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Origens Secretas | Crítica

Origens Secretas | Crítica

Crítica de Origens Secretas, da NetflixOrigens Secretas (Orígenes Secretos)

Ano: 2020

Direção: David Galán Galindo

Roteiro: David Galán Galindo, Fernando Navarro

Elenco: Javier Rey, Verónica Echegui, Brays Efe, Antonio Resines, Ernesto Alterio, Carlos Areces, Juanfra Juárez, Álex García, Leonardo Sbaraglia

As plataformas de streaming se tornaram uma ferramenta fantástica de distribuição de filmes que, de outras maneiras, dificilmente conseguiriam atingir um grande público, pela dificuldade de ultrapassar barreiras comercias e até geográficas de exibição. A Netflix, em especial, é responsável pela popularização de produções que não chegam a ocupar salas de cinema, e parece que os espanhóis estão entre os que melhor souberam se aproveitar disso. Histórias pouco originais, e algumas vezes de qualidade duvidosa, mas de formato acessível ao público, acabam se tornando grandes sucessos, e estão constantemente na lista de conteúdos mais assistidos da plataforma. E neste verdadeiro balaio de filmes e séries que se tornou a Netflix, grande parte do que é oferecido funciona como um entretenimento descompromissado e esquecível. É o caso deste Origens Secretas.

Dirigido por David Galán Galindo, que também assina o roteiro ao lado de Fernando Navarro, Origens Secretas faz uma paródia de filmes de suspense como Seven  – Os Sete Crimes Capitais (1995) e Corpo Fechado (2000), apresentando uma série de assassinatos que remetem, de forma nada discreta, às origens de super-heróis clássicos das histórias em quadrinhos. Para investigar o caso, o sisudo detetive David Valentín (Javier Ray) vai contar com a ajuda de sua chefe, a delegada e cosplayer Norma (Verónica Echegui), e de Jorge Elias (Brays Efe) – um nerd, dono de uma loja de quadrinhos e filho de um policial recém aposentado.

Confesso que, ao final do filme, me vi confuso. Não que a história possua alguma complexidade. Longe disso. A confusão advém do fato de parecer que o próprio roteirista e diretor não entendeu muito bem a ideia que passou. E, se entendeu, seus personagens se tornam algo entre ingênuos e idiotas, pendendo mais para a segunda alternativa, e o seu criador se mostraria pouco preocupado com o que isso representa, mesmo se o seu desejo fosse realizar uma comédia despretensiosa.  Na verdade, o próprio vilão parece já ter previsto que seus perseguidores não eram providos de um intelecto muito apurado, visto que as pistas deixadas nas cenas dos crimes eram tão escancaradas que não seria nenhum exagero se ele deixasse pegadinhas de talco pelo chão, como os pais fazem para que crianças de menos de cinco anos de idade encontrem os ninhos do coelhinho no domingo de Páscoa.

Sendo assim, fica claro que a proposta do filme não é fazer um grande suspense, mesmo que abuse das referências a Seven, desde os créditos iniciais até a estética dos crimes. Referência esta que é assumida explicitamente quando um personagem cita as motivações do assassino do referido filme. O humor da produção vai do sarcástico ao escatológico e, apesar de possuir algumas boas sacadas, pouco apresenta de realmente engraçado. Ou seja, o filme não funciona como suspense e nem é efetivo como comédia. Resta o perfil de thriller policial, que também não chega a emplacar visto que não é possível levar os personagens a sério. Ironicamente, a canastrice das atuações é o que mais ajuda Origens Secretas a funcionar, pelo menos, como um passatempo.

Crítica de Origens Secretas, da Netflix

 Verónica Echegui é a delegada Norma

Também fica a impressão de que cada ator recebeu seu roteiro em casa e chegou nos dias das filmagens sem diálogo nenhum, ou qualquer encontro anterior com o restante da equipe, pois cada um compôs seu personagem em um tom diferente. A falta de coesão da narrativa está escancarada em seus personagens. Definitivamente, quem melhor compreendeu o que estava fazendo no filme foi Leonardo Sbaraglia. Sua pequena participação, interpretando Paco, um paranoico colecionador de quadrinhos, é disparada a atuação mais coerente com o que estamos assistindo. As falas absurdas que ele pronuncia com ar de gravidade, se encaixam perfeitamente com o que a narrativa apresenta. A delegada Norma, vivida por Verónica Echegui, também consegue surpreender e oferecer um ar de novidade para a trama, com o inusitado de trazer uma profissional séria e decidida, mas que aparece com diversas fantasias de personagens de animes e quadrinhos durante o filme. É surreal vê-la agindo de forma completamente natural enquanto chega em um necrotério ainda fantasiada após uma convenção de mangá. Infelizmente, a personagem é sabotada do segundo ato do filme ao se tornar um mero interesse romântico do protagonista. De resto, podemos ver na mesma cena atores transformando o filme em uma comédia pastelão enquanto outros agem como se fosse um suspense psicológico. E nunca fica claro se isso era realmente intencional.

O roteiro é uma adaptação do livro homônimo do próprio David Galán Galindo, e ainda que seja uma paródia, fica devendo na lógica da origem de seu vilão. Uma justificativa absurda seria mais efetiva do que a total ausência de uma explicação. O que fica ainda mais incoerente quando comparamos isso ao excesso de tempo e referências a uma situação que podia ter sido tranquilamente apresentada em um diálogo e, durante todo o filme, esperamos que se justifique, o que acaba não acontecendo. Galindo acerta em alguns momentos na direção, principalmente ao trazer referências visuais que cumprem bem sua função de homenagear os filmes e personagens parodiados.

Apesar de todos os problemas apontados, Origens Secretas não é um filme desprezível. Principalmente para aqueles que estão trancados há meses em casa, respeitando o isolamento social em função da pandemia, e já não sabem mais o que assistir na Netflix, é uma opção totalmente despretensiosa e sem peso nenhum que pode ser conferida. Melhor do que ir para a rua e furar a quarentena, ou para aqueles que costumam ficar deprimidos com as notícias horríveis que nos bombardeiam diariamente.

Nota:

 


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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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