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Ratched – 1ª temporada | Crítica

Ratched – 1ª temporada | Crítica

Ratched – 1ª temporada

Ano: 2020

Criação: Ryan MurphyEvan Romansky

Elenco: Sarah PaulsonFinn WittrockCynthia NixonJudy DavisJon Jon BrionesSharon StoneVincent D’OnofrioCorey StollAmanda PlummerAlice EnglertSophie Okonedo

Um Estranho no Ninho é, sem dúvida alguma, um clássico. O filme já chegou a fazer parte de algumas listas dos maiores filmes da história. O longa sobre um prisioneiro que vai para um hospício fingindo ser um lunático (vivido magistralmente por Jack Nicholson) conta com uma antagonista que marcou o filme tanto quanto seu protagonista: a enfermeira Mildred Ratched, que infernizou a vida de Randall McMurphy desde que ele chegou no lugar. Ratched, vivida por Louise Fletcher no clássico de 1975, agora ganha uma história de origem. Fletcher dá lugar a Sarah Paulson, outra grande atriz, que recebeu o fardo de interpretar uma vilã tão marcante antes mesmo de se tornar uma vilã. Mas será que Ratched precisava mesmo de uma história de origem?

Ambientada em 1947, a série acompanha as primeiras aventuras (se é que podemos chamar assim) de Mildred Ratched em hospitais psiquiátricos, num tempo em que era difícil tratar doenças da mente sem que houvesse preconceitos externos. Ratched mostra a enfermeira em Lucia, California, bem distante do hospital onde o longa original se passa, no estado do Oregon. No hospital de Lucia, Mildred Ratched praticamente obriga o médico que chefia o local a contratá-la, mostrando que desde sempre a personagem deu alguns sinais de que não era mentalmente saudável, mas já demonstrando que a enfermeira iria se destacar facilmente das demais.

O seriado de Ryan Murphy, produtor com quem Sarah Paulson mantém parceria há aproximadamente uma década, começa bem. Mesmo sem a real necessidade de explicar por que Mildred Ratched “ficou mal”, a série consegue entregar qualidade e ainda firmar um cânone para a personagem. Paulson interpreta uma mulher cheia de traumas que tentou a carreira na enfermaria durante a 2ª Guerra Mundial, mas que foi expulsa graças aos seus métodos pouco ortodoxos de tratamento dos soldados. Com um currículo exemplar, Ratched chega ao hospital psiquiátrico de Lucia, local que irá abrigar o mais novo assassino em série dos EUA, Edmund Tolleson (Finn Wittrock), conhecido como Matador de Padres. A chegada de Ratched e Tolleson muda toda a estrutura do hospital, o que o fará ser local de aspirantes políticos e de doutores que almejam inovar na medicina a qualquer custo.

A relação entre Ratched e Tolleson é bem desenvolvida. Enquanto ele está sendo condenado pelo governador da California (vivido por Vincent D’Onofrio) à pena de morte, ela possui uma compreensiva compaixão pelo serial killer, e quer evitar a todo custo a sua sentença. No meio disso tudo, temos Ratched buscando a confiança do Dr. Richard Hanover (Jon Jon Briones), um psiquiatra filipino que, secretamente, tem sua cabeça a prêmio; a enfermeira Betsy Bucket (Judy Davis), que desconfia da presença de Ratched; Gwendolyn Briggs (Cynthia Nixon), secretária de comunicação do governador da California que se envolve intimamente com a protagonista; e Lenore Osgood (Sharon Stone), uma herdeira rica que tem um filho psicopata. São arquétipos clichês das séries de Ryan Murphy, mas que acabam funcionando até certo ponto – como a maior parte das séries de Ryan Murphy.

Em momento algum, vemos Ratched como parte de um “universo cinematográfico” de Um Estranho no Ninho. Quem nunca assistiu ao filme e quiser conferir a série da Netflix pode fazer isso sem problema algum. O real problema está em um fenômeno chamado “brand recognition”, que é usar uma marca conhecida como gatilho para o lançamento de um produto. No mercado cinematográfico, os principais exemplos recentes são Malévola, Coringa e Resident Evil, filmes/franquias que usaram os nomes para contar uma história que pouco ou nada tem a ver com o cânone apenas porque seria mais viável comercialmente falando. Existe uma certa expectativa em assistir a uma produção como as citadas e esperar algum easter egg das obras que lhes deram origem. Isso até acontece em Malévola, que é basicamente A Bela Adormecida do ponto de vista da vilã, mas em Ratched não existe nenhuma referência, com exceção da personagem-título, à obra original.

Outros pontos problemáticos de Ratched estão no roteiro confuso e às vezes bobo. Nenhum dos oito episódios é realmente sólido, mas a série começa a dar sinais de incoerência nos dois capítulos finais, onde tudo é feito de maneira apressada e com resoluções mal explicadas. Para uma produção com um design de produção tão caprichado e um elenco tão grande, o roteiro mais almeja a grandiosidade do que realmente alcança. Como dito anteriormente, isso é um problema regular de Ryan Murphy. Hollywood, minissérie que o produtor lançou este ano na Netflix, também sofre do mesmo problema.

Ao final de Ratched, a impressão que fica é de ter assistido a um misto das melhores temporadas de American Horror Story com as piores. Há sim coisas boas nessa série, como os temas dos quais ela trata (saúde mental, homossexualidade, dilemas morais), mas com a promessa de Ratched e seu resultado final, dá pra concluir que não vale tanto a pena investir 8 horas do seu tempo em uma produção meia-boca. O próprio Ryan Murphy parece sentir a mesma coisa, já que o mesmo tem inúmeras séries em desenvolvimento atualmente e se dedica a umas mais do que a outras. Aparentemente, ele gostou de fazer Ratched, já que deixou um grande gancho para continuar a história em uma 2ª temporada. Será que finalmente veremos alguma conexão com Um Estranho no Ninho? Receio que não.

Nota:


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João Vitor Hudson

João Vitor Hudson é um publicitário aos 22 anos. Ama cinema desde quando desejava as férias escolares só pra assistir todos os filmes do Cinema em Casa e da Sessão da Tarde. Ama o MCU, e confia bastante no futuro da DC nos cinemas.

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