Sala Crítica
Críticas Destaque Filmes TV e streaming

Estou Pensando em Acabar com Tudo | Crítica

Estou Pensando em Acabar com Tudo | Crítica

Crítica de Estou Pensando em Acabar com Tudo, da NetflixEstou Pensando em Acabar com Tudo (I’m thinking of ending things)

Ano: 2020

Direção: Charlie Kaufman

Roteiro: Charlie Kaufman, Iain Reid

Elenco: Jesse Plemons, Jessie Buckley, Toni Collette, David Thewlis, Guy Boyd, Hadley Robinson, Gus Birney, Abby Quinn, Colby Minifie, Anthony Grasso, Teddy Coluca, Frederick E. Wodin, Ryan Steele, Unity Phelan

É sempre uma grande responsabilidade escrever sobre um filme de Charlie Kaufman. O roteirista e diretor é responsável por filmes como Quero Ser John Malkovich (1999) e Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004). Para quem já viu esses longas, sabe que a temática de viagem pela mente humana é a assinatura do cineasta, e com sua nova produção, lançada pela Netflix, não poderia ser diferente.

Estou Pensando em Acabar Com Tudo começa com a viagem de Jake (Jesse Plemons) e Lucy/Ames/Lucia (Jessie Buckley) para a fazenda dos pais dele, para que a nora conheça os sogros. Essa longa sequência inicial já mostra as ferramentas do diretor para acostumar o espectador o que está por vir: não espere conforto. Seja pelo movimento ininterrupto do limpador de para-brisa, ou pelo posicionamento de câmera que insiste em buscar um novo ângulo a cada corte, é impossível se sentir acomodado por um momento que seja. Essa sensação é reforçada pelo diálogo entre os dois personagens, ora falado, ora pensado por Lucy. Ou Amy. Ou seria Lucia?

O próprio jogo de câmera dá a entender que Jake pode ouvir os pensamentos da namorada, e se esforça em desviar o foco dela. Estou pensando em acabar com tudo, ela pensa, para imediatamente ter seu raciocínio interrompido por alguma sugestão ou comentário provocador feito por seu parceiro. Aliás, a interrupção da linearidade da história, por si só, ajuda a contar a história.

Quando finalmente conhece seus sogros, o filme abraça o simbolismo e o sentido figurado, com cenas que desafiam a lógica. Os pais de Jake se mostram figuras diferenciadas. Oscilando entre o excêntrico e o normal, David Thewlis e Toni Collette atuam de forma perfeita para entrar no tom da história. Ambos já haviam demonstrado seu poder de atuação em trabalhos anteriores, mas alcançam um novo patamar em Estou Pensando. Aliás, os quatro atores que participam do jantar deram um show de performance, encarando uma sequência dessequenciada, que só poderia ter vindo da mente genial e perturbada de Charlie Kaufman. É preciso elogiar, ainda, o trabalho de maquiagem do longa. As transformações de Thewlis e Collette durante o filme são feitas com tamanha precisão que é preciso um olhar apurado para perceber que são os mesmos atores.

Crítica de Estou Pensando em Acabar com Tudo, da Netflix

Van Gogh usava um pincel, Einstein usava a física; Charlie Kaufman usa o cinema. Não há outro ser humano neste planeta que domine os conceitos técnicos cinematográficos tão bem como o cineasta. A forma que usa os planos, as cores, os detalhes, a luz; tudo isso contribui para a história. Assistir a um filme dele é uma experiência completa, e o espectador teme piscar os olhos com medo de perder um detalhe. Estamos acostumados a conhecer e celebrar atores, atrizes, diretores e até mesmo produtores; tamanho é o talento de Kaufman que ficou famoso por filmes em que tão somente escreveu o roteiro.

Tamanho desprendimento ao costumeiro padrão de cinema acaba afastando o espectador casual da obra, que pode considerá-la longa demais, densa e, por vezes, enfadonha. Estou Pensando brinca com o metatexto, e em seus diálogos dá pistas que podem ajudar na interpretação de certos aspectos da obra, mas arrisca muito em termos de ritmo, e pode cansar a quem assiste. A sequência final, com a música cantada por Jake prejudica a conclusão da obra, e afasta da mensagem aqueles que não leram ou não sabem que o filme é inspirado em um livro. Neste momento, mais do que buscar uma interpretação, é preciso saber que devemos buscar uma interpretação mais profunda, pouco ou nada relacionada com o que vimos até agora.

O filme nos convida a pensar sobre a vida, a morte e o amor; o que é importante, o que é memorável, e como o tempo passa em meio a tudo isso. O grande questionamento é feito em uma banquinha de sorvete, e cabe a nós buscarmos uma resposta. O metatexto pede à Lucy (ou Amy? Lucia?) que descubra qual é a pergunta, e somente uma pergunta importa. Na opinião deste que vos escreve, claramente é uma viagem pela mente humana. Mas… pela mente de quem?

— ATENÇÃO —
A crítica foi encerrada acima. A partir desta linha, esse texto contém fortes spoilers sobre o filme.

Apresento agora minha interpretação dos acontecimentos do filme, no intuito de oferecer uma alternativa sobre o que se passou na obra de Charlie Kaufman. Eu destaco a palavra “minha” porque o que vou falar abaixo pode estar errado. Pode estar certo. Pode ser possível ou impossível, assim como todas as interpretações encontradas na internet. Aprendi com o grande mestre e professor André Bozzetti que contanto que tenha respaldo na tela, qualquer teoria sobre uma obra cinematográfica é válida. Um mesmo filme pode, portanto, ter diversas interpretações diferentes.

  • O filme deixa claro que Jake e o zelador são a mesma pessoa. As principais provas disso são os uniformes na casa dos pais de Jake, as pantufas que entrega para Lucy e o delírio com o porco infestado por vermes. Há também a referência à sorveteria, quando vemos um saquinho deste lugar no carro do zelador.
  • Lucy não existe. A personagem é uma soma de todas as namoradas que Jake teve ao longo da vida, e as cenas na fazenda são um compilado através do tempo. Quando estão no carro, em direção à fazenda, Jake comenta de um poeta que escreve sobre sua musa Lucy, jovem, linda e ideal. Mais tarde vemos no quarto de infância de Jake um livro deste poeta, junto com outros livros que tem alguma ligação com as características da garota.
  • Lucy não existe, parte dois. O cachorro de Jake corrobora a teoria de unicidade das namoradas. O vemos vivo em algumas cenas, embora levemente bizarro, e também vemos sua urna funerária. Em todas essas cenas, Lucy interage com o cachorro de alguma forma.
  • Lucy não existe, parte três. O espectador deve ter notado que ao longo das cenas na casa de Jake, a idade dos pais dele vai mudando. Isso se dá porque estamos vendo uma soma de namoradas ao longo do tempo, cada uma acompanhando Jake em um momento diferente.
  • Os pais de Jake não são tão excêntricos assim. Acontece que estamos acompanhando a ótica de Jake enquanto conhecemos seus pais. As risadas exageradas, os comentários constrangedores, tudo aumentado pela tensão de apresentar uma nova namorada. Um conceito simples trabalhado de forma genial.
  • Jake nos dá uma pista de que o filme é sobre ele, ao comentar com Lucy que por vezes se sente muito mais jovem do que realmente é.
  • E, por fim, a sequência final, com a dança dos bailarinos e a música de Jake são sobre suas mortes. A primeira delas, em vida, quando o faxineiro violento e cruel mata o charmoso e sonhador jovem, indicado que possivelmente Jake arruinou sua vida ao cometer um ato violento. Ao longo do filme o vemos ter explosões de raiva, e Kaufman deixa uma lacuna para nos perguntarmos como a criança esforçada e estudiosa acabou como zelador.
  • A sequência seguinte, com Jake recebendo um Nobel e cantando sobre ter uma mulher para chamar de sua nada mais é que sua visão final do que sua vida poderia ter sido, daí a maquiagem cartunesca e irreal dos atores, seguida de sua morte, representada pelo carro coberto de neve. Há uma simbologia aqui sobre a neve encobrir totalmente a juventude de Jake, representada pelo carro (afinal de contas, acompanhamos sua juventude passar ali dentro). O velho zelador já estava delirante, nu, e guiado por um porco coberto de vermes. Sua morte, aliás, recebeu aplausos de todos que passaram em sua vida, um gesto que ainda não fui capaz de entender.

Nota:


Quer ficar por dentro de todas as novidades sobre filmes e séries? Siga a gente no Instagram!

The following two tabs change content below.
Ator, escritor, diretor e roteirista, Gabryel é ruim em todas essas coisas. Crítico por natureza, adora reclamar de tudo, e é fã de filmes que ninguém tem paciência pra assistir. Carrega a convicção de que Click é um clássico cult e quem discorda é clubista.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *