

The Last Days of American Crime

Ano: 2020

Direção: Olivier Megaton

Roteiro: Karl Gajdusek

Elenco: Édgar Ramírez, Anna Brewster, Michael Pitt, Sharlto Copley, Sean Cameron Michael, Mohammad Tiregar

The Last Days of American Crime é mais um filme de ação ‘bronco’ que a Netflix lança em 2020, depois do bem sucedido Resgate — que, mesmo com uma trama simplória, se sustentava na ação vigorosa e arrojada. Para explicar a sensação que Last Days… causa, vou convidar você, leitor do Sala Crítica, a fazer o seguinte exercício: imagine um filme como Resgate, só que com uma dupla de protagonistas inexpressivos e antipáticos, cenas de ação sem graça e quase inexistentes, atuações que causam uma desconfortável vergonha alheia e meia hora de conversa furada a mais. É mais ou menos isso que você encontrará aqui.

O diretor Olivier Megatron, que se ‘notabilizou’ por comandar bombas como Colombiana e Carga Explosiva 3, se junta ao roteirista Karl Gajdusek (showrunner da competente primeira temporada de Stranger Things) para adaptar para as telas uma HQ homônima de Rick Remender e Greg Tocchini, lançada em 2017 pela editora Radical Comics. Na trama, um amálgama sem criatividade de Uma Noite de Crime com Fuga de Nova York, os Estados Unidos se tornaram uma nação tomada pelo crime e pela miséria. Como solução, o governo propõe uma espécie de lobotomia coletiva, que impedirá que todos os seus cidadãos cometam crimes (confesso que não compreendi como — não que isso seja importante, claro). Nesse cenário, conhecemos Graham Bricke (Ramírez), um ex-assaltante de bancos que busca vingança pela morte do irmão. Ele cruza o caminho do playboy criminoso Kevin Cash (Pitt) e de sua noiva Shelby Dupree (Brewster), que o prometem a vingança desejada em troca de ajuda para resolver problemas familiares e faturar muita grana, antes que sejam mentalmente castrados pelo Estado. Daí o título da produção.

O enredo de The Last Days of American Crime é básico e lotado de clichês: ‘o último assalto’, o mocinho bruto-mas-de-bom-coração, a femme fatale, o(s) personagem(ns) que troca(m) de lado, a mocinha que engana o herói o filme todo, mas na última hora fala que “tudo que vivemos foi real”, etc, etc, etc. Nada disso seria um problema se a produção apresentasse outras qualidades, como personagens simpáticos ou uma estrutura de roteiro discernível. Os atores, ruins por natureza, não conseguem dar vida aos esquisitos diálogos que lhe foram dados (“que tipo de filho *ode a própria madrasta?”, indaga o pai a um filho em determinado momento — sim, isso mesmo!). O fato do roteiro não conferir o mínimo arco de personagem a nenhum deles enterra qualquer chance de sentirmos empatia por esses sujeitos.

(Uma curiosidade: tenho quase certeza que a inspiração para o bandidinho Kevin Cash (Michael Pitt) é Liam Gallagher, ex-vocalista da banda de rock britânica Oasis. São muitas coisas para não considerar essa possibilidade: o jeito ‘malandro’ de andar atirando as pernas para frente, o jeito raivoso de falar , quase cuspindo as palavras; os gestos ofensivos… Além do figurino, que chega a ser uma referência óbvia. Não seria a primeira vez que o esquentadinho cantor inspira um personagem de cinema, já que Sacha Baron Cohen admitiu a inspiração em Gallagher para o personagem Grimsby, de Irmão de Espião.)

Além disso, a trama como um todo é inchada e repetitiva. Para criar um pequeno obstáculo à mocinha Dupree no terceiro ato (que, aliás, parece demorar ANOS para acabar), o filme faz questão de não apenas inserir um personagem (interpretado por um constrangido Sharlto Coopey), mas de dar-lhe cenas e um bom tempo de tela para justificar… bem, justificar o quê mesmo? Que ele é um policial? Que ele vai tentar impedir criminosos de cometerem crimes (dã)? Sem contar que o filme cria situações idênticas com resoluções idênticas – que, acredito, acontecem porque o autor percebeu que um determinado personagem passa por situações parecidas ao longo do filme, e não seria coerente dentro desse universo fazer com que ele saísse delas de formas dif… bem, estou divagando, mas confesso que enquanto o filme acontecia era esse tipo de pensamento que ocupava a minha cabeça. Tive bastante tempo pra isso, afinal, já que o The Last Days of American Crime possui intermináveis 2h29 de duração.

Já a ação do filme é… bem, que ação? Os raros momentos em que vemos tiroteios, perseguições de carros e lutas corpo a corpo na tela, os operadores de câmera parecem ter sido acometidos por um preocupante quadro de tremedeira aguda, já que é quase impossível discernir o que está acontecendo. As cenas de porradaria são confusas, sem dinamismo e sem intensidade. Uma chatice só. É curioso perceber que, em vários momentos em que o mocinho adentra o bunker de algum vilão, a narrativa corta para o momento em que ele encontra o ‘cabeça’ da organização, e mostra apenas os corpos dos capangas espalhados pelo chão, sugerindo que eles foram todos mortos pelo ‘herói’. É o filme de ação que oculta a ação.

Last Days of American Crime é um filme mal dirigido, mal escrito, mal atuado, e, o pior de todos os defeitos, extremamente chato. Confira por sua conta e risco.

Nota:


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Jornalista em formação, ex-membro do finado e saudoso Terra Zero e leitor de histórias em quadrinhos. Fã de ficção científica e terror, divide seu tempo livre entre o cuidado com suas dezenas de gatos e a paixão pela cultura pop. Sonha com o dia em que perceberão que arte é sim, uma forma de discutir política.

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