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Bom Dia, Verônica | Crítica

Bom Dia, Verônica | Crítica

Crítica de Bom Dia, Verônica, série da NetflixBom Dia, Verônica

Temporada:

Ano: 2020

Criadores: Raphael Montes, Ilana Casoy

Elenco: Tainá Müller, Camila Morgado, Eduardo Moscovis, Antônio Grassi, César Mello, Silvio Guindane, Elisa Volpatto, Adriano Garib

Em 2020, mais do que nunca, a realidade conseguiu se tornar mais inacreditável que muitas histórias ficcionais. E, neste cenário distópico em que o mundo todo está inserido, surge um recorte do Brasil: Bom Dia, Verônica, série baseada no romance homônimo de Ilana Casoy e de Raphael Montes – que escreveram a obra sob o pseudônimo Andrea Killmore. Se, em outro momento, algumas das situações poderiam cair no velho “ah, isso não acontece na vida real”, hoje em dia, a trama já não parece absurda. Bem pelo contrário.

A atração da Netflix acompanha a história da escrivã de uma delegacia de homicídios de São Paulo, Verônica Torres (Tainá Müller), que se vê no meio de um tornado em sua carreira, envolvida em casos de abusos e violência contra a mulher, além da corrupção que abrange vários níveis dos poderes do País e que chegou em sua família. Ao contrário do livro de Casoy e Montes, a série deixa de tocar em assuntos um pouco mais ousados, como necrofilia, mas não que isso enfraqueça a história ou a deixe menos chocante. E, como caso principal, conhecemos o drama de Janete Cruz (Camila Morgado), mulher que sofre violência, tanto física quanto psicológica, de seu marido, um grande nome da Polícia Militar e também um serial killer, Cláudio Brandão (Eduardo Moscovis).

Neste cenário, a protagonista começa a mergulhar mais fundo no obscuro, tanto do ser humano quanto da polícia, deixando que seu trabalho tome conta de sua vida pessoal. E, para conseguir construir as diversas camadas da personagem principal, Müller entrega uma performance forte, transparecendo as angústias e revoltas de Verônica – apesar de ser sabotada, em alguns momentos, por diálogos fracos. No entanto, a série é tomada pelos desempenhos impressionantes de Moscovis e Morgado, que estão em dois dos melhores papéis de suas carreiras. Ele, um genuíno vilão imprevisível. Ela, demonstrando toda a dor e medo de uma mulher violentada e que teve o seu psicológico destruído pelas ações de seu marido.

O roteiro, escrito a 10 mãos, incluindo as de Casoy e Montes, autores da obra original, consegue percorrer por vários caminhos interessantes na série, quase sempre sem deixar o ritmo cair. Entretanto, alguns momentos são prolongados além do que deveriam, causando inchaço na trama, o que acaba se refletindo em resoluções rápidas em situações de mais importância, como a aproximação de Verônica com Janete – os encontros entre elas, por vezes, acabam fazendo com que a gravidade da situação seja um tanto quanto minimizada, contrariando as atitudes, até então, cuidadosas de Verônica. Outro ponto que acaba afastando a série da Netflix da nota máxima é o arco envolvendo o pai da protagonista, que fica mal desenvolvido, principalmente na hora de correlacionar com as demais tramas e com as ações de Verônica.

Mas a série acerta em cheio ao tratar da impunidade para abusadores de mulheres e da impotência de quem quer justiça, mas acaba sendo travado por um sistema falho e machista – coincidentemente, a série foi lançada no mesmo mês em que um famoso jogador de futebol, condenado em primeira instância por estupro, conseguiu emprego em um dos grandes times do Brasil. Além disso, a trama ainda apresenta bem as relações de poder e como elas conseguem mascarar corrupções, transformando o país em um grande território de troca de favores, acobertando crimes e protegendo os poderosos.

Os planos empregados para a narrativa também refletem bem este cenário da imposição dos homens sobre as mulheres, que ainda está impregnado na sociedade brasileira. Um dos melhores exemplos é quando Brandão vai à delegacia em que trabalha Verônica e, ao encontrar com a personagem, em sua mesa, a câmera a filma a partir do ombro dele, mostrando que ele é uma espécie de Golias e ela, Davi, que precisaria derrotar aquele gigante, mesmo com todas as dificuldades para isso. É um momento tenso e extremamente bem trabalhado.

Entregando uma primeira temporada consistente, tensa e empolgante, os diretores Rog de Souza, José Henrique Fonseca, Izabel Jaguaribe construíram um suspense de altíssimo nível, que não deve em nada para produções de Hollywood, apresentando para o Brasil uma nova personagem que deverá fazer parte da cultura pop: Verônica. Ela deve – e precisa – retornar para novos capítulos e, se seguir o caminho trilhado nestes oito episódios iniciais, cuidando para não descambar para uma propaganda gratuita sobre fazer justiça com as próprias mãos, se consolidará como uma das melhores opções policiais no catálogo da Netflix. E é nacional.

Nota:



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Jornalista e radialista, é um dos fundadores do Bode na Sala. Se orgulha de ter nascido em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, e, atualmente, mora em Porto Alegre. Trabalhou em todas as áreas que se pode imaginar, mas acabou caindo no submundo geek. É fã do Jim Carrey, acha que o Ben Affleck é o melhor Batman do cinema, não suporta pseudo-cultismo e pretende dominar o mundo.

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