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Destacamento Blood | Crítica

Destacamento Blood | Crítica

Crítica de Destacamento Blood, da NetflixDestacamento Blood (Da 5 Bloods)

Ano: 2020

Direção: Spike Lee

Roteiro: Danny Bilson, Paul De Meo, Spike Lee, Kevin Willmott

Elenco: Delroy Lindo, Jonathan Majors, Clarke Peters, Norm Lewis, Isiah Whitlock Jr., Mélanie Thierry, Paul Walter Hauser, Jasper Pääkkönen, Jean Reno, Chadwick Boseman

Spike Lee é um profundo conhecedor do Cinema, enquanto linguagem e fenômeno histórico, social e cultural. Ele poderia muito bem seguir pregando para convertidos na New York University, especialmente após garantir fama e fortuna com os sucessos Faça a Coisa Certa e Malcolm X. Mas Lee está faminto. Seu objetivo é construir um imaginário cinematográfico para a comunidade negra dos EUA, recuperando, a fórceps, o espaço que foi negado ao seu povo desde sempre em Hollywood — colocando os pingos nos ‘is‘ e o dedo na ferida. Ele não quer ficar calado.  E nós só temos a agradecê-lo por isso.

Em Destacamento Blood, Spike Lee usa toda a estética e simbologia dos filmes da Guerra do Vietnã em favor de um texto contundente sobre a presença dos negros no conflito. Assim como em Infiltrado na Klan, filmagens de época surgem não apenas para contextualizar o enredo, conferindo-lhe urgência, mas para demonstrar a brutalidade e a banalidade da guerra que tirou dos EUA a inocência. Na trama, acompanhamos Paul (Lindo), Otis (Peters), Eddie (Lewis) e Melvin (Whitlock), quatro veteranos que retornam ao país da Ásia para reaver os restos mortais de seu inspirador líder, Norman Holloway (Boseman), e recuperar uma fortuna em barras de ouro que enterraram por lá nos anos 1960. Obviamente, todo tipo de obstáculo se abaterá sobre o grupo, desde o ataques externos até problemas entre os próprios membros, que lidaram de formas diferentes e conflitantes com os traumas da guerra.

O personagem que ocupa a maior parte de tela é Paul, justamente aquele que herdou mais traumas do passado. Portador de estresse pós-traumático agudo, que lhe conferiram pesadelos constantes e uma paranoia onipresente, Paul é apoiador convicto de Donald Trump, reproduzindo todo o discurso de “construir o muro” e “expulsar os imigrantes folgados” que combinam mais com brancos do sul do que com negros. Talvez, o motivo de tamanho destaque seja a necessidade que Lee tem de estudar o dano que a guerra causa na psique do indivíduo – fenômeno que já foi explorado no cinema, mas nunca na perspectiva de um homem negro. Paul soma a paranoia de ser roubado, “sacaneado”, ao medo real do racismo – o que fica claro quando é o membro do grupo que apresenta a reação mais emocional à morte de Luther King, em determinado momento da produção. Esses problemas, e a negligência total deles, foram responsáveis pela deterioração da relação com seu filho, David (Majors). Crítico feroz da política de Trump, Lee demonstra que é capaz de compreender empaticamente como seus irmãos chegaram ao ponto de votar no ex-empresário — ainda que sem deixar de criticá-los.

Apesar disso, a grande figura de Destacamento Blood é Chadwick Boseman. Confesso que não sou o maior fã de suas atuações, mas na figura de Norman “Stormin” Holloway, Boseman parece ter encontrado o papel de sua vida. Considerado “nosso King e também nosso Malcolm” por seus parceiros, era necessário que o ator demonstrasse um ar de solenidade simultâneo ao de acolhimento, o que ele faz com louvor. Com a profundidade do olhar e a teatralidade dos gestos, Boseman entrega um personagem inspirador e idealista até o fio do cabelo. O momento em que o seus restos finalmente são encontrados é, sem dúvida, o mais potente de todo o filme: Lee grava a cena como se estivéssemos diante dos restos do próprio messias, baixando a trilha sonora e deixando o momento ser conduzido pelas atuações consternadas e reverentes dos personagens envolvidos. Sua presença é essencial mesmo quando ele não está em tela, servindo como bússola moral de todos os membros do Destacamento Blood. Boseman nos faz acreditar que “Stormin” é, de fato, um homem de moral elevada, um verdadeiro profeta e um herói para seus irmãos de armas.

Aliás, o som e a trilha sonora do filme são parte importante da experiência. Repare como o som muda de acordo com as transições temporais: durante os flashbacks, o som propositalmente sofre uma queda na qualidade de captação, conferindo uma sensação de que aquele momento pertence ao passado, e o deixando coerente com as imagens de arquivo que aparecem antes. Ainda assim, a transição de canais faz os sons de tiros, bombas e gritos surgirem de forma imprevisível, garantindo a tensão das cenas de batalha. Já quando as batalhas ocupam o campo do presente, o som é ainda mais visceral e arrojado, se assemelhando muito mais aos filmes atuais e acompanhando a diferença de estilo empregado pelo diretor.

A trilha de Terence Blanchard, parceiro habitual de Lee, é brilhantemente antiquada e exagerada, no tom certo para que o filme apresente um tom cínico e autoconsciente de sua solenidade, servindo apenas como elemento estético e não narrativo. A trilha sonora real de Destacamento Blood, a que lhe confere o grau político que Lee almeja, é What’s Going On, álbum seminal de um Marvin Gaye que ansiava por relevância social. Os versos doídos das canções surgem sem a faixa instrumental, para que possamos prestar atenção somente em suas letras, tão belas quanto contundentes, e que surgem textualizadas nas falas de Storm: “Pai, pai / Nós não precisamos agravar / Veja, guerra não é a resposta / Pois apenas o amor pode conquistar o ódio”.

Em termos de técnica, Destacamento Blood é um primor. Não é novidade que Lee domina a câmera como poucos, mas aqui ele está especialmente inspirado. O diretor se utiliza das mais excêntricas ferramentas para contar sua história sem perder a organicidade da narrativa (coisa que quase acontece em Infiltrado na Klan, por exemplo). “Cards” de apresentação de personagens (que já estão se tornando marca do diretor), zoom ins e zoom outs, troca de dimensões da tela, monólogos vociferados em direção à tela. Tudo isso é utilizado para fazer a história andar, e, mesmo quando achamos que essas técnicas parecem ser empregadas de forma estéril num primeiro momento, se justificam logo em seguida — vide a cena de “sonho” envolvendo Paul e Storm, no terceiro ato, que conferem sentido a todos os monólogos praticados pelo primeiro ao longo dos minutos anteriores, e encerram seu arco de forma agridoce, elegante e primorosa.

A escolha de utilizar os mesmos atores para representar os personagens no passado e no presente, sem a utilização de maquiagem ou efeitos de rejuvenescimento, pode até parecer estranha no começo, mas conforme o filme transcorre, percebemos que aqueles flashbacks (gravados em película 35mm e um filtro amarelado que remete a clássicos do gênero, como Apocalypse Now e Platoon) não representam os fatos, mas as memórias dos soldados sobre aqueles acontecimentos. Licença poética que não é apenas justificável, mas belíssima do ponto de vista narrativo, tendo em vista que Storm é presente em suas vidas até os dias de hoje, e que aqueles fatos de 50 anos atrás ainda os acompanham e os definem enquanto indivíduos.

Se apresentando como um manifesto político-cinematográfico tardio sobre a presença dos negros na Guerra do Vietnã, Destacamento Blood é um contundente retrato sobre a história da comunidade negra dos EUA de ontem e de hoje — e seria suficiente se fosse apenas isso, mas ainda é muito mais: um filme fenomenalmente competente, inspirador, e, apesar de inevitavelmente amargo, esperançoso sobre o futuro e brutalmente conectado com o presente, como atesta o desfecho que leva à trama ao epicentro do movimento Black Lives Matter.

Spike Lee, continue faminto. O mundo — e o cinema —  precisam de você.

Nota:


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Jornalista em formação, ex-membro do finado e saudoso Terra Zero e leitor de histórias em quadrinhos. Fã de ficção científica e terror, divide seu tempo livre entre o cuidado com suas dezenas de gatos e a paixão pela cultura pop. Sonha com o dia em que perceberão que arte é sim, uma forma de discutir política.

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