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O Problema de Nascer | Crítica

O Problema de Nascer | Crítica

Crítica de O Problema de Nascer, da Mostra de SP

O Problema de Nascer (The Trouble of Being Born)

Ano: 2020

Direção: Sandra Wallner

Roteiro: Sandra Wallner, Roderick Warich

Elenco: Lena Watson, Dominik Warta, Ingrid Burkhard, Jana McKinnon, Simon Hatzl

A ficção científica é, em sua natureza, provocadora. Desde sempre o gênero tem usado de seus mecanismos para fazer o espectador questionar diversos assuntos e fazê-lo pensar. Toda grande sci-fi faz isso. E é isto que O Problema de Nascer tem como objetivo, falhando colossalmente. A produção alemã acompanha Elli (Lena Watson), uma andróide de 10 anos que é programada para agir como a filha de Georg (Dominik Warta), cuja filha real desaparecera depois de fugir de casa. Os dois vivem isolados de tudo em uma belíssima casa de veraneio. A existência remota dos dois seria tranquila se não fosse a atração sexual e comportamento desconcertante que Georg tem para com a androide.

Pedofilia no cinema é sempre um assunto tabu, afinal, qual é o limite que a arte deve traçar quando abordar algum tema controverso? Enquanto essa discussão ainda gera muito debate, é seguro dizer que O Problema de Nascer tem um dificuldade seríssima em retratá-la de forma competente. As cenas de conotação pedófila são muito desconfortáveis e quase impossíveis de assistir. No entanto, tudo isso seria justificado e o fim valeria o meio caso o filme fizesse algo com esse tema recorrente. Mas não faz absolutamente nada.

O abuso sexual que Elli sofre nas mãos do homem que posa como seu pai não leva a lugar algum. A androide nunca tem ciência do que realmente está acontecendo com ela e quando ele acaba em outra família em determinado ponto do filme, não há nenhum tipo de consequência ou resultado. O tema acaba assim que ela é separada de Georg e não vai a lugar algum. Originalmente escrito para uma atriz de 20 anos, Lena Watson, da mesma idade que a personagem, passa por essas cenas que, mesmo nunca tão explícitas, são bem controversas. E não ajuda que a produção tenha optado por usar de CGI para fazer a nudez da andróide, sendo que seria mais desejável que tivessem contratado uma atriz mais velha.

O que leva a verdadeira falha de O Problema de Nascer. Quando não está testando a tolerância do espectador, está testando a sua paciência. Virtualmente nada demais acontece na uma hora e meia do longa metragem, que tem a sensação de durar o dobro do tempo. Quando a androide foge de casa no meio do filme (imitando a garota real que está a substituindo) e ela é adotada por uma família que a força a agir como o irmão de uma idosa durante a infância dela, também não acontece nada.

Chega a ser impressionante como uma premissa que lembra tanto I.A. – Inteligência Artificial, consegue ser tão pouco interessante. Em nenhum momento conseguimos nos conectar com Elli, apenas sentimos pena dela. Como ficção científica também tem pouco a ser explorado. Nunca vemos outros andróides e nunca fica explicado como conseguem programar na Elli lembranças de pessoas ausentes que ela é obrigada a interpretar. O elenco pouco consegue fazer com personagens tão unidimensionais e com participações tão pouco relevantes dentro da trama. Lena Watson é a única que se sai bem, mesmo que o script necessite que ela seja pouco expressiva na maior parte do tempo.

A direção de Sandra Wallner pouco consegue fazer com um roteiro tão fraco, que a mesma co-escreveu com Roderick Wallrich. Quando estreou no começo do ano no festival de Berlinale, diversas pessoas saíram no meio do filme horrorizadas com as cenas fortes da primeira metade – e não perderam nada. É uma pena que O Problema de Nascer não tenha nada para oferecer além de sua controvérsia, sendo uma experiência maçante e nada inspirada.

Nota:


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Estudante de jornalismo, tem 21 anos e é assistidor de séries semi profissional. Viciado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli, slashers e musicais, adora cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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