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Mentira Incondicional | Crítica

Mentira Incondicional | Crítica

Crítica de Mentira Incondicional, do Amazon Prime VideoMentira Incondicional (The Lie)

Ano: 2020

Direção: Veena Sud

Roteiro: Veena Sud, Marcus Seibert, Sebastian Ko

Elenco: Peter Sarsgaard, Mireille Enos, Joey King, Cas Anvar, Patti Kim, Nicholas Lea, Devery Jacobs, Dani Kind, Alan Van Sprang, Rodrigo Fernandez-Stoll, Vesper Rusk, Skyla Fowler

Recentemente o serviço de streaming da Amazon fez um estardalhaço para anunciar a compra de quatro produções da Blumhouse, famosa por seus filmes de terror de baixo orçamento. Tendo em seu catálogo títulos como Atividade Paranormal, Uma Noite de Crime, Corra! e Infiltrado na Klan, era de se esperar que Mentira Incondicional causasse alguma comoção entre os fãs do gênero. Ou que fosse, ao menos, um filme razoável (não se pode ganhar todas, afinal). Dessa vez, porém, o milagre não veio, e tanto a Amazon quanto a Blumhouse parecem ter jogado dinheiro fora.

Os primeiros momentos do longa são focados nos integrantes da desmantelada família Lagon, a começar por Kayla (Joey King), uma jovem de 15 anos que sente estar sendo deixada de lado após o divórcio de seus pais. Rebecca (Mireille Enos), sua mãe, e Jay (Peter Sarsgaard), seu pai, parecem ter seguido em frente e, embora preocupados com a filha, não parecem estar exatamente presentes em sua vida. E até esse ponto, o filme ia bem: alguns detalhes na fotografia entregam o distanciamento do conjunto familiar. Um bom exemplo é a incômoda presença – aos olhos de Kayla – dos novos parceiros de seus pais. bem retratada, e que dispensa qualquer diálogo explicativo para ser entendida.

Na trama, Jay e Kayla dão carona a Britney (Devery Jacobs) – amiga e colega da jovem – que cria um ambiente desconfortável ao dar em cima do pai da amiga. Numa parada para ir ao banheiro, Jay ouve um grito e encontra Kayla sozinha em uma ponte. A filha confessa ter empurrado a amiga para a morte, enquanto chora desesperada. A partir deste momento, passamos a acompanhar pai e mãe indo ao extremo para proteger e tentar inocentar a filha, custe o que custar.

A premissa não é das mais originais, mas poderia ser interessante. Não é, mas poderia ser. O maior problema é o roteiro. Não que ele seja ruim, mas a história seria facilmente contada em 30 ou 40 minutos. Funcionaria bem dentro de uma série ou como especial para a tv. O fato de se vender como longa metragem entrega um filme com um ritmo arrastado até para um drama. Os poucos momentos de tensão foram mal construídos, acabam de forma abrupta e têm uma estrutura muito parecida – é de revirar os olhos na terceira vez em que uma silhueta aparece do lado de fora de uma janela opaca.

A fotografia, que funciona muito bem no começo do longa, acaba sendo uma inimiga no resto da história. Há uma clara tentativa de usá-la como uma ferramenta para adicionar profundidade aos sentimentos, mas o resultado é apenas ruim. Alguns momentos-chave (que já são pouquíssimos) acabam sendo atrapalhados pela posição da câmera. Isso sem falar no próprio movimento de câmera, que por vezes se arrasta com o único intuito de prolongar o tempo do filme. Chega a ser irritante olhar para o rosto de Rebecca durante 30 segundos enquanto ela caminha, pé por pé, em uma certa direção para ver – pasmem – uma silhueta atrás de uma janela opaca.

Crítica de The Lie, do Amazon Prime Video

As atuações são o ponto alto do filme. Os sentimentos podem parecer exagerados em certos momentos, mas os atores e atrizes envolvidos notadamente se entregaram de corpo e alma à obra. Joey King está excelente, mesmo com as constantes e inexplicáveis variações de humor impostas a ela pelo roteiro.

INÍCIO DO SPOILER. Aliás, a ótima atuação de King nos leva a um debate maior sobre a verdadeira capacidade de sua personagem. No único momento em que sabemos que Kayla está mentindo, fica claro que a jovem é uma péssima mentirosa. Sua performance na frente da Detetive Kenji (Patti Kim) destoa muito das outras mentidas contadas por ela. O desespero e descontrole mostrado nas conversas com seus pais dão lugar ao choro controlado e a boa fluência das palavras. FIM DO SPOILER.

Fica a sensação de que é uma artimanha da diretora para passar alguma verdade na narrativa de Kayla.

O desfecho do filme é horroroso. Para descobrimos o que realmente aconteceu somos presenteados com uma sequência final preguiçosa, que começa com uma reviravolta que já poderia ser aguardada. Não era óbvia, mas também não chega a ser um coelho tirado da cartola. Esse clímax leva ao pior confronto dos últimos tempos. Quando a verdade é revelada, pai, mãe e filha ficam frente a frente, e Kayla começa a despejar uma torrente de explicações que são, no mínimo, vergonhosas. Depois de acompanhar todo o sofrimento de Jay e Rebecca, fica impossível não odiar sua filha adolescente pelas decisões que tomou, ainda mais depois da sua justificativazinha mequetrefe.

Mentira Incondicional é um drama com toques de tensão, mirando em um suspense psicológico. Seu ritmo, porém, acaba tornando o filme chato e arrastado; a direção espreme as cenas ao máximo, tentando transformar 50 minutos de história em algo meramente parecido com um longa-metragem; e o roteiro, que poderia se esconder atrás dos demais problemas do filme, mostra sua falta de qualidade na sequência final, justificando o injustificável de maneira vergonhosa.

Nota:


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Ator, escritor, diretor e roteirista, Gabryel é ruim em todas essas coisas. Crítico por natureza, adora reclamar de tudo, e é fã de filmes que ninguém tem paciência pra assistir. Carrega a convicção de que Click é um clássico cult e quem discorda é clubista.

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