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Os 7 de Chicago | Crítica

Os 7 de Chicago | Crítica

Os 7 de Chicago (The Trial of the Chicago 7)

Ano: 2020

Direção: Aaron Sorkin

Roteiro: Aaron Sorkin

Elenco: Yahya Abdul-Mateen II, Sacha Baron Cohen, Joseph Gordon-Levitt, Michael Keaton, Frank Langella, John Carroll Lynch, Eddie Redmayne, Mark Rylance, Jeremy Strong

É impossível não misturar cinema com política. Toda arte é um produto direto do cenário sociopolítico econômico cultural de seu tempo, apesar de poder não estar tão implícito num nível superficial. Claro, uma pessoa que vê, por exemplo, Batman: O Cavaleiro das Trevas apenas como um filme de super-herói não está errada, mesmo que a produção soe como a resposta da Guerra ao Terror da administração do presidente norte-americano George W. Bush, em que tortura (Batman agredindo o Coringa na sala de interrogatório) e vigilância em massa (o dispositivo de Lucius Fox que utiliza o sinal dos celulares de todos os cidadãos sem permissão para encontrar o vilão) são vistas como soluções justificadas para alcançar o bem maior. Ainda é uma aventura de super-herói.

Apesar do roteiro ter sido escrito originalmente em 2007, Os 7 de Chicago se casa perfeitamente com o atual cenário político em que estamos vivendo agora. Em 1968, nos protestos contra a Guerra do Vietnã, oito líderes de movimentos de contracultura foram colocados a julgamento com acusações de formação de quadrilha (os três movimentos eram totalmente independentes e sem nenhum tipo de envolvimento um com os outros) e por incitar violência em protestos (a polícia começou os ataques violentos). Dá-se início a um longo e exaustivo julgamento manipulado que dura meses com o objetivo de prender os réus e deslegitimar as suas causas.

Escrito pelo sempre excelente Aaron Sorkin, de A Rede Social, o filme não tem tempo a perder. 95% da projeção são diálogos e estes são rápidos, ágeis e bem articulados. É um pouco complicado se orientar em quem são os personagens a princípio, mas depois de pegar o fio da meada, a experiência de assistir o longa é gratificante, engajadora e muito revoltante. A clara perseguição política, a imparcialidade do juiz Julius Hoffman (Frank Langella), as mentiras contadas pelos policiais em testemunhos, as autoridades do FBI infiltradas nos manifestantes e o racismo escancarado sofrido por um dos réus são medidas deploráveis que se tornam ainda mais inaceitáveis quando se lembra que tudo o que é retratado aconteceu na vida real.

Abbie Hoffman (Sacha Baron Cohen) e Jerry Rubin (Jeremy Strong) são duas figuras chave do Partido Internacional da Juventude, hippies cheios de conhecimento e respostas afiadas que se opõem à guerra e ao governo estadunidense. Tom Hayden (Eddie Redmayne), do O Comitê de Mobilização da Primavera para Acabar com a Guerra no Vietnã, e David Dellinger (John Carroll Lynch) são dois pacifistas que pregam por manifestações não violentas que são pegos no meio da brutal resposta das autoridades locais. Por fim, Bobby Seale (Yahya Abdul-Mateen II) é um líder dos Panteras Negras que não apenas tinha nenhum tipo de envolvimento com qualquer manifestação como também foi acusado erroneamente de assassinato em um julgamento que lhe nega ter direito a um advogado presente.

As cenas no tribunal são impiedosas. A promotoria, liderada pelo implacável Richard Schultz (Joseph Gordon-Levitt), não mede esforços para que os réus sejam condenados e desarticulam qualquer tentativa da defesa, com a ajuda do juiz, que os beneficia o tempo todo. A defesa dos sete de Chicago se dá, principalmente, por William Kunstler (Mark Rylance), um experiente advogado que dá o seu melhor para combater as injustiças presentes no julgamento. Além da numerosa oposição (que até recorre a execução para garantir as condenações), os protagonistas precisam lidar com conflitos internos, uma vez que os diferentes grupos têm ideologias contrárias sobre como protestar e como se portar no julgamento.

Com um elenco cheio de estrelas, chega a ser redundante elogiar as performances, mas seria injusto não dar o devido crédito aos intérpretes. Todos os atores estão excelentes em seus respectivos papéis, com destaque para Abdul-Mateen II e Rylance, que protagonizam as cenas mais tocantes e intensas do longa. Sacha Baron Cohen prova mais uma vez que seu talento não apenas reside na comédia. Surgindo apenas por menos de 10 minutos no terceiro ato, Michael Keaton arrasa e rouba a atenção em uma breve aparição contracenando com colegas excepcionais.

Sorkin, que também assume a cadeira de diretor (sua segunda vez na função após A Grande Jogada) não desaponta em uma produção que seria dirigida originalmente por Steven Spielberg. O filme não apenas se ancora em diálogos e atuações em sua apresentação. A montagem, comandada por Alan Baumgarten, tem uma fluidez invejável orgânica e é acertadamente acelerada nos momentos de maior ação. Composta por Daniel Pemberton, a trilha sonora é intoxicante e tensa, se incorporado muito bem ao resto da trama.

A importância de Os 7 de Chicago em 2020 é incontestável. Em um cenário em que violência policial e abuso de autoridade são vistos tanto nos Estados Unidos quanto o Brasil, com diversos casos imperdoáveis que chocaram a opinião pública e levaram milhares de pessoas às ruas em diversas partes do globo, o longa é um soco necessário no estômago. A impunidade policial era tão presente em 1969 quanto é hoje e a história é um padrão que se repete com o tempo. As cenas de sangrentas agressões contra manifestantes chocam – e ainda acontecem. O descaso das autoridades com Bobby Seale horroriza – e ainda vemos histórias assim no nosso cotidiano. A dura verdade é que o filme seria relevante e atual não importa o ano em que fosse lançado.

Mesmo que o final soe um pouco piegas e amenize um pouco o tom de tudo o que foi mostrado antes, Os 7 de Chicago é um enfurecedor e revoltante retrato de uma sociedade que se recusa a mudar 50 anos depois. Logo no início, Seale cita que Martin Luther King, Malcolm X, Robert Kennedy e Jesus como pessoas que tentaram mudar o mundo e foram assassinados por isso. Os oito réus do filme são exemplos da injustiça cometida contra aqueles que tentam desafiar o status quo. Em todos os casos, a recepção negativa e a violência que encontraram os tornaram não apenas exemplos, mas também ideais a serem seguidos e admirados.

Nota:


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Estudante de jornalismo, tem 21 anos e é assistidor de séries semi profissional. Viciado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli, slashers e musicais, adora cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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