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Cursed: A Lenda do Lago – 1ª temporada | Crítica

Cursed: A Lenda do Lago – 1ª temporada | Crítica

CurCrítica de Cursed: A Lenda do Lago, da Netflixsed: A Lenda do Lago (Cursed)

Ano: 2020

Criação: Thomas Wheeler e Frank Miller

Direção: Zetna Fuentes, Daniel Nettheim, Jon East, Sarah O’Gorman

Roteiro: Tom Wheeler, Janet Lin, Rachel Shukert, Leila Gerstein, William Wheeler, Robbie Thompson

Elenco: Katherine Langford, Devon Terrell, Gustaf Skarsgård, Daniel Sharman, Sebastian Armesto, Lily Newmark, Shalom Brune-Franklin, Peter Mullan

Cursed: A Lenda do Lago é uma reinterpretação arrojada do Ciclo Arturiano. Revisando vários conceitos da lenda original, com a inserção de elementos que ampliam a história, a série baseada no romance escrito por Thomas Wheeler e ilustrado por Frank Miller entrega bom entretenimento e renova o interesse pelas histórias do Rei Artur para toda uma nova geração de espectadores. E mais: consegue tudo isso mesmo com execução trôpega, direção falha e atuações muito frágeis, que quase sabotam a série em alguns (pra não dizer vários) momentos. O que mostra a força da história criada por Wheeler, que conseguiu sobreviver até mesmo a diretores medíocres e atores inexpressivos.

A trama acompanha Nimue (Lanfgord), garota da tribo dos Feéricos que sofre preconceito de seus pares por conta de suas habilidades mágicas. Quando um grupo de extremistas religiosos, os Paladinos, destroem tudo aquilo que ama, Nimue (ou a Bruxa com Sangue de Lobo, como fica conhecida) não vê outra alternativa a não ser se aliar ao trambiqueiro Artur (Terrell) em uma jornada para entregar a Espada dos Reis Antigos ao arredio mago Merlin (Skarsgård), conforme o desejo de sua mãe, e salvar o seu povo da destruição que os Paladinos, na figura de um misterioso cavaleiro (Sharman).

A série demora a engrenar. Os primeiros episódios estabelecem de forma muito rasa os personagens e suas motivações, o que nos impede de sentir empatia por estes. Nem o uso de flashbacks (que, mesmo sendo o recurso mais óbvio e baixo de dar algum feedback aos personagens, costuma ser no mínimo eficiente) dá conta de resolver esse problema. Por volta do segundo episódio, os roteiristas de Cursed nos jogam em meio a um jogo político muito complexo, envolvendo o reinado de Uther Pendragon, a Igreja e o povo Feérico, sem que saibamos bem o que cada um quer ou porque os personagens agem como agem. E, mesmo, mesmo com toda essa costura política, os roteiristas encontram espaço para inserir dramas adolescentes tolos, com direito a triângulo amoroso sem química e cena de romance com música pop tocando ao fundo. Mais brega impossível.

Apesar disso, temas muito interessantes são abordados, especialmente na figura dos Feéricos. Seres que vivem em torno de uma espécie de culto à natureza, os Féericos batalham pela própria existência, já que são negligenciados pelo Rei e massacrados pela Igreja. Percebe-se que o motivo pelo ódio à eles se justifica unicamente por seus cultos pagãos e pelo medo da população pelo desconhecido, o que adiciona camadas muito interessantes ao universo Arturiano — agora, estamos tratando de desigualdade étnica e social e intolerância religiosa em um mundo que vivia em torno da glorificação de feitos masculinos.

Tudo ficaria ainda melhor com atuações mais consistentes. Langford, estrela “chama-público” da série, parece estar sempre desorientada em cena – o que elimina a verossimilhança das cenas em que ela discursa para multidões ou toma decisões difíceis. O Artur vivido por Terrell se sai um pouco melhor, já que a insegurança do ator condiz com a jornada do personagem. Por fim, Merlin não rompe o esteriótipo do mago excêntrico e alcoólatra, já que o membro menos famoso da família Skarsgård atua no modo canastrão durante todos os 10 episódios.

Mas é na direção que a série encontra seus principais problemas. A falta de ritmo, com flashbacks fora de hora e prolongamento desnecessário de cenas dispensáveis, a falta de noção espacial, com cenas de ação picotadas e sem impacto e a inserção artificial de CGI (será que era muito difícil achar uns lobos de verdade?) denunciam a direção trôpega da série. Não há sequer um momento que possa ser considerado, pelo menos, ‘lembrável’. Momentos da trama que deveriam ser icônicos, como o já citado ataque dos lobos ou a cena do lago, se tornam apenas constrangedores, devido à uma direção insegura e sem nenhuma sofisticação. Uma história tão criativa merecia melhores realizadores.

Cursed trabalha muito bem com os mitos do Rei Artur, tratando-os com reverência sem perder a originalidade, adicionando camadas inéditas a um período histórico tão nebuloso quanto celebrado na cultura ocidental. Mesmo com uma direção que faz de tudo para estragar o produto, Cursed entretém e mostra que a história criado por Wheeler tem muito potencial, mesmo que sabotada por realizadores sem talento.

Nota:


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Jornalista em formação, ex-membro do finado e saudoso Terra Zero e leitor de histórias em quadrinhos. Fã de ficção científica e terror, divide seu tempo livre entre o cuidado com suas dezenas de gatos e a paixão pela cultura pop. Sonha com o dia em que perceberão que arte é sim, uma forma de discutir política.

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