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O Diabo de Cada Dia | Crítica

O Diabo de Cada Dia | Crítica

O Diabo de Cada Dia (The Devil All The Time)

Ano: 2020

Direção: Antonio Campos

Roteiro: Antonio Campos, Paulo Campos

Elenco: Tom Holland, Bill Skarsgård, Jason Clarke, Sebastian Stan, Mia Wasikowska, Robert Pattinson

A religião é uma das principais justificativas para o cometimento de atrocidades. Sob a desculpa da fé, toda sorte de maldades e violências já foram, e ainda são cometidas. Sua capacidade de alienar o ser humano já foi tema de diversos filmes ao longo da história do cinema, como os clássicos O Nome da Rosa e As Bruxas de Salem. Em O Diabo de Cada Dia, adaptação do romance de 2011 escrito por Donald Ray Pollock, o tema da religião é colocado em perspectiva com a própria cultura norte-americana, demonstrando como a soma da fé cega com a ignorância, a falta de perspectivas e a normatização da violência pode ser destrutiva para uma sociedade e um país.

Com direção do novaiorquinho Antonio Campos (filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes), O Diabo de Cada Dia narra a história de diversas figuras de duas cidades do interior dos Estados Unidos, que se conectam ao longo de duas gerações. Bill Skarsgård é Willard Russell, um veterano da Segunda Guerra que trouxe severos traumas do conflito, que foram transmitidos ao seu filho, Arvin (Michael Banks e depois Tom Holland), na forma de “ensinamentos” que soavam mais como repressão. Após uma tragédia envolvendo seus pais, o garoto passa a viver com sua avó, tio e irmã adotiva, revivendo, depois de adulto, os mesmos traumas causados pela religião em sua infância.

A trama de O Diabo de Cada Dia é propositalmente dispersa. Ela passa pela já citada família Willard, por um delegado de polícia corrupto (Sebastian Stan), por um casal de psicopatas (Jason Clarke e Riley Keough) e pelos bastidores de uma igreja, na figura de um líder religioso sem caráter (Robert Pattinson). O objetivo de Antonio Campos é claro: demonstrar como a religião e a normatização da violência são capazes de mancomunar a sociedade, quando entranhadas culturalmente nas comunidades. Ao longo da história, assistimos assassinatos, abusos sexuais, agressões, suicídios, tudo sempre motivado (ou justificado) pela fé. A maneira como a religião se entranha e se adapta às necessidades mais escusas dos sujeitos é o tema central dessa produção – ela é, afinal, o verdadeiro Diabo de Cada Dia.

Arvin, brilhantemente vivido por Holland, é uma espécie um esteio de moralidade em meio a este caos. Profundamente traumatizado pelo episódio do falecimento de seus pais, o garoto parece se proteger da religião, ao invés de se inserir nela. Mesmo cercado de beatos, o rapaz não se entrega à fé cega, por aparentemente perceber que ela apenas causa ainda mais dor e sofrimento. Como o personagem é um dos poucos que não comete atos repugnantes ao longo da projeção (mesmo a violência cometida acaba sendo “justificada”) e é movido por um senso de moralidade consistente, a escolha de Holland se mostra precisa. Com seu olhar inseguro, sempre buscando proteção e tranquilidade, sua atitude protetora com a irmã Lenora (Eliza Scanlen), e o afeto pelos entes queridos claramente demonstrado ao longo de toda a projeção, ele carrega o filme na condição de único personagem que merece nosso prestígio.

Robert Pattinson, aqui interpretando o reverendo corrompido Preston Teagardin, dá mais um demonstrativo de sua versatilidade. Talvez pela primeira vez em sua carreira interpretando um sujeito asqueroso e vil, Pattinson dá vida a um líder religioso manipulador e atroz, que não se envergonha de utilizar sua posição de poder e influência para avançar sexualmente sobre meninas frágeis e ingênuas. A capacidade de Pattinson de compor um personagem que nos faz esquecer totalmente de sua persona pública é notável, já que esquecemos que ali está um dos queridinhos de Hollywood. Pattinson é um ator muito competente, e esse assunto já deveria estar encerrado.

Menos sorte encontra Sebastian Stan, outro astro da Marvel que dá as caras por aqui. Com uma atuação opaca e sem expressividade, Stan não confere poder ao xerife Lee Bodecker, mesmo que seu personagem tenha momentos de drama que exigiam mais imponência. (Cabe ainda o registro ao péssimo trabalho de maquiagem feito aqui, já que as próteses nas bochechas de Stan chamam a atenção para si a todo momento).

A grande qualidade de O Diabo de Cada Dia reside justamente na capacidade que o filme tem de demonstrar a depravação moral dos EUA sob a ótica da fé. É interessante reparar que mesmo períodos tratados com mais boa vontade por Hollywood, como a Segunda Guerra (geralmente retratados como períodos “mais simples”, de clareza na distinção do Bem e do Mal) aqui surgem com aridez e inconsistência moral. Já a religião, sempre um grande símbolo da suposta retidão moral do povo americano (vide Até o Último Homem), aqui é retratada com certa dose de cinismo, já que serve apenas como cortina de fumaça para esconder uma sociedade doente e perdida.

Assistir a O Diabo de Cada Dia não é uma experiência agradável. Ao longo da projeção, várias passagens causam desconforto, choque, repulsa. Contudo, essa amargura gera inevitáveis reflexões. A quem estamos enganando quando delegamos ao “divino” e à “vontade de Deus” todas as nossas ações? Essa é a grande pergunta deixada por esse filme. E a resposta não é nada fácil.

Nota:


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Jornalista em formação, ex-membro do finado e saudoso Terra Zero e leitor de histórias em quadrinhos. Fã de ficção científica e terror, divide seu tempo livre entre o cuidado com suas dezenas de gatos e a paixão pela cultura pop. Sonha com o dia em que perceberão que arte é sim, uma forma de discutir política.

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Comments

  1. […] Para Isso, animação do mesmo criador de Apenas um Show, e Ratched, de Ryan Murphy, o longa O Diabo de Cada Dia, estrelado por Tom Holland e Robert Pattinson, e o seriado infantil Jurassic World: Acampamento […]

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