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Legado | 20 anos depois, A Fuga das Galinhas continua revolucionário

Legado | 20 anos depois, A Fuga das Galinhas continua revolucionário

Existe um filme de muito sucesso lançado em 2000, na virada do milênio, que critica as relações abusivas de trabalho e coloca o proletariado como protagonista e a classe burguesa como vilã. A classe proletária do filme trabalha incansavelmente para seus patrões, que simplesmente descartam os funcionários quando não produzem mais o suficiente. A firma é como um campo de concentração, e o trabalho ali beira a escravidão. Eis que surge uma líder revolucionária que busca uma sociedade igualitária mais justa, um lugar quase utópico, onde todos os trabalhadores merecem uma vida que não seja para agradar aos seus chefes, mas simplesmente ter a liberdade de produzir para si mesmos. Mas a liberdade não é fácil, e ser a líder de uma multidão com pouco conhecimento é uma tarefa impossível de ser feita sem se estressar.

Tudo o que você leu no parágrafo acima poderia muito bem ser uma adaptação cinematográfica e romantizada de O Capital e O Manifesto Comunista, livros famosos de Karl Marx que até hoje geram polêmica. A descrição, no entanto, é a de um dos filmes mais ousados e originais já produzido, o longa de animação A Fuga das Galinhas. “Mas como assim? Não era um filme para crianças que também diverte os adultos?” Sim, mas também é uma alegoria (ah, como cinéfilos amam essa palavra) perfeita das relações modernas de trabalho.

No último 23 de junho, a clássica animação em stop-motion (ou filme de massinha, como alguns gostam de dizer) completou duas décadas desde sua estreia. Para comemorar, no aniversário de 20 anos, foi anunciada uma sequência que será lançada pela Netflix a partir de 2022, mas não é disso que quero falar hoje. Este texto é simplesmente para louvar A Fuga das Galinhas e tentar explicar por que esse filme continua maravilhoso – e revolucionário!

Eat the rich!

20 anos de A Fuga das Galinhas

2019 foi um ano frutífero para o sub-gênero eat the rich no que diz respeito ao cinema. Houve sucessos como o coreano e oscarizado Parasita e Entre Facas e Segredos (ambos criticando acidamente o neo-liberalismo, com o segundo sendo claramente anti-Trump), e também filmes mais cults, como Ready or Not. Um ano com filmes que criticam a desigualdade social, a meritocracia e o capitalismo como um todo não acontece do nada. Ele precisou de precursores, e A Fuga das Galinhas entra nesta categoria.

A animação de 2000 tem uma mensagem clara sobre a opressão causada pelas relações de trabalho capitalistas. As galinhas são forçadas a botarem cada vez mais ovos para evitarem seu próprio descarte. Termos modernos muito utilizados pelos coaches como “alta performance” casam muito bem com a situação vivida pelas franguinhas do filme. Tudo o que Ginger, nossa protagonista, queria, era um mundo igualitário, livre, sem a necessidade de atingir cotas para realizar um lucro da qual nunca fariam uso. Não há nem mesmo uma carteira de trabalho para elas, o salário era composto de grãos para torná-las mais gordas. A única saída para o fim daquele inferno escravagista é a fuga, não de uma nem duas, mas de todas as galinhas. Como realizar esse feito quase utópico?

A esperança de Ginger vem do céu usando uma bandeira listrada e estrelada, um galo norte-americano chamado Rocky (na voz de um Mel Gibson inspirado), mas ele também não é confiável. O decorrer do filme mostra que ele é um mentiroso que mais causa problemas do que ajuda. O roteiro da animação é genial o bastante para colocar Rocky como um causador de problemas, uma analogia perfeita ao que os EUA tem feito no mundo há pelo menos um século com a justificativa fajuta de que vai restaurar a democracia.

Após dar um basta na atitude de Rocky, Ginger percebe que ela mesma vai ter que liderar sozinha essa revolução, mas que sozinha ela não consegue fugir dali. Como já se disse várias vezes em protestos, o povo unido jamais será vencido, e todas as galinhas constroem um avião com as poucas ferramentas que têm na granja. Tal qual a naja de Brasília, Ginger e as galinhas dão um fim na classe dominante representada pelo casal Tweedy.

A Fuga das Galinhas foi revolucionário. Quando se imaginaria uma animação de grande porte em stop-motion com uma trama à la A Revolução dos Bichos? O estúdio Aardman não só criou uma grande história, mas também se tornou história no cinema.

O filme “de massinha” mais famoso do mundo

20 anos de A Fuga das Galinhas

Após mais de cinco anos em desenvolvimento e US$ 45 milhões em custos de produção, A Fuga das Galinhas estreou no cinema, e se tornou a maior bilheteria da história para um filme de animação em stop-motion. Foram US$ 224 milhões arrecadados ao redor do mundo, isso em valores da época. Até hoje não houve nenhum longa em stop-motion que atingiu tal número, nem mesmo os posteriormente dirigidos por Tim Burton, como A Noiva-Cadáver e Frankenweenie.

E não foi só na bilheteria que A Fuga das Galinhas se tornou histórico. O filme também é um dos que incentivaram a criação da categoria de Melhor Longa de Animação no Oscar, algo que só ocorreria em 2002 com a primeira vitória indo para Shrek. Os últimos 10 anos haviam sido inventivos demais no mercado da animação, e já era mais do que na hora de haver uma categoria na maior premiação do cinema.

20 anos depois, enfim, uma sequência

20 anos de A Fuga das Galinhas

Em 2018, uma continuação começou a ser desenvolvida, mas ela só foi oficialmente confirmada este ano. A Netflix será responsável pela distribuição do filme, já que a parceria entre Aardman e DreamWorks se encerrou há mais de uma década. Não vai ter Mel Gibson dublando o galo Rocky, mas quem se importa? Teremos uma sequência!

A trama teve alguns detalhes revelados, e o filme vai mostrar como anda a vida de Ginger e companhia no pacífico santuário das galinhas, até que uma nova ameaça surge no continente, e a ave revolucionária precisará tomar decisões complicadas que vão contra seus ideais. Parece que vai ser algo bem interessante de se assistir, mas faltam alguns anos para o lançamento.

Enquanto A Fuga das Galinhas 2 não é lançado, podemos sempre revisitar o primeiro filme, que tem diversão, ação, comédia, amor e revolução. Tudo o que o jovem moderno gosta. E de quebra ainda recebe uma importante mensagem trabalhista para poder lutar por seus direitos!


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João Vitor Hudson

João Vitor Hudson é um publicitário aos 22 anos. Ama cinema desde quando desejava as férias escolares só pra assistir todos os filmes do Cinema em Casa e da Sessão da Tarde. Ama o MCU, e confia bastante no futuro da DC nos cinemas.

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