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Desejo Sombrio | Crítica

Desejo Sombrio | Crítica

Crítica de Desejo Sombrio, da NetflixDesejo Sombrio (Oscuro Deseo)

Ano: 2020

Direção: Kenya Marquez, Pedro Ybarra

Roteiro: Letícia Lopez Margalli

Elenco: Maite Perroni, Jorge Poza, Alejandro Speitzer, Maria Fernanda Yepes, Eric Hayser, Regina Pavón, Paulina Matos, Samantha Orozco, Claudia Pineda, Magali Boysselle, Leticia Huijara, Eligio Meléndez

É difícil resumir Desejo Sombrio em poucas palavras. A série da Netflix fala de amor com uma visão muito realista: em que ponto acaba o sentimento bom e começa a ideia de posse?

Acompanhamos a história de Alma (Maite Perroni), uma advogada e professora de Direito, que ministra um seminário sobre violência, crime e gênero. É casada com o juiz Leonardo Solares (Jorge Poza), mas o matrimônio não vai bem. Estimulada por sua amiga Brenda (Maria Fernanda Yepes), a protagonista vai a uma festa e tem um caso com Dario (Alejandro Speitzer), muito mais jovem que ela — e mais próximo de sua família do que ela imagina.

Desejo Sombrio, porém, não fala só de romance — embora seja um importante elemento motivador na história. A trama é sobre a busca pelas verdades: pessoais, familiares e, até mesmo, algumas enterradas há muito tempo; trata, também, de questionar até onde se vai para manter as aparências.

A série é uma obra-prima nos seus principais aspectos. A começar pelo roteiro, que é consistente e bem tramado, e sustenta bem as reviravoltas da história. Aliás, importante destacar que as diversas viradas no rumo da atração são muito bem construídas, e não se intimidam ao tomar tempo para acontecer. Isso se dá, principalmente, pelo número incomum de episódios nessa temporada: são 18, diferentemente de outros lançamentos do serviço de streaming, que variam entre oito e 13, e abaixo das séries comerciais das redes de televisão, que flutuam entre 22 e 25. Num primeiro momento, a quantidade de episódios é preocupante, pois há o receio de que a história acabe se arrastando para preencher o tempo. Felizmente, esse não é o caso: tudo acontece no tempo certo, sem pressa e sem se alongar desnecessariamente.

O fator tempo influencia diretamente no desenvolvimento dos personagens, e valoriza bastante a trama. Inicialmente, somos convidados a acreditar em uma determinada narrativa, e os acontecimentos em tela ajudam a sustentar o argumento. Com o passar dos capítulos — e com pontuações meta textuais — começamos a ter dúvidas sobre o que é verdade e o que é mentira. Personagens que pareciam ser bonzinhos ganham profundidade, e acontecimentos que tomamos como verdade se mostram uma versão unilateral dos fatos.

Esse conflito de narrativas é trabalhado de forma excelente pela direção em dois sentidos: o primeiro, mais visível, é a paleta de cores da série, que marca e diferencia de forma sutil – mas eficiente – acontecimentos mais ativos de momentos um tanto quanto oníricos. Além disso, a cor vermelha se faz presente em momentos-chave, levando o espectador a rapidamente entender a linguagem utilizada pela produção.

O segundo aspecto que favorece o conflito de narrativas é o uso do voice over, a ferramenta do narrador ao fundo. A série não conta com esse observador neutro, que oferece uma visão externa, mas sim os próprios personagens em um contexto diferente. Exemplifico: em determinado momento, na aula de Zoe (Regina Pavón) ela vai citando conceitos que está utilizando em um trabalho, enquanto assistimos — com certa apreensão — acontecimentos com Alma, Dario e Leonardo, quase como se Zoe narrasse o que acontece com os três.

Nada disso seria possível não fosse a qualidade do elenco. Atores muito bem escalados, que entregam o texto com emoção e compromisso com a história, representando de forma magistral seus melhores e piores momentos. O maior destaque é Maite Perroni, que emociona até nos momentos mais sutis, e demonstra, mais uma vez, ser uma grande atriz. Com um trabalho vocal e corporal incrível, consegue se destacar entre os grandes.

Crítica de Desejo Sombrio, da Netflix

Parece ser uma regra do mundo cinematográfico que cenas de sexo devem ser inseridas em produções com o único intuito de mostrar atrizes nuas. Ao ver a classificação indicativa de Desejo Sombrio, temi que o bom trabalho empregado fosse prejudicado por essa máxima. Que grata surpresa foi ver que não é o caso. O sexo — ou amor, a depender do ponto de vista — cumpre uma função narrativa. Está ali pra pontuar sentimentos, mas também, pra explicitar a índole de alguns personagens, desenvolver tramas e criar vínculos. Não há nudez gratuita, e isso se deve à direção feminina da série. Temos diversos exemplos — principalmente hollywoodianos — da exposição indiscriminada e sem motivos de atrizes em filmes dirigidos por homens (cof cof Arlequina, em Esquadrão Suicida cof cof).

Desejo Sombrio chegou a ser comparada com 365 Dias, também da Netflix, por seu conteúdo erótico. A comparação é absurda: o filme é uma ode à cultura do estupro, e idealiza um relacionamento abusivo construído a partir de condutas criminosas. A série tem o sexo como elemento narrativo, e não romantiza as relações forçadas. Pelo contrário, as mostra como algo grave e ameaçador, que ataca a integridade da mulher. Ao mostrar relações sem consentimento, a diretora Kenya Marquez  não teve medo de usar diversos recursos para deixar o espectador desconfortável.

Existem dois pontos negativos que justificam o desconto de 0,5 na nota final da série. O primeiro, e mais relevante, é a sequência inicial do primeiro episódio, que coloca uma expectativa alta em determinado acontecimento que acaba não sendo nada do que poderíamos imaginar. O segundo é o cliffhanger ao final do último episódio, deixando um gancho para uma próxima temporada que pode acabar desgastando a trama e trazendo soluções para problemas que não existem.

Com a proposta de jogar com a expectativa do público, Desejo Sombrio entrega aquilo que promete, e o faz de forma magistral. É intrigante e prende o espectador do começo ao fim. Tem em suas peculiaridades — como a duração e a fotografia — suas maiores virtudes, e termina praticamente sem erros. Ademais, como diz Alma em determinado momento, nessa história não existem inocentes. Em qual versão devemos acreditar?

Nota:


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Ator, escritor, diretor e roteirista, Gabryel é ruim em todas essas coisas. Crítico por natureza, adora reclamar de tudo, e é fã de filmes que ninguém tem paciência pra assistir. Carrega a convicção de que Click é um clássico cult e quem discorda é clubista.

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