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Away – 1ª temporada | Crítica

Away – 1ª temporada | Crítica

Away

Temporada:

Ano: 2020

Criador: Andrew Hinderaker

Elenco: Hillary Swank, Talitha Bateman, Josh Charles, Ray Pathanki, Vivian Wu, Mark Ivanir, Ato Essandoh, Monique Gabriela Curnen, Adam Irigoyen

A concepção da nova série dramática da Netflix, Away, ocorreu de maneira pouco usual. Seu criador, o roteirista e produtor Andrew Hinderaker (de Penny Dreadful), teve sua ideia ao ler um texto da revista Esquire, escrito pelo jornalista Chris Jones. O artigo jornalístico retratou durante um ano a rotina do astronauta americano Scott Kelly na Estação Espacial Internacional. Durante seu período lá, além de lidar com as dificuldades técnicas e emocionais relacionadas ao período de isolamento, Kelly também tinha preocupações com sua família na Terra, que passava por uma crise após sua cunhada levar um tiro enquanto ele estava no espaço.

Após um período de pausa na carreira para cuidar do pai que passou por um transplante de pulmão, Hillary Swank retorna como protagonista da série de Hinderaker. Sua personagem, Emma Green, é uma astronauta americana que tem a difícil tarefa de comandar a tripulação da primeira viagem para Marte. No entanto, um dia antes do lançamento, seu marido Matt (Josh Charles), que seria o responsável legal pela filha adolescente do casal durante os três anos que Emma estaria fora, sofre um derrame e tem que passar por uma delicada cirurgia no cérebro.

A primeira temporada de Away se estende pelos oito meses de viagem da Terra à Marte, e se alterna entre mostrar os problemas enfrentados pelos astronautas e pelas famílias que eles deixaram para trás. Embora o foco da série sejam os dramas humanos e psicológicos, as ameaças e desventuras de uma viagem espacial também são elementos presentes, o que intensifica a sensação de insegurança para todos os personagens envolvidos.

É interessante notar que, pelo menos nos avanços aeroespaciais, a humanidade parece unida no contexto da série, ao enviar uma equipe completamente internacional. Além de Emma, temos o cosmonauta da Era Soviética, Misha (Mark Ivanir); como segundo em comando, o médico indiano Ram (Ray Pathanki); o botânico Kwesi (Ato Essandoh), um ganense adotado por uma família judia britânica; e a chinesa Lu (Vivian Wu), uma química que seria a primeira humana da história a pisar em Marte.

Cada personagem da tripulação é bastante explorado e, embora a personagem de Swank tenha notoriamente mais destaque, cada um recebe um episódio em que seus problemas pessoais e familiares são mostrados com maior aprofundamento. Considerando os 10 longos episódios da série, os demais astronautas poderiam ter tido mais tempo de tela, uma vez que suas histórias são mais interessantes do que a de certos personagens da Terra que ganham muito destaque para pouco desenvolvimento, como a filha de Emma, Alexis (Talitha Bateman).

Um dos problemas da série de Hinderaker é exatamente o próprio drama humano que é sua essência. Algumas das tramas são adequadas e fazem sentido nos contextos apresentados, enquanto outras são apenas piegas, discrepantes e forçadas. O foco exacerbado na família Green, com seus problemas ora interessantes e ora apenas tediosos e sem nexo, foi um dos fatores que minou um pouco sua qualidade narrativa, uma vez que havia personagens mais interessantes e com bem menos tempo de tela.

No entanto, é no núcleo espacial em que ocorrem as maiores deformidades do roteiro de Away. Desde dois astronautas passando um episódio inteiro discutindo se a planta está viva por alguma adaptação bioquímica ou pelo poder de Deus (sem brincadeira) até um médico que não consegue reconhecer sinais visíveis de desidratação em uma pessoa. Mesmo quando as tramas não se encontram nesse nível de bizarrice narrativa, elas são trabalhadas o tempo todo em meio aquele discurso clichê de esperança e com um evidente plot shield dos personagens, o que faz com que o telespectador não se importe verdadeiramente com os perigos que a série apresenta. Aparentemente, esqueceram de avisar a indústria do cinema (Andrew Hinderaker e Christopher Nolan, estou olhando para vocês) que é bastante incoerente que astronautas muito bem treinados tomem decisões que comprometam uma missão de bilhões de dólares e vários países envolvidos com base no poder do amor ou da esperança.

Além disso, o roteiro também sofre com sua constante previsibilidade. Não é preciso nem mesmo um olhar mais atento para saber o que vai acontecer e como vai acontecer assim que uma nova trama é iniciada na série, que desde o primeiro até o décimo episódio não possui nenhuma grande surpresa para o telespectador. Em especial, as tramas na Terra com a família Green são as mais afetadas por esse problema, porém, até mesmo os problemas que os astronautas enfrentam na nave, por mais técnicos que sejam, possuem resoluções bastante fáceis de serem adivinhadas.

O que realmente prende o telespectador em Away, em tempos em que as séries possuem cada vez menos episódios, são os personagens criados por Hinderaker. Ainda que com momentos bastante caricatos, eles são falhos, humanos e interessantes de se assistir. Em especial, o cosmonauta soviético Misha e a retraída Lu são uma dupla que chama certa atenção, com suas personalidades e histórias bem construídas, além de Matt Green, no núcleo da Terra. Ram e Kwesi, por sua vez, embora também despertem simpatia em quem assiste, acabam se tornando um pouco unifacetados, e seus aspectos psicológicos não possuem grande aprofundamento.

Away é uma série com tensões mal construídas, mas com grande potencial. Embora seu ritmo seja recheado de clichês e inconstâncias, apresenta uma história envolvente e que nos faz torcer por seus personagens e querer entender mais sobre eles além do que o roteiro sentimentalista de Hinderaker permite. Com um cliffhanger atraente, tudo indica que haverá uma segunda temporada, ainda que a Netflix não tenha feito nenhuma confirmação. Os personagens de Away são interessantes de serem acompanhados e sua jornada futura parece ser mais promissora do que a viagem até Marte, mas o roteiro precisa se aprimorar e endurecer um pouco para que não enjoe os telespectadores no meio da jornada.

Nota:


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Jornalista que migrou para a veterinária, mas sem deixar para trás as jornalices. Vive e respira horror, seja em quadrinhos, filmes, séries ou livros. Último posto de defesa da DC Comics em relação à Marvel, embora tenha que fazer vista grossa quando o papo é cinema. Fã de Heavy Metal, games single player e cospobre de carteirinha quando sobra dinheiro no final do mês.

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