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Expresso do Destino | Crítica

Expresso do Destino | Crítica

Crítica de Expresso do Destino, da NetflixExpresso do Destino (Yarina Tek Bilet)

Ano: 2020

Direção: Ozan Aciktan

Roteiro: Drazen Kuljanin, Faruk Ozerten

Elenco: Dila Çiçek Deniz, Metin Akdülger, Tevfik Kartal, Fatma Filiz Sencan, Omur Kayakirilmaz

Existe algo de especial em vivenciar uma coincidência. Acontecimentos com uma certa semelhança — mas sem qualquer relação de causa e efeito — deixam uma sensação de surrealidade, quase como se o roteirista da nossa vida estivesse planejando aquilo há algum tempo. Coincidências, aliás, acendem o debate sobre destino: existe destino? Os acontecimentos futuros estão escritos em algum lugar? É possível fugir dele?

O debate filosófico sempre será interessante, mas aplicar este conceito em uma obra audiovisual pode ser arriscado. Lembre-mo-nos dos infames guindastes alinhados que ajudaram o Homem-Aranha de Andrew Garfield a chegar mais rápido ao prédio. É preciso cuidado e competência para fazer com que os eventos em tela sejam responsabilidade da vontade do universo, e Expresso do Destino não decepciona. Dois desconhecidos acabam na mesma cabine de um trem e descobrem ter mais em comum do que imaginam.

Leyla (Dila Çilek Deniz) é uma jovem fechada, a caminho de um casamento, que embarcou no trem certo, mas no dia errado. Ali (Metin Akdülger), por sua vez, é carismático e curioso, também a caminho de um casamento, e estranha encontrar a moça em sua cabine, pois ele havia comprado os quatro assentos daquele compartimento. Desde o começo fica claro que Leyla não está disposta a conversar, embora Ali insista bastante. Isso muda quando o condutor chega para cobrar as passagens, e a jovem se vê em maus lençóis. A prontidão de Ali em ajudá-la faz com que a barreira inicial caia e comece, então, a verdadeira jornada: as 14 horas de viagem de trem não serão em silêncio.

O filme é curto — tem uma hora e meia de duração — e sua evolução é diferente do que estamos acostumados. Ao invés da tradicional divisão em primeiro, segundo e terceiro atos, implícitos no desenvolvimento, Expresso do Destino se divide em partes — oito, para ser exato — bem destacadas em tela. Isso torna a história dinâmica; é como se estivéssemos lendo um livro, com seus capítulos bem definidos, e a história se desenrolasse de forma leve.

Leveza, aliás, é o principal motivo da nota alta. O roteiro é leve e sutil; os diálogos são orgânicos e bem construídos, e os atores entregam um resultado convincente. Não há uma tentativa de aprofundar conceitos; isso feriria a proposta do filme. Dois desconhecidos compartilham seu passado um com o outro, como qualquer um de nós poderia fazer numa longa viagem de trem. Até mesmo nos monólogos, presentes nos momentos com maior carga dramática, o texto não soa forçado nem explicativo demais: vemos uma pessoa comum, com problemas comuns, desabafando sobre sua vida e tirando do peito as angústias que carrega.

Há um grande simbolismo na viagem de trem. Em determinado momento do filme, Ali brinca sobre seus amigos perguntarem por que viajar 14 horas em um trem quando poderia ter pego um avião; embora ele responda no filme, é uma reflexão que vale a pena fazer em diferentes camadas. Para os dois protagonistas, a viagem começa como uma tentativa de ambos em impedir que a vida siga seu curso (ou deveríamos dizer ‘seu destino’?); conforme o trem avança, as bagagens são abertas — literal, figurativa e emocionalmente falando; em determinado momento, a viagem fica muito pesada, e ambos não sabem se serão capazes de enfrentar o destino desse trem.

As reviravoltas que acontecem na trama não são exatamente surpreendentes, mas não deixam de ser impactantes. Descobrir certas coisas não torna mais fácil lidar com elas. A essa altura do filme, aliás, não somos mais meros espectadores. Por um bom tempo, somos o terceiro passageiro naquela cabine, companheiros de viagem de Ali e Leyla; o que é levemente prejudicado pela escolha dos planos em algumas cenas. O posicionamento da câmera em alguns poucos momentos incomoda, mas não atrapalha a narrativa.

Expresso do Destino é uma história bonita, contada com sutileza mas sem ser fútil, e um excelente exercício de reflexão. Não somos nós todos, afinal, passageiros nesse trem? Será que carregamos as coisas certas em nossa bagagem? Estamos preparados para o que vamos encontrar em nosso destino?

Nota:


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Ator, escritor, diretor e roteirista, Gabryel é ruim em todas essas coisas. Crítico por natureza, adora reclamar de tudo, e é fã de filmes que ninguém tem paciência pra assistir. Carrega a convicção de que Click é um clássico cult e quem discorda é clubista.

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Comments

  1. Vou assistir hoje mesmo. Fiquei bem curiosa.

  2. Dale gameta! Tamo junto

  3. Em uma era de romances desgastados, vemos que o previsível também pode ser reflexivo, eles entram no trem com o intuito de retardar o “seguir em frente” mas é justamente no trem que eles seguem em frente…poético!

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