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Adú | Crítica

Crítica de Adú, da NetflixAdú

Ano: 2020

Direção: Salvador Calvo

Roteiro: Alejandro Hernández

Elenco: Luis Tosar, Álvaro Cervantes, Anna Castillo, Moustapha Oumarou, Miquel Fernández, Zayiddiya Dissou, Adam Nourou

A técnica de cruzar histórias de personagens aparentemente desconexos para unir uma única mensagem ao final da obra não é novidade na indústria cinematográfica. Em 2006, por exemplo, o diretor mexicano Alejandro González Iñárritu nos apresentava a Babel, premiadíssimo filme que interligava narrativas no Japão, México, Estados Unidos e Marrocos, com personagens com problemáticas e jornadas distintas, mas que, de uma forma ou de outra, influenciavam nas vidas uns dos outros em um contexto globalizado.

Este ano, o cineasta espanhol Salvador Calvo trouxe ao mundo seu segundo filme, Adú. A obra deveria ser exibida nos cinemas, mas por conta da pandemia de Covid-19, ele estreou na plataforma Netflix. No longa espanhol, nós temos três núcleos de histórias que trabalham com a temática da imigração. O tema é interessante, com uma mensagem importante e que, nos tempos em que vivemos, pode e deve ser esmiuçado no cinema com propósitos de conscientização. No entanto, em Adú, o andar da carruagem dá pouca importância às próprias consequências das histórias que nos são apresentadas.

Para citar como exemplo, o primeiro núcleo apresentado no filme é o de Mateo (Álvaro Cervantes), um policial que trabalha na fronteira de Marrocos com a Espanha e que acaba assassinando um imigrante que tenta pular a cerca. Toda a burocracia, as consequências e o julgamento desses profissionais foi explorado de maneira rasa e preguiçosa. Essa parcela da história, aliada com seus personagens que também foram pouquíssimos aprofundados, poderia ter sido mais interessante, mas deixou a impressão de que foi jogada ao acaso para ocupar tempo de filme. A única coisa que parece conectar com a temática proposta pelo diretor é que a imigração aparece nas cenas iniciais.

Além disso, o outro ‘núcleo secundário’ também faz pouca (ou nenhuma) conexão com a história principal do menino Adú. Neste arco, temos a turbulenta relação entre o espanhol Gonzalo (Luis Tosar) e sua filha Sandra (Anna Castillo). Gonzalo é um ativista que trabalha em ONGs africanas de proteção aos elefantes, mas parece entrar em constante conflito com os moradores locais por não oferecer qualquer empatia para com as pessoas, apenas aos animais. Além disso, ele também tenta recuperar a relação com sua filha, que possui problemas com drogas.

O único núcleo realmente interessante pela forma como foi mostrado foi o do personagem homônimo ao título. Com apenas seis anos, o pequeno Adú (Moustapha Oumarou) precisa fugir para a Europa com Alika (Zayiddiya Dissou), sua irmã mais velha, ambos recentemente órfãos. Trata-se do arco narrativo mais interessante e emotivo do filme. Com sua pouca idade, Adú sequer possui capacidade de amadurecer com as horríveis situações pelas quais passa ou compreender o que está acontecendo. Tudo que ele possui é um conselho da irmã que, ainda que sutilmente mostrado, parece ter ficado marcado na memória do garoto: não importa o que aconteça, continue seguindo em frente.

São narrativas poderosas e com bom potencial. No entanto, o molde do Babel de Iñárritu que o diretor optou por seguir não foi uma fórmula boa para contar essas histórias. As relações entre elas são ínfimas e sem muito sentido, como, por exemplo, o fato de que a bicicleta que um dia foi de Adú acabou nas mãos de Sandra — e as referências entre os dois núcleos acabam por aí. Provavelmente, se fossem feitos três filmes distintos, teríamos tido obras muito mais profundas e bem exploradas. Relacionar esses personagens do modo como foi trabalhado por Salvador Calvo foi apenas forçado, e eliminou boa parte do peso catártico que o longa poderia ter tido.

Nota:


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Jornalista que migrou para a veterinária, mas sem deixar para trás as jornalices. Vive e respira horror, seja em quadrinhos, filmes, séries ou livros. Último posto de defesa da DC Comics em relação à Marvel, embora tenha que fazer vista grossa quando o papo é cinema. Fã de Heavy Metal, games single player e cospobre de carteirinha quando sobra dinheiro no final do mês.

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