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Dark – 3ª temporada | Crítica

Dark – 3ª temporada | Crítica

Dark

Temporada:

Ano: 2020

Roteiro: Baran bo Odar e Jantje Friese

Direção: Baran bo Odar

Elenco: Louis Hofmann, Oliver Masucci, Jördis Triebel, Maja Schöne, Sebastian Rudolph, Anatole Taubman, Mark Waschke, Karoline Eichhorn, Stephan Kampwirth, Anne Ratte-Polle, Andreas Pietschmann, Lisa Vicari, Angela Winkler, Michael Mendl

O que sabemos é uma gota. O que ignoramos é um oceano.

Desde 2017, quando pegou todos desprevenidos em uma estreia arrebatadora, Dark deixou de ser a ‘Stranger Things alemã’ para se tornar um dos maiores fenômenos de público e de crítica da Netflix. Hoje, 19 de junho, oito dias antes da estreia de sua temporada final, a série já voltou ao Top 10 das mais assistidas. Dias antes, pesquisa de público feita pelo Rotten Tomatoes elegeu a produção como a melhor da história da plataforma. Teorias sobre o destino e o passado de personagens surgem em ritmo industrial nos fóruns dedicados à produção. No dia do lançamento de seu trailer, a série foi parar nos trending topics mundiais do Twitter.

Ou seja, Baran bo Odar e Jantje Friese já não contavam mais com o fator surpresa que tanto ajudou na popularização de seu show. Dark foi para os holofotes do grande público, deixando de ser uma série europeia underground de suspense para se tornar uma besta do entretenimento mundial. E é impossível não admirar que a dupla tenha tido a coragem não apenas de terminar a série em seu auge, sendo fiel à si próprios e à narrativa construída ao longo dos dois anos anteriores; mas também por não ter medo de encerrá-la de forma trágica e complexa. O final de Dark é belo, controverso e inesperado — assim como seu começo… que também é o fim.

A longa lista de proibições que a Netflix impôs aos veículos (creio que necessárias para garantir a experiência do público intacta) nos impede de dar até mesmo uma sinopse vaga do último ano, então apenas fique sabendo que a terceira temporada começa alguns meses depois de onde a segunda parou — ou seja, depois do Apocalipse. O Jonas (Hofmann) do presente tenta compreender quem é a Martha (Vicari) de outro mundo que surgiu ao final do último ano, e como isso vai lhe ajudar a romper o ‘nó’ temporal que causa tanta sofrimento ao povo de Winden. O Jonas do futuro lidera o pequeno grupo que conseguiu salvar com a máquina do tempo. E Adam segue tramando dos bastidores seu nebuloso plano, que pouco a pouco toma forma.

O conceito de realidades paralelas, que surgiu de forma totalmente inesperada no cliffhanger da segunda temporada, é trabalhado com muita calma ao longo dos oito episódios finais. Pode parecer que a ideia tenha soado gratuita, mas a verdade é que, do ponto de vista da física quântica, a discussão sobre viagem no tempo implica diretamente na existência de ‘bifurcações’ na realidade — e o roteiro de Jantje Friese aborda o tema com o didatismo merecido. A trama, aqui, mergulha de vez em suas implicações científicas: as viagens no tempo, já capazes de criar paradoxos de fritar a cabeça (Charlotte que é mãe de Elisabeth que é mãe de Charlotte), agora dividem espaço de tela com os paradoxos dimensionais, que são ainda mais desafiadores para a nossa lógica. A exposição de roteiro, que sempre caminha numa linha tênue entre a subestimação da inteligência do espectador e a necessidade real de explicar conceitos abstratos para tornar a trama palatável, aqui se aproxima muito mais do segundo caso. Em alguns momentos desta terceira temporada, não tenha vergonha de admitir que não está entendendo nada. É natural e acontecerá com todos.

A produção tira de letra os percalços que o novo conceito traz para a série, apresentando soluções técnicas elegantes para manter a clareza narrativa. As passagens entre uma realidade e outra (cada uma com suas respectivas épocas), que poderiam confundir o público, são bem demarcadas através de um elemento audiovisual tão sutil quanto eficiente — você saberá quando é uma realidade e quando é outra. A fotografia brilhante de Nikolaus Summerer surge novamente inventiva para acrescentar pequenos detalhes que diferenciam as dimensões, brincando com elementos visuais que são conhecidos do público e os trocando de lugar, de posse, de personagens — e espectadores mais atentos perceberão até algumas ironias. A trilha sonora de Ben Frost segue opressiva e desoladora, reforçando o clima sombrio que faz jus ao título da produção. Nessa temporada, algumas passagens implicam na necessidade de mudanças na ambientação sonora, o que Frost faz de forma discreta e funcional. O nível técnico de produção de Dark continua altíssimo, um deleite para os olhos e ouvidos.

Os personagens trágicos e encantadores de Winden são, a cada episódio, mais e mais envolvidos no ciclo de dor que as viagens no tempo trouxeram. Todos parecem presos em um loop que não tem fim e nem começo, e mesmo que tentem, não se mostram capazes de rompê-lo. Mesmo o ameaçador personagem novo (apresentado com toques geniais de horror), que inicialmente surge como um assassino de poucas palavras, ganha contornos dramáticos quando descobrimos a sua origem — assim como acontece com Noah na segunda temporada. O grande vilão da série, afinal, é o tempo e sua inevitabilidade, e faz todo o sentido que Adam tente destruí-lo, já que acompanhamos e sentimos tudo o que ele perdeu por conta dele.

Paradoxo de Bootstrap, Ponte de Einstein-Rosen, Complexo de Schrödinger… nenhum dos conceitos de física quântica que são referenciados ao longo da série serviriam para torná-la interessante, se seus personagens não o fossem. Todos são falhos, tridimensionais, complexos — e exatamente por isso, relacionáveis, passíveis de nosso investimento emocional. Mesmo figuras mais estereotipadas, como Hannah (Schöne), ‘a bruxa’, ou Mikkel/Michael (Liebrenz/Rudolph), o pobre menino que se perdeu no tempo, têm motivações e dramas muito plausíveis, humanos. Desejamos saber de onde eles vieram, e para onde eles foram. Sem eles, Dark não teria metade de seu apelo.

O desfecho de Dark é ousado e vai causar controvérsia. Ainda que seja sustentado através da lógica que a própria série apresenta para si, pode-se argumentar que o final surge como uma espécie de Deus Ex Machina, já que resolve um problema que ficou mais complexo do que a própria solução. Sim, é questionável a forma inesperada com que ele surge no último episódio, mas não se pode negar que ele estava lá o tempo todo, e a possibilidade para que ele acontecesse foi aberta (literalmente) lá no início da produção. E, a despeito de sua suposta imprevisibilidade, o ato final é tematicamente coerente com todo o restante da série.

O que motiva a retirada de uma estrela de minha avaliação, além da solução já citada acima, é uma cena específica no último episódio, que traz uma passagem que flerta perigosamente com a metafísica, e que também é parecidíssima com um filme de ficção científica tão recente quanto famoso — fatos, que, em minha opinião, enfraquecem o final. Mas não o suficiente para tornar a série, como um todo, menos brilhante do que é.

Dark, ao longo de suas três temporadas, conseguiu criar uma trama complexa, coesa e instigante, com doses certeiras de mistério, ficção científica e drama. Graças ao seu intrincado enredo que se utiliza da complexa árvore genealógica de uma pequena cidade da Alemanha para criar uma trama de sci-fi brilhante, ganha espaço entre as grandes obras de viagem no tempo que a humanidade já criou. Graças ao seu desfecho corajoso e poético, ganha lugar no seleto grupo de séries que souberam acabar na hora certa. O que já a coloca em posição mais do que privilegiada na História.

Nota:


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Jornalista em formação, ex-membro do finado e saudoso Terra Zero e leitor de histórias em quadrinhos. Fã de ficção científica e terror, divide seu tempo livre entre o cuidado com suas dezenas de gatos e a paixão pela cultura pop. Sonha com o dia em que perceberão que arte é sim, uma forma de discutir política.

Comments

  1. […] das três temporadas da série, preparando o terreno para o desfecho da atração — o qual já vimos e escrevemos sobre. […]

  2. A série é uma verdadeira merda. Sinceramente eu nao entendo como alguem pode se passar a comentar algo tao fora do contexto como esses criticos tem feito. A serie é extremamente confusa.

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