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Expresso do Amanhã – 1ª temporada | Crítica

Expresso do Amanhã – 1ª temporada | Crítica

Expresso do Amanhã (Snowpiercer)

Temporada: 

Ano: 2020

Criadores: Graeme MansonJosh Friedman

Elenco: Daveed DiggsJennifer ConnellyMickey SumnerAlison WrightIddo GoldbergLena HallSheila VandMike O’MalleyAnnalise BassoSam OttoSusan ParkSteven OggKerry O’MalleyVincent Gale

Existem diversas histórias de ficção científica que tomam o aquecimento global como ponto de partida. É um tema espinhoso que muita gente não gosta de falar por muitos motivos, a política sendo um deles. Acredite ou não, as mudanças climáticas estão aí, e elas serviram de base para uma das HQ’s mais aclamadas da Europa, O Perfuraneve. A história de um trem com os últimos habitantes da humanidade virou filme uma vez pelas mãos do talentoso Bong Joon-ho (talvez você se lembre dele, é o cara que ganhou 4 Óscares este ano), e agora ganha uma série pelo canal TNT, lançada no Brasil pela Netflix, e é desta última adaptação que vamos falar. 

Expresso do Amanhã se passa 7 anos depois de o mundo todo congelar, algo que só ocorreu pois o ser humano tentou consertar o erro do aquecimento global. Os últimos membros da humanidade estão a bordo do Snowpiercer, um trem de 1.001 vagões que rodeia o mundo e nunca para de correr para manter a existência dos seres humanos. O problema do Snowpiercer é que há uma brutal divisão de classes vigente: quanto mais rico você for, mais regalias e mais à frente você está. Não é à toa que a galera do fundo é a mais pobre em um sistema que relembra as castas da Índia. Quando um assassinato ocorre em uma das classes da frente, Andre Layton (Daveed Diggs), o único detetive do trem – que por acaso é do fundão –, é chamado para solucionar o caso.

Não se engane. Expresso do Amanhã não é só mais uma série policial. É uma ficção científica distópica, o crime a ser resolvido é só o artifício de roteiro escolhido pelos showrunners Graeme Manson e Josh Friedman. Um artifício bem usado, é preciso destacar. Diggs atua muito bem no papel de um detetive amargo, mas sem deixar de lado a outra faceta do protagonista, o revolucionário idealista. Layton tem pulso firme, um ar de liderança com ninguém no trem possui e uma presença de cena necessária para seu personagem. Daveed Diggs é um protagonista melhor do que Chris Evans foi no filme Expresso do Amanhã, embora a série não possua a classe do longa de Bong Joon-ho.

Um protagonista forte precisa de um antagonista à sua altura. Quem desempenha esse papel é Melanie Cavill, interpretada por Jennifer Connelly. Ela é a principal secretária do trem e a porta-voz do Sr. Wilford, uma figura quase mística que foi responsável pela construção da arca dos últimos humanos da Terra. Melanie não é uma mera secretária, mas sim uma déspota. É guardiã de segredos que poderiam destruir a “ordem” do trem se fossem revelados, possui poderes ditatoriais e uma equipe fiel ao seu dispor que faz tudo o que ela pedir ou mandar. Connelly, que já teve diversas vezes de mostrar seu potencial como atriz, também não faz feio, e a dinâmica conflituosa entre ela e Layton é o principal motor deste expresso – um trocadilho bastante conveniente.

Apesar de bons protagonistas e uma boa história, Expresso do Amanhã não é uma série livre de defeitos. Eles são muitos. A começar pelos coadjuvantes importantes mal interpretados. Personagens como os membros da família Folger, o maquinista Bennett (Iddo Goldberg), a indecisa Zarah (Sheila Vand) e o garoto Miles and Miles (Jaylin Fletcher) não possuem intérpretes à altura do que o roteiro pede, fazendo com que suas cenas sejam uma mais canastrona que a outra. Outros defeitos incluem a narração padronizada no início de cada episódio, que mais atrapalham do que acrescentam; e a montagem indecisa de alguns episódios, especialmente o primeiro, bastante picotado. A história e os protagonistas são o que salvam a série, e o fazem bem-feito.

À medida que a trama vai crescendo, fica quase impossível não simpatizar pelas classes mais baixas do trem. Os sobreviventes sofrem tanta injustiça que precisam recorrer à violência extrema – e quando digo extrema, é a violência que se vê explícita em tela. Em determinado momento, Expresso do Amanhã parece recorrer a um episódio conhecido e polêmico da história, a Revolução Russa de 1917, e acaba tomando esse acontecimento como base. Não por coincidência, é quando a temporada chega ao seu ápice e entrega cenas de batalhas e discursos de guerra que remetem a Vikings, mas em um espaço fechado.

Expresso do Amanhã termina sua 1ª temporada dando o benefício da dúvida ao espectador. A série já está renovada, mas as cenas finais tomam caminhos um tanto inesperados, que qualquer citação nesta crítica estragaria totalmente a experiência de quem ainda pretende assistir. O gancho não é covarde e nem gratuito, algo raro para algumas séries que escolhem apenas o choque pelo choque em seus episódios finais.

Por falar em covarde, isso é algo que Expresso do Amanhã não é. Tratar de temas espinhosos em um mundo cada vez mais negacionista é uma tarefa arriscada. Negar um fato apenas porque ele pode doer não vai fazê-lo deixar de existir. E se Expresso do Amanhã deixou uma mensagem, é a de que o mundo continuará dominado pelos superricos, especialmente no seu fim. Aparentemente, nós já estamos vivendo isso na pele…

Nota:


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João Vitor Hudson

João Vitor Hudson é um publicitário aos 22 anos. Ama cinema desde quando desejava as férias escolares só pra assistir todos os filmes do Cinema em Casa e da Sessão da Tarde. Ama o MCU, e confia bastante no futuro da DC nos cinemas.

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