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Kadaver | Crítica

Crítica de Cadáver, da NetflixKadaver

Ano: 2020

Direção: Jarand Herdal

Roteiro: Jarand Herdal

Elenco: Gitte Witt, Thomas Gullestad, Thorbjørn Harr, Maria Grazia Di Meo, Jonatan Rodriguez, Kingsford Siayor, Trine Wiggen, Tuva Olivia Remman

Atrações itinerantes são uma temática pouco usada no terror atualmente, mas que se encontram nas próprias raízes do gênero por revelarem o arquétipo do monstro moderno, estranho e naturalmente disforme, como nos freak shows popularizados nos Estados Unidos pelos festivais circenses de P. T. Barnum. A ideia desses espetáculos, surgidos por volta de 1940 e que diziam trazer o que havia de mais horripilante para sua pequena cidade, invadindo seu privado e isolado mundo, é uma visível inspiração para Kadaver, a nova produção norueguesa da Netflix.

O primeiro longa-metragem do diretor norueguês Jarand Herdal traz uma cidade sem nome em um cenário, embora não explicado, provavelmente pós-apocalíptico. A cidade é tomada pela miséria e pela fome, além do cada vez mais comum suicídio de seus poucos moradores. Eis que surge uma espécie de Dr. Caligari na cidade, o misterioso Mathias (Thorbjørn Harr) que, junto a sua trupe de teatro, convoca a todos para assistirem uma peça de teatro que acontecerá no grande hotel abandonado. O preço do ingresso, ele informa, é qualquer coisa que puderem pagar, e ainda por cima todos ganharão um prato de comida de graça. Bom demais para ser verdade, né?

Leonora (Gitte Witt), cansada de focar apenas na sobrevivência, convence seu marido Jacob (Thomas Gullestad) de que seria bom para a filha deles, a pequena Alice, ter uma noite de um pouco de diversão. No hotel, após um jantar bem servido, eles são apresentados à dinâmica do espetáculo: a peça não se limita a um palco, mas sim ao hotel inteiro. Os convidados devem decidir quais personagens acham mais interessantes e segui-los, com uso de máscaras douradas para diferenciar os atores do público.

Ainda que os eventos de Kadaver aconteçam aparentemente no futuro, há uma aura retrô no hotel que lembra a série Carnivale, da HBO, ambientada nos anos 1930. O filme possui uma premissa curiosa e uma ambientação rica e soturna. Enquanto os ambientes externos abusam dos tons de azul e cinza, congelantes e sem vida, o interior do hotel utiliza cores fortes e em tonalidades que variam do dourado e vermelho até o verde escuro. O contraponto entre os dois cenários notoriamente visa acentuar as diferenças das vidas dos cidadãos comuns daquela cidade para as dos atores daquele estranho grupo, que vive em aparente luxo e ostentação que beiram ao surreal.

A obra de Herdal brinca com as percepções dos telespectadores constantemente, mas não de maneira muito efetiva. Em alguns momentos, é possível se questionar se os eventos que estão ali acontecendo são reais ou não, porém na maioria das cenas é bem óbvio o caminho que o roteiro escolhe seguir. Com apenas uma hora e vinte e seis minutos de duração, o filme não possui muito tempo para explorar aquele mistério, aqueles corredores e aumentar a tensão em quem assiste. Todos os eventos parecem ocorrer com muita aceleração, e cenas importantes se perdem com poucos minutos em um roteiro apressado e sem compasso. Os perigos dentro do universo de Kadaver não parecem realmente ameaçadores e as mortes e dramas se tornam mornas e sem importância.

Embora seja um filme com protagonistas muito bem definidos, a quantidade de personagens – entre vítimas e membros do espetáculo – é bastante expressiva, e em certos momentos é um tanto confuso entender de quem é aquele rosto sendo ali mostrado. Os vilões não são muito marcantes e seus planos maquiavélicos são caricatos demais (e explícitos de menos), de modo que não importa as coisas que eles dizem que fazem, elas simplesmente não tem nenhum impacto. A isso soma-se um roteiro com furos evidentes e cheio de conveniências que torna a narrativa não só mal construída, mas também ligeiramente boba.

Kadaver é um filme de expectativa. Enquanto assiste, o telespectador concentrado em descobrir o que está por trás daquele mistério pode não reparar em seus pequenos (porém numerosos) defeitos. Entretanto, a resolução de todos os conflitos é simples, previsível e forçada. Em especial, a cena final de Leonora é cafona e nonsense, com direito a um slowmotion repetitivo e com duração exagerada. Assim como em todo o filme, ela é marcada por uma trilha sonora contundente, mas cujo efeito impactante ficou apenas na cabeça do diretor.

O longa norueguês da Netflix possui uma boa premissa, porém com um desenvolvimento empobrecido e, como resultado, um final desinteressante. Sua criatividade é inegável, e as experimentações criativas de Herdal, ainda que tímidas, são presentes e evidenciadas, especialmente na sua ótima estética. Boas ideias e boas imagens, porém, não se sustentam sem uma maior consistência de roteiro, e resultou em um filme que tinha mais potencial do que o que conseguiu alcançar.

Nota:


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Jornalista que migrou para a veterinária, mas sem deixar para trás as jornalices. Vive e respira horror, seja em quadrinhos, filmes, séries ou livros. Último posto de defesa da DC Comics em relação à Marvel, embora tenha que fazer vista grossa quando o papo é cinema. Fã de Heavy Metal, games single player e cospobre de carteirinha quando sobra dinheiro no final do mês.

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Comments

  1. Muito ruim esse filme. História cheia de furos, fraca e tediosa. Perdi meu tempo assistindo. Nada incomum pra um filme Netflix.

  2. Alexandre de Figueiredo - 19 de novembro de 2020 at 19:33 - Responder

    Uma boa ideia que se perdeu pela falta de criatividade.

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