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Nova Ordem | Crítica

Nova Ordem | Crítica

Crítica de Nova Ordem, da Mostra de Cinema de São Paulo

Nova Ordem (Nuevo Orden)

Ano: 2020

Direção: Michel Franco

Roteiro: Michel Franco

Elenco: Naian González Norvind, Diego Boneta, Mónica del Carmen, Fernando Cuautle, Eligio Meléndez, Darío Yazbek

A divisão de classes tem sido um tema muito recorrente no cinema mundial. Apenas no ano passado tivemos títulos como Parasita, Nós, Entre Facas e Segredos, As Golpistas e Casamento Sangrento. Todos estes filmes tem uma coisa m comum: eles são do ponto de vista da classe trabalhadora injustiça pela camada mais abastada da sociedade. Nova Ordem mostra uma insurreição daqueles que foram explorados pelo ponto de vista dos ricos.

Em meio de diversas notícias de manifestações ficando cada vez mais intensas, Marianne (Naian Gonzalez Norvind) está se casando com Alan (Darío Yazbek), ambos são de famílias abastadas e todos os convidados são igualmente privilegiados, com exceção de um velho empregado da casa que está pedindo 200 mil pesos (cerca de R$ 50 mil) para pagar a cirurgia urgente de sua esposa que precisa operar o coração. Tanto a mãe quanto o irmão da noiva dão uma quantia insuficiente para ele, até que Marianne descobre isso e, horrorizada com a avareza dos familiares, resolve pagar o restante. Quando ela sai de casa, os manifestantes chegam à residência.

O primeiro terço do longa é inegavelmente tenso. O diretor Michel Franco consegue navegar entre o casamento e os personagens, estabelecendo-os, de maneira clara e fluída. Apenas as notícias dos violentos protestos sendo transmitidas em rádios e TVs são o suficiente para criar uma atmosfera inquietante enquanto os ricos vivem os problemas de classe alta deles. E quando a casa é invadida, o filme começa de verdade. Os manifestantes não são misericordiosos e saqueiam, sequestram e assassinam sem dó. Como thriller de invasão domiciliar, Nova Ordem é ótimo. Mas a produção tem aspirações maiores e é aí que reside os maiores problemas do que poderia ter sido um longa excelente.

Os manifestantes, compostos quase que exclusivamente de indígenas, conseguem dar um golpe de Estado e estabelecer a tal nova ordem do título – que é praticamente fascismo. Eles sequestram membros de famílias ricas para pedir resgaste milionários enquanto os torturam, humilham e estupram incessantemente. Eles instauram um toque de recolher que permite que as pessoas só saiam de casa pelo período de duas horas, racionam comidas e deixam tudo pior do que estava antes.

A violência, por mais brutal que seja, é usada meramente como fator de choque, como uma necessidade juvenil de se superar e aterrorizar o público a cada cinco minutos de projeção. Depois de ter sido estabelecida como boa moça e diferente dos seus parentes egoístas, Marianne passa por um verdadeiro inferno como o saco de pancadas do filme, sendo martirizada cena após cena. E não existe o menor problema com algo ser excessivamente violento, desde que não seja puramente pelo prazer da violência.

A mensagem de Nova Ordem não passa do simples “poder corrompe” e sua transmissão é a mais problemática o possível. Brancos de classe alta são as vítimas, eles são os injustiçados, eles são friamente assassinados e perdem tudo o que tem. E pelas mãos de quem? De indígenas pobres e anteriormente marginalizados. Eles que são os verdadeiros selvagens, eles colocam um regime fascista que também prejudica a classe trabalhadora. Logo, tudo estava bem melhor do jeito que estava, com os ricos no comando.

Não existe nenhum nuance ou insight na produção, nunca sequer é explorado os problemas sociais que levam aos problemas de classe. Os empregados da casa, Cristian (Fernando Cuautle) e Marta (Mónica Del Carmen) mal têm falar ou qualquer agência sobre o que acontece com eles e os manifestantes são apenas vilões bárbaros que devem ser temidos com nenhuma motivação a não ser roubar dinheiro e estuprar mulheres.

Escrito e dirigido por Michel Franco, Nova Ordem é uma grande oportunidade perdida. A conclusão do longa é vazia e não tem objetivo algum ao não ser impactar. Quando Franco rebateu as acusações de racismo que sua obra recebeu, ele disse que o termo de whitexican (mexicano branco), é racista reverso. Apenas essa resposta mostra o quão mal direcionado e distanciado da realidade é o diretor.

Nota:


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Estudante de jornalismo, tem 21 anos e é assistidor de séries semi profissional. Viciado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli, slashers e musicais, adora cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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