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Contos do Caçador de Sombras | Crítica

Contos do Caçador de Sombras | Crítica

Crítica de Contos do Caçador de Sombras, filme em que Whinderson Nunes dubla Jackie ChanContos do Caçador de Sombras (Shen tan Pu Song Ling)

Ano: 2020

Direção: Jia Yan

Roteiro: Boham Liu

Elenco: Jackie Chan, Elane Zhong, Ethan Juan, Peng Lin, Po-Hung Lin, Shan Qiao

O ano de 2020 ficará marcado na história da humanidade. Obviamente, pelas tragédias. E elas foram em diversos níveis. Desde a pandemia do novo coronavírus, passando pelas queimadas ao redor do mundo – de Austrália ao pantanal brasileiro –, terremotos, nuvem de gafanhotos, ameaça de guerra mundial, entre outras. Se existir um apocalipse, talvez, estejamos mais próximos dele do que nunca.

No entanto, outras desgraças menores colaboram para fazer deste ano o pior da nossa história. Uma delas é, certamente, o novo filme de Jackie Chan a chegar no Brasil: Contos do Caçador de Sombras. E, como se o próprio longa já não fosse motivo para se lamentar, ele ainda ganhou um plus em terras tupiniquins: o ator chinês, desta vez, teve a sua dublagem realizada pelo youtuber Whindersson Nunes.

Sim, o influencer conquistou o cargo que era, na maioria das vezes, de Tatá Guarnieri, deixando a sua voz entrelaçada à de Chan no Brasil. E, quando o anúncio foi feito, a internet se voltou para o assunto – boa parte dos fãs do ator, obviamente, rejeitaram a novidade. Mas, para saber se a escolha de Whindersson para o posto foi tão ruim quanto pareceu no trailer, este que vos escreve decidiu assistir ao filme com o pacote completo. Ou seja, dublado.

E já adianto: a voz de Whinderson como a de Jackie Chan não ficou boa. Longe disso. Mas, para se ter uma ideia, este é um dos menores problemas de Contos do Caçador de Sombras. A trama é confusa, rasa e se cansativa. Na história, o ator asiático vive Pu Songling, um senhor que, ao lado de criaturas mágicas bizarras, captura ‘forças do mal’ e, depois, transforma as suas histórias em livros – e tenta vendê-los para crianças.

Logo no começo, é apresentado o tom que o filme deseja ter: um épico de fantasia. Porém, não tem orçamento para tal. Nitidamente, faltaram alguns vários milhões de dólares para que o diretor Jia Yan conseguisse entregar o que pretendia. E essa pobreza nos efeitos especiais, em um longa que é completamente dependente do mesmo – a maior parte da produção foi filmada com auxílio do chroma key – beira ao constrangedor. As criaturas em computação gráfica que acompanham o personagem de Chan, por exemplo, são semelhantes às empregadas nos filmes dos anos 1990, de tão artificiais.

E, como se não bastassem os problemas técnicos, a história é tão fraca quanto. O roteiro demora a entregar o que se propõe – só é possível entender por qual caminho a trama vai seguir depois dos 40 minutos. Até então, são introduções completamente desnecessárias ao personagem de Chan e sua habilidade com a magia – ele luta contra as tais ‘forças do mal’ com o auxílio de um pincel mágico, com o qual ele captura as criaturas e os coloca em um livro que os manda para uma prisão em outra dimensão. Ele também consegue prender alguns seres em frascos, como se fossem Pokémons. Os critérios e como ele faz isso, no entanto, não são explicados.

E essa falta de detalhar as motivações, os poderes e como aquela magia funciona acabam deixando o filme desinteressante, pois é cômodo que não hajam regras – assim, nenhum problema é grande demais que não possa ser resolvido. Não foram estabelecidos limites. Além disso, Contos do Caçador de Sombras conta com diálogos extremamente mal escritos e atuações exageradamente ruins. A exceção, é claro, Jackie Chan, que faz mais do mesmo, mas acaba sendo o suficiente para que ele se sobressaia do restante. Mas, para os fãs das artes marciais do ator, má notícia: a idade chegou e o astro chinês está bem menos ágil – as suas maiores lutas são realizadas por meio de CGI.

Mas e a polêmica dublagem? Então, como dito anteriormente, a voz de Whindersson em Chan não combinou. Além da memória afetiva para quem cresceu ouvindo o ator falando de uma maneira – eu me encaixo aí –, o youtuber brasileiro é muito mais jovem que o astro de ação. Ou seja, não casa o que está se ouvindo com o que está se vendo. E mais: o trabalho do estúdio que fez a versão nacional do longa não teve cuidado com a produção, deixando não apesar o trabalho de Whindersson, mas também o dos dubladores profissionais, muito mal sincronizado com as bocas dos atores. Além disso, ao trocar para a versão original, percebe-se uma grande diferença, inclusive, nas entonações e nas demonstrações de emoções.

No final das contas, Contos do Caçador de Sombras é uma catástrofe do começo ao fim e nada se salva, além do carisma de Chan – quando ele está de boca fechada, é claro. A escolha de Whindersson como dublador, certamente, foi para que o filme recebesse alguma atenção no Brasil. E, por pior que seja, conseguiu. Estou aqui, escrevendo sobre ele. “Falem bem ou falem mal, mas falem de mim”, já dizia o velho e certeiro ditado.

Nota:


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Jornalista e radialista, é um dos fundadores do Bode na Sala. Se orgulha de ter nascido em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, e, atualmente, mora em Porto Alegre. Trabalhou em todas as áreas que se pode imaginar, mas acabou caindo no submundo geek. É fã do Jim Carrey, acha que o Ben Affleck é o melhor Batman do cinema, não suporta pseudo-cultismo e pretende dominar o mundo.

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