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Borat: Fita de Cinema Seguinte | Crítica

Borat: Fita de Cinema Seguinte | Crítica

Crítica de Borat 2, do Amazon Prime Video

Borat: Fita de Cinema Seguinte (Borat Subsequent Moviefilm: Delivery of Prodigious Bribe to American Regime for Make Benefit Once Glorious Nation of Kazakhstan)

Ano: 2020

Direção: Jason Woliner

Roteiro: Peter Baynham, Sacha Baron Cohen, Jena Friedman, Anthony Hines, Lee Kern, Dan Mazer, Erica Rivinoja, Dan Swimer

Elenco: Sacha Baron Cohen, Irina Nowak

Em tempos de pandemia, crise política, disseminação em massa de fake news e diversas outras catástrofes, apenas um carismático cazaque pode nos salvar: Borat Sagdiyev. Surpreendendo a todos com uma sequência inesperada, Sacha Baron Cohen brilha mais uma vez como o famoso e controverso jornalista para abordar esse cenário infernal em que estamos vivendo. E é ótimo.

Lançado em 2006, o pseudodocumentário Borat – O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América foi um fenômeno cultural que arrecadou US$ 262 milhões ao redor do mundo e recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original. O experiente comediante Baron Cohen usava da dita inocência do seu personagem para enganar americanos (que acreditavam estar falando com um estrangeiro real) e expor os seus preconceitos. Logo, por exemplo, quando Borat fez um comentário reclamando do consenso das mulheres em ter o direito de escolher com quem fazem relações sexuais, a graça e o choque não estavam nele, mas no instrutor de auto escola que concordou com ele. Tanto que todas as pessoas reais que apareceram tentaram processar os envolvidos da produção depois.

Aí reside a sutileza do primeiro filme. É possível assisti-lo e interpretá-lo erroneamente como um projeto preconceituoso ou se identificar com o humor grotesco e “politicamente incorreto” dele. Isso é algo que não se repete na continuação. Borat: Fita de Cinema Seguinte satiriza abertamente Donald Trump, a direita americana, o movimento pró-vida, supremacistas brancos, influencers digitais, negadores do Holocausto, compartilhadores de fake news e, isso mesmo, até o nosso querido presidente Jair Bolsonaro. E é glorioso.

Quatorze anos após o lançamento do documentário que estava produzindo, Borat trouxe desgraça para o Cazaquistão e fica todo esse tempo preso. A trama começa quando ele é encarregado da missão de dar um presente para o vice-presidente estadunidense Mike Pence e assim reconquistar a antiga glória da nação, que sequer exporta potássio como antes. Originários do Da Ali G Show, Sacha Baron Cohen sempre aposenta seus personagens depois de lançar um filme solo porque eles se tornam populares demais e fica impossível de enganar as pessoas. Ali G, Borat e Brüno aparentemente não seriam mais utilizados até Cohen decidiu usar sua criação famosa mais uma vez. É preciso que o repórter use disfarces para passar despercebido pelo público, que facilmente o identificaria de outra forma.

Para aqueles que temiam que Borat não seria tão controverso por causa da cultura do cancelamento, podem ficar tranquilos. O comediante não suaviza e continua tão provocador como sempre. A sua forma de humor não mudou em nada (como era possível ver no seu programa Who Is America?, prematuramente cancelado) e ele ainda continua um mestre em expor os preconceitos dos americanos. Gravado e finalizado em segredo no meio da pandemia, Cohen também usou do surto do novo coronavírus como uma das diversas críticas que prega em sua produção. Ele não apenas satiriza quem nega a existência da Covid-19 ou àqueles que culpam a China, mas também acaba entregando uma importante mensagem sobre a importância do distanciamento social. É inesperado, porém muito efetivo.

Desta vez, sem a icônica presença do seu produtor Azamat (como esquecer a briga dos dois nus no meio do hotel?), Borat se aventura nos Estados Unidos com a presença da sua filha, Tutar (a estreante e promissora Irina Nowak). A jovem de 15 anos é excluída em sua terra natal e repetidamente maltratada pelo pai, que perpetua os ensinamentos machistas que aprendeu desde sempre. Com a nova personagem, o roteiro consegue criticar a cultura das influencers e das cirurgias plásticas, mostrando todas as pressões que as garotas sofrem para ter o corpo perfeito. Existe até mesmo um arco dramático com o Borat aprendendo a ser mais tolerante; é tudo bem clichê e batido, mas igualmente funcional.

Quando o filme faz rir, são risadas muito gostosas. O charme de Borat não se perdeu nem um pouco e o comediante continua a criar situações desconfortáveis e hilárias. Mesmo que não chegue no nível do original, que, convenhamos, é uma experiência única, ainda é uma sequência digna que nunca perde a sua essência. No entanto, ela também tem os seus problemas. Similar a Brüno, o longa investe muito em um enredo propriamente dito, onde realmente são apenas os atores de verdade em situações pré-combinadas e em nenhum momento essas cenas são tão efetivas quanto as pegadinhas. E elas ocupam muito tempo da produção.

Para o bem ou para o mal, Sacha Baron Cohen nunca ameaça sua vida como nos projetos anteriores. Em nenhum momento o ator repete e insanidade da vez que ele humilhou os Estados Unidos durante o hino nacional em um rodeio ou a cena de uma intensa pegação com um amigo durante uma suposta partida de wrestling, irritando uma enfurecida plateia de homofóbicos. Em determinado momento, ele vai até uma convenção de extrema direita mas nunca causa nenhum alvoroço. Ainda bem para ele que estava até usando colete à prova de balas.

Não existe dúvida alguma da dedicação de Cohen para a comédia e mais uma vez ele entrega um ótimo filme, que está estreando no momento perfeito: pouco antes das eleições dos Estados Unidos. Novamente, ele vai ser processado várias vezes e muita gente vai ficar brava, mas provocar sempre foi sua maior habilidade e desta vez ele não desaponta.

Nota:


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Estudante de jornalismo, tem 21 anos e é assistidor de séries semi profissional. Viciado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli, slashers e musicais, adora cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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