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Especial | Momentos antes da desgraça acontecer

Especial | Momentos antes da desgraça acontecer

O cinema é uma poderosa ferramenta de manipular emoções. Em alguns filmes, a passagem dos momentos de tranquilidade que antecedem a tempestade ocorrem de maneira tão brusca que se tornam imediatamente memoráveis para os telespectadores. No especial de hoje, reunimos alguns dos melhores momentos antes de a desgraça acontecer. Essa lista obviamente contém muitos, MUITOS SPOILERS, então leia com cautela.

Homem-Aranha (2002), por Carlos Redel


Clássico dos filmes de super-heróis, o primeiro filme do Homem-Aranha tem diversos momentos icônicos e um deles levou os fãs ao delírio quando aconteceu: ao ser sacaneado pelo dono do clube de luta livre clandestina, Peter Parker (Tobey Maguire) vê o local ser assaltado e deixa o ladrão fugir. Ao ser cobrado pelo ‘empresário’, que questionou o motivo pelo qual ele não segurou o meliante, o nosso herói devolve a resposta que havia ouvido minutos antes: “E quem disse que isso é problema meu?”. Auge. No entanto, ao protagonizar o momento, Peter mal sabia que aquele homem seria responsável pela morte do Tio Ben minutos depois. Por isso, é sempre bom lembrar: “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”.

Joias Brutas (2020), por Carlos Redel

Elogiado filme dos irmãos Safdie, estrelado por um inspirado Adam Sandler, não dá tempo para respirar. Na trama, que se passa em 2012, em Nova York, Howard Ratner é o (tramposo) dono de uma loja de joias que está cheio de dívidas. Ele enxerga uma salvação de quitar as suas pendências com os credores através da venda de uma pedra não lapidada que veio da Etiópia. No entanto, viciado em aposta, acaba arriscando todo o dinheiro em um jogo de basquete. O filme, frenético, acaba chegando ao seu ápice quando Howard prende três de seus cobradores em sua loja, até que o resultado da partida saia — enquanto a tensão chega ao limite. E, após ter conseguido vencer a aposta que o deixaria milionário, tudo parecia que daria certo para Howard, mas Joias Brutas não é uma história feliz (pelo menos, não para Howard). Após libertar os seus credores, um deles, de surpresa, dá um tiro na cabeça do personagem. Após mais de duas horas sofrendo junto ao protagonista, temos um desfecho destruidor e que conversa com aquele submundo apresentado pelos Safdie. O final é um choque e se encaixa perfeitamente com o tema ‘momentos maravilhosos antes da desgraça acontecer’.

Logan (2017), por Carlos Redel


Logan marca a despedida de Hugh Jackman do icônico papel de Wolverine e, mais do que isso, também traz a despedida de Patrick Stewart como Professor Xavier. O clima todo do filme é de melancolia e de pessimismo, uma vez que a vida dos dois mutantes deu tremendamente errada no futuro. No entanto, após a chegada de Laura (Dafne Keen), a X-23, surge um pouco de esperança na vida daqueles dois ex-heróis. O momento máximo dessa alegria é quando o trio encontra com uma família, que acaba convidando os protagonistas para passarem a noite na sua fazenda. Lá, eles acabam participando de um animado jantar e, entre trocas de olhares carinhosos, percebemos que o momento era de felicidade genuína. No entanto, na mesma noite, tudo dá errado. O Professor Xavier é assassinado e, depois, só por água abaixo, chegando ao desfecho trágico com a morte de Logan. Pelo menos, Laura sobrevive…

Harry Potter e o Cálice de Fogo (2005), por Gabryel Nunes


O quarto ano de Harry (Daniel Radcliffe) prometia ser bastante agitado: após uma tumultuada Copa Mundial de Quadribol, Hogwarts seria a sede do Torneio Tribruxo, recebendo as escolas de Beauxbatons e Durmstrang. Todos os alunos de 17 anos poderiam se candidatar, mas apenas o melhor de cada escola seria selecionado pelo Cálice de Fogo. Entre as premiações almejadas, fama, fortuna e a glória eterna.
No dia da seleção, todos os alunos se reuniram no Salão Principal para uma linda festa. Selecionados o campeão de cada escola, Dumbledore (Michael Gambon) se preparava para dar ínicio aos festejos, mas foi interrompido pelo Cálice, que selecionou outro nome: Harry Potter.A festa virou um enterro, e o Salão se pôs silencioso enquanto Harry avançava vacilante sem entender por que seu nome estava lá.
Esse momento é uma virada em toda saga, pois a participação de Harry no torneio foi orquestrada por ninguém menos que Voldemort (Ralph Fiennes) – com ajuda de Bartô Crouch… Jr (David Tennant), fiel comensal – como parte do seu plano para recuperar seu corpo físico e voltar a aterrorizar o mundo bruxo. É a partir desse momento que Harry se vê na posição de resistência ao avanço do Lorde das Trevas, contando com poucos aliados e tendo que provar pro mundo que não está louco. Quem diria que um pequeno pedaço de papel expelido de um cálice em chamas seria capaz de mudar para sempre a história do mundo bruxo.

Vingadores: Ultimato (2019), por Gabryel Nunes


Cinco anos após os eventos de Guerra Infinita, os vingadores se reúnem com um plano para salvar a humanidade. Professor Hulk (Mark Ruffalo) e Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) uniram os intelectos para possibilitar a viagem no tempo, e o Capitão América (Chris Evans) faz um grande discurso motivacional. É a batalha das batalhas. A luta que não podem perder. Os Vingadores sorriem, os espectadores se animam e Natasha Romanoff (Scarlett Johansson) crava: “Te vejo em um minuto”. A gente até acreditava, até ver a Viúva Negra e o Gavião (Jeremy Renner) irem parar em Vormir… Sabemos que nada de bom vai vir dali, e que um dos dois não vai voltar pra casa. O que era empolgação pelo ousado plano em recuperar as Jóias do Infinito vira tristeza ao ver Romanoff se sacrificar no lugar de Clint Barton, numa das decisões mais discutíveis do filme. O sacrifício da Viúva não é em vão, e os heróis mais poderosos da Terra vencem a batalha, mas pagam um alto preço por isso.

Bastardos Inglórios (2009), por Gabryel Nunes


Tarantino é um mestre na arte da reviravolta. Cenas que começam inofensivas podem acabar se revelando um banho de sangue. Em Bastardos Inglórios, o Tenente Archie Hicox (Michael Fassbender), acompanhando de dois outros soldados dos Ursos Judeus, entra em um bar para encontrar a atriz Brigett von Hammersmark (Diane Kruger), que irá ajudá-los em seu plano de incendiar um cinema com os principais líderes nazistas dentro.
O encontro é tenso, pois cinco soldados do exército alemão estão comemorando o nascimento do filho de um deles, enquanto Hicox e os Ursos se passam por oficiais aliados. Um dos soldados questiona o sotaque do tenente, que diz ser natural de um pequeno povoado alemão. A tensão aumenta com a chegada do Major Hellstrom (August Diehl), da SS, que se aproxima para ouvir a conversa.
Tudo parece se normalizar quando as suspeitas são afastadas, e o major propõe um jogo de adivinhas. O grupo parece se divertir, mas não podemos esquecer que é um filme de Quentin Tarantino, e logo ferve o kissuco.
O jogo é interrompido quando o Major pede uma bebida, e Hicox, ao indicar a quantidade de copos necessários, levanta seus dedos indicador, médio e anelar, e o alemão mata a charada. Na região a qual Hicox diz pertencer, se levanta o dedão ao invés do anelar para indicar “três”. Um pequeno detalhe que acaba com a festa e transforma o bar em um cenário de guerra.

Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro (2010), por André Bozzetti


Quando uma grande quantidade de armas desaparece de uma delegacia no bairro do Tanque, o Capitão André Mathias (André Ramiro) é levado a crer que Felpa, o “dono” do bairro, foi o responsável pelo roubo. Com as ruas cercadas pela PM e pelo BOPE, não demora para que ele capture o criminoso. Parece que tudo deu certo e a ação foi um sucesso. E é este o momento que precede a desgraça. Após uma violenta sessão de tortura contra o suspeito, Mathias não consegue obter a informação desejada. Antes que ele possa fazer mais perguntas e desvendar o mistério, o Major Rocha (Sandro Rocha), que é um miliciano, chega de surpresa e mata Felpa a queima-roupa. Quando Mathias cobra explicações de Rocha, e lhe intima a apresentar o informante que acusou Felpa, o miliciano acena para um de seus comandados que dispara em Mathias pelas costas. Uma cena bem ilustrativa para aprendermos algo sobre a milícia e sobre aqueles que a defendem.

Cidade de Deus (2002), por André Bozzetti


Como Buscapé (Alexandre Rodrigues) descreve tão bem: “Bené era gente fina demais para ficar naquela vida de Bandido”. O traficante vivido por Phellipe Haagensen tinha um grande coração. Era querido por todos e, o principal, mantinha Zé Pequeno (Leandro Firmino) sob controle. Justamente por não se encaixar naquela realidade, tudo que ele precisava era de uma motivação para sair da vida do crime. E a motivação surgiu: Angélica (Alice Braga). Ele decidiu que iria embora para viver com seu grande amor. Sendo assim, ele organizou uma grande festa de despedida, que contou com a presença de toda a comunidade. Tudo parecia perfeito e se encaminhando para uma linda mudança de vida para Bené. Acontece que, durante a festa, ele e Zé Pequeno se desentendem. Durante a confusão entre os dois, um garoto que pretendia matar Zé Pequeno dispara uma arma em meio à multidão. No entanto, o atingido é Bené, que acaba morrendo justamente no momento que deveria marcar o início de sua nova vida.

Bacurau (2019), por André Bozzetti


O cerco sobre Bacurau está se fechando. Os “turistas” gringos que chegaram na região para participar de uma sádica caçada humana aos habitantes da cidade estão se preparando para o ataque final. No entanto, Pacote (Thomas Aquino) buscou a ajuda do neo-cangaceiro Lunga (Silvero Pereira) e, junto com os outros habitantes da cidade, eles começam a preparar a sua defesa. Sem ligar muito para essa movimentação, um grupo de crianças decide brincar nos arredores da cidade. A brincadeira consistia em levar a lanterna no ponto mais longe possível em meio à escuridão. Tudo parecia bem. Eles estão se divertindo, com toda a inocência do mundo, quando surge um vulto por trás da vegetação. O vulto era o assassino Joshua (Brian Townes) , que atira, à queima roupa, matando um dos meninos que brincava ali. Depois, Joshua justifica o assassinato da criança para outro competidor, dizendo que pensou que a lanterna era uma arma. Já vimos desculpas semelhantes por aí, não é mesmo?

Nasce uma Estrela (2018), por Diego Francisco


Bradley Cooper dirigiu e estrelou o terceiro remake deste filme que está a algumas versões de ser comparável a filme de super-herói ou de terror de tantas vezes que estão descontando a mesma história. Jackson Maine (Cooper) é um cantor de country famoso mas decadente se perdendo no vício de álcool e remédios controlados – sem contar que ele também está perdendo a audição. Tudo muda quando ele encontra Ally (Lady Gaga), uma cantora e compositora promissora que não consegue oportunidades na carreira por não compartilhar da beleza tipicamente vista em artistas pop. Jackson se apaixona e ajuda a alavancar a carreira dela. Os dois têm altos e baixos como casal devido ao vício de Jackson, que acaba refletindo negativamente nela também. Depois de passar pela reabilitação e ficar bem, o cantor é confrontado pelo agente de Ally, que diz que enquanto ele estiver vivo vai continuar a machucar a carreira da amada e que nunca vai deixar de ser um viciado. Machucado pelas palavras do agente, Jackson decide acabar com tudo e comete suicídio para deixar de ser um estorvo na vida da mulher que mais ama, se enforcando.

Os Infiltrados (2006), por Diego Francisco


O remake do filme sul coreano Conflitos Internos foi a primeira (e única) obra de Martin Scorsese a conquistar o Oscar de Melhor Diretor e Melhor Filme para o experiente cineasta. No longa, Billy Costigan (Leonardo DiCaprio) e Colin Sullivan (Matt Damon) são os tais infiltrados do título. Costigan é um policial que conseguiu vencer sua origem periférica e o histórico criminoso de sua família para entrar na lei apenas para se tornar um agente disfarçado na máfia do temido e insano Frank Costello (Jack Nicholson), enquanto Sullivan é um membro secreto da organização criminosa que se infiltrou na polícia. Com ambos os líderes da máfia e da polícia assassinados, os dois infiltrados, preocupados com o próprio destino, colidem no clímax. Sullivan apagou os registros de Costigan como policial e, em retorno, Costigan o capturou, pronto para acabar com a carreira dele. Por um instante, tudo parece dar certo até Costigan levar um tiro na cabeça do mais absoluto nada quando o elevador abre a porta. Costello tinha mais agentes disfarçados na polícia e Sullivan foi resgatado e conseguiu escapar impune.

Jojo Rabbit (2019), por Paola Rebelo


Jojo Rabbit foi um dos filmes de 2019 que mais mexeram com as emoções do público. Encaixar o gênero de comédia em uma temática sensível como o holocausto era uma tarefa que somente um diretor talentoso como Taika Waititi, que entendia que o contexto exigia também uma boa dose de drama. A cena em que Jojo (Roman Griffin Davis) e Elsa (Thomasin McKenzie) se unem para proteger a identidade da garota dos oficiais nazistas é um ponto de virada no filme e no relacionamento dos dois. Jojo, apesar dos sentimentos conflitantes pelo fato de ser um nazista de carteirinha e estar se apaixonando por uma judia escondida em sua casa, parece orgulhoso e feliz enquanto passeia pela cidade após o acontecimento… Até encontrar sua própria mãe (Scarlett Johansson) enforcada na praça da cidade. A cena choca por ser o exato momento em que o filme abandona a maior parte de sua comicidade e abraça o drama com todas as suas forças, deixando todos os telespectadores em choque.

BÔNUS: Star Wars: A Ascenção Skywalker (2019), por Paola Rebelo


O momento antes de a merda acontecer no Episódio IX de Star Wars é… Bem, os créditos iniciais. Um filme que deveria encerrar uma trilogia gigantesca, com o nome mais gigantesco ainda da Disney por trás da produção, deveria ter um roteiro minimamente coerente. No entanto, J. J. Abrams, o covarde, ignorou sem pudores os acontecimentos do filme anterior para servir às vontades dos fãs reclamões da internet. Um vilão antigo e já derrotado foi resgatado sem qualquer explicação lógica, plots inteiros foram abandonados, personagens como Rose Tico (Kelly Marie Tran) e Maz Kanata (Lupita Nyong’o) foram escanteadas e todos efeitos dramáticos do filme (como a suposta morte de Chewie) eram desmentidos alguns minutos depois. A poderosa mensagem plantada por Rian Johnson em Star Wars: Os Últimos Jedi de que a força poderia vir de qualquer lugar da galáxia, sem um sobrenome importante, também foi abandonada ao transformar ridiculamente Rey (Daisy Ridley) em uma descendente de Palpatine (Ian McDiarmid). Realmente, os únicos momentos em que é possível se sentir feliz ao assistir ao Episódio IX são os créditos iniciais. Ninguém estava preparado para a bomba que iria assistir.

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Jornalista que migrou para a veterinária, mas sem deixar para trás as jornalices. Vive e respira horror, seja em quadrinhos, filmes, séries ou livros. Último posto de defesa da DC Comics em relação à Marvel, embora tenha que fazer vista grossa quando o papo é cinema. Fã de Heavy Metal, games single player e cospobre de carteirinha quando sobra dinheiro no final do mês.

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