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Rede de Ódio | Crítica

Rede de Ódio | Crítica

Crítica de Rede de Ódio, da NetflixRede de Ódio (Hejter)

Ano: 2020

Direção: Jan Komasa

Roteiro: Mateusz Pacewicz

Elenco: Maciej Musialowski, Vanessa Aleksander, Danuta Stenka, Jacek Koman, Agata Kulesza, Maciej Stuhr, Adam Gradowski, Piotr Biedron, Jedrzej Wielecki, Jan Hrynkiewicz, Julia Wieniawa Narkiewicz

Esse texto começa sem rodeios: Rede de Ódio é o melhor filme de 2020 — pelo menos, até agora. Quiçá, o melhor dos últimos cinco anos, com grandes chances de ser alçado a um estrito panteão de obras cinematográficas de alto calibre, com todos os privilégios que esse tipo de produção carrega.

Rede de Ódio começa nos apresentando a Tomasz Giemza (Maciej Musialowski), um jovem polonês recém expulso da faculdade de Direito por ter plagiado um trabalho. Derrotado, acaba mentindo para Robert Krasucki (Jacek Koman) e Zofia Krasucka (Danuta Stenka) — amigos de seu pai, responsáveis por custear seus estudos — e começa a perseguir oportunidades melhores para se reerguer.

Pelo menos, é essa a impressão que temos no início do filme. Torcemos por Tomasz; é inerente à natureza humana torcer pelo perdedor, solidarizar-se com o pequeno. E é isso que o protagonista parece: um jovem que caiu, e reúne forças para levantar. O espectador é convidado a simpatizar com a busca do rapaz, mas logo se vê num lugar estranho. É como se estivéssemos caminhando ao lado de um amigo, seguindo sua rota, e de repente nos encontrarmos em um bairro perigoso. E o pior de tudo: nosso guia se sente em casa.

O resumo só pode ir até aí sob risco de cruzar a linha do spoiler. Não se trata, porém, de um filme de superação. Estamos assistindo uma história sobre caos. Lorde Baelish ficaria orgulhoso de alguns personagens desse longa. “Caos é uma escada”, ele dizia, e essa máxima foi muito bem trabalhada por um roteiro emocionante e bem dosado. Não há grandes momentos de revelação; a verdade está na frente dos nossos olhos o tempo todo, mas estamos muito distraídos pela emoção para enxergá-la. Não que haja esforço algum para esconder o que está acontecendo, muito pelo contrário: escolhemos torcer pelo protagonista.

É preciso parabenizar o elenco, que fez um excelente trabalho. Até o mais unidimensional dos personagens foi entregue de forma crível, com uma performance carregada de emoção – ainda que os atores estivessem disfarçados de personagens de um jogo online. O destaque máximo vai para Maciej Musialowski, com sua performance impecável – em especial as sutilezas em suas expressões faciais, quase imperceptíveis, mas que não deixam dúvidas em quem assiste – e não fica devendo para grandes nomes da indústria.

A fotografia se põe como elemento fundamental na narrativa, com um viés artístico, mas executado de forma pragmática. Em certos momentos, temos a impressão de estar lendo a mente de Tomasz simplesmente pelo movimento de câmera. A direção de arte se sobressai principalmente nos figurinos, compostos com cuidado e inteligência para destacar certos elementos da personalidade dos personagens.

Crítica de Rede de Ódio, da Netflix

Se na ‘forma’ o filme é bem executado, o quesito ‘matéria’ não fica para trás. A obra em si não traz um posicionamento direto sobre os assuntos mostrados em tela, mas leva o espectador a questionar qual sua posição em temas sensíveis, como política, imigração e diversidade. Mais que isso, nos leva a questionar quem nos influencia a tomar uma posição. E essa provocação é feita de forma orgânica, a partir do emprego novo de Tomasz. Com contas a pagar e um plano escuso em ação, nosso herói (?) encontra a oportunidade de explorar seu potencial ali: uma agência de… Bem, o filme não conta exatamente qual é a função da agência, mas a história trata de deixar muito claro.

Rede de Ódio é permeado por temáticas mais atuais que nunca, refletidas nos núcleos do filme. A representação mais presente é a do extremismo político, e como o uso orientado de contas falsas em redes sociais e notícias forjadas podem influenciar de diversas formas diferentes. O filme se passa em Varsóvia, na Polônia, mas poderia muito bem se passar aqui no Brasil, dada a similaridade dos acontecimentos: grupos fascistas bradando pelas ruas, defendendo uma forma de pensar ultrapassada e violenta; pessoas hostilizadas e diminuídas por causa de sua orientação sexual; discursos xenófobos e racistas sendo repassados sem que haja uma verificação prévia. Na era das fake news, o lançamento da Netflix nos convida a pensar.

Talvez o maior acerto de Rede de Ódio seja não passar uma mensagem definitiva. O filme não termina dizendo se algo é certo ou errado; se preocupa em mostrar a jornada de Tomasz, e a relação de causa e efeito de suas ações. Nesse ínterim, vai apresentando situações corriqueiras, e posicionamentos muito semelhantes ao da vida real. Chega a ser assustadora a semelhança entre os acontecimentos do filme e aquilo que vemos e ouvimos quase diariamente nos noticiários brasileiros.

Com uma proposta provocativa e uma execução primorosa, Rede de Ódio traz um relato da vida contemporânea na forma de ficção, pontuando uma jornada de mentiras e enganação com fatos que podem estar acontecendo neste exato momento, perto da sua casa. Mais do que perguntar de que lado estamos, o filme nos convida a refletir: por que estamos desse lado?

Nota:


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Ator, escritor, diretor e roteirista, Gabryel é ruim em todas essas coisas. Crítico por natureza, adora reclamar de tudo, e é fã de filmes que ninguém tem paciência pra assistir. Carrega a convicção de que Click é um clássico cult e quem discorda é clubista.

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