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O Gambito da Rainha – 1ª temporada | Crítica

O Gambito da Rainha – 1ª temporada | Crítica

Crítica de O Gambito da Rainha, série da NetflixO Gambito da Rainha (The Queen’s Gambit)

Ano: 2020

Direção: Scott Frank

Roteiro: Scott Frank, Walter Tevis, Scott Allan, Allan Scott

Elenco: Anya Taylor-Joy, Chloe Prime, Bill Camp, Marielle Heller, Jacob Fortune-Lloyd, Marcin Dorcinski, Thomas Brodie-Sangster, Moses Ingram, Harry Melling, Isla Johnston, Patrick Kennedy, Christiane Seidel

Em termos enxadrísticos, o gambito é o sacrifício de uma peça para se obter uma vantagem posicional no tabuleiro. Por definição, é considerado um movimento agressivo, comum a jogadores implacáveis. Quando conhecemos a pequena Beth Harmon (Anya Taylor-Joy), dificilmente imaginamos que aquela figura franzina tenha essas características.

O Gambito da Rainha conta a história da jovem Beth, que após perder a mãe em um acidente de carro passa a morar em um orfanato. Naquele lugar de rígidos costumes, a pequena conhece os dois elementos que pautarão sua vida dali em diante: o vício em remédios e o xadrez. Um está intimamente ligado ao outro, pois embora já estivesse familiarizada com o efeito entorpecente dos calmantes, apenas quando descobre o xadrez que Beth começa sua dependência. Após ser apresentada ao jogo pelo zelador do orfanato, Mr. Shaibel (Bill Camp), a jovem alucina com o tabuleiro e suas peças noite após noite, quase como uma fuga para sua mente veloz ante o tédio que enfrenta nas aulas comuns.

Autodidata, Harmon impressiona Mr. Shaibel, que a apresenta a um representante do clube de xadrez da cidade. E assim começa a carreira de Beth Harmon: jovem, curiosa, com uma mente afiada e sem qualquer tipo de norte na vida. Sua história dá uma virada quando Beth é adotada por Alma (Marielle Heller) e Allston Weathley (Patrick Kennedy), deixando o orfanato para trás e indo enfrentar o mundo. Concluo o resumo da trama por aqui; do contrário, o texto ficaria gigantesco. Por ser a adaptação de um livro, O Gambito da Rainha tem muito a contar. E esse ponto é sua principal qualidade e também seu maior defeito.

A trama é ampla. Conta a vida de Beth dos oito aos 20 e poucos anos, e aí temos um dos maiores problemas da obra. A melhor amiga de Beth no orfanato, Jolene (Moses Ingram) é interpretada pela mesma atriz em todas as fases da vida da protagonista. Truques de maquiagem e cabelo foram incapazes de disfarçar a diferença entre a idade proposta e a idade real. Mas a verdadeira tragédia está na própria Beth Harmon. Quando criança, foi interpretada – muito bem, diga-se de passagem – pela talentosa Isla Johnston. Mas quando chega aos 13, a própria Anya Taylor-Joy é quem assume a personagem. O resultado é bizarro, e o segundo episódio tem uma energia muito vergonhosa. Quando a protagonista envelhece, Taylor-Joy se destaca, e consegue entregar um resultado muito melhor com sua atuação.

Mas os defeitos da série acabam aí. É impossível não se sentir próximo à Beth Harmon em sua jornada. Sozinha no mundo, perdendo pessoas queridas; deixada à própria sorte, a jovem encontra no xadrez a companhia que não tem na vida, e embalada pelo consumo desenfreado de calmantes e álcool, o perigoso alívio para sua mente inquieta. A trama consegue manter um bom ritmo, tomando seu tempo para contar a história, e pisando fundo no acelerador quando necessário.

É preciso destacar uma bela harmonia construída pela direção da série: a relação de Harmon com o xadrez. Ao longo dos episódios, o esporte milenar vai crescendo de tamanho na tela, acompanhando o tamanho que tem na vida da protagonista. O espectador mais atento – ou ávido por ver os jogos, como eu – há de notar que o tabuleiro e os movimentos das peças aparecem muito pouco no começo da história; algo que pode ser facilmente relacionado ao fato daquele mundo ainda ser estranho à personagem de Taylor-Joy.

Crítica de O Gambito da Rainha, série da Netflix

Com o passar do tempo, o xadrez passa a ser o sustento de Beth e sua mãe adotiva, e é aí que começamos a ver mais das partidas; os lances – antes apenas mencionados superficialmente – começam a despontar na tela. Por vezes é possível até dar pitaco nas melhores jogadas a serem feitas. Por tratar de um jogo tão complexo, a série não tem medo de usar diálogos explicativos para que o público não familiarizado com o tema consiga acompanhar a história na sua profundidade. Aliás, essa desmistificação do xadrez em O Gambito da Rainha passa pelo esforço da produção, e pela ajuda que receberam de um dos maiores enxadristas da história: Garry Kasparov. Esse cuidado com a obra entregou um resultado excelente, e contribuiu para que outros apreciadores do jogo não abandonassem a série por causa de inconsistências nas partidas.

Mas a série não prende apenas pelo reduto tabuleiro de 64 casas. Ela nos pega pelos sentimentos que causa. A angústia de ver a pequena abandonada à própria sorte, num mundo machista e preconceituoso; a solidão da jovem que quer seguir fazendo aquilo que ama, mas é pressionada a se encaixar em um molde; e, por fim, o vazio de uma mulher que tem toda a liberdade do mundo, mas nenhum lugar para ir. A série, por vezes, raspa superficialmente em algum tema, mas deixa claro os efeitos que aquilo causa. Um bom exemplo é a vida de Alma Weathley, que enterrou seus desejos para cumprir o papel que era esperado dela.

Aliás, O Gambito da Rainha tem bastante subtramas com pesos diferentes, mas nada que atrapalhe a história principal. Muitos deles são usados para explicar certos desenvolvimentos de Beth, mas sem apressar a história. O roteiro, no geral, é muito bom, e comete poucos deslizes – um grande feito para uma obra deste tamanho. Não posso deixar de citar, contudo, um escorregão do roteiro que acaba forçando a boa vontade do espectador: a cena do aplauso. Tudo bem, entendemos que Beth Harmon é um fenômeno do xadrez mundial, mas será ela capaz de fazer um público soviético aplaudir uma norte-americana bem embaixo dos olhos da KGB? Deixo aos leitores a reflexão. Esses detalhes, porém, não ofuscam o brilho do resultado final.

O Gambito da Rainha é uma das melhores séries desse ano. Equilibra a leveza da juventude com as agruras da vida real, sem deixar de ser interessante. Quem a procura pelo xadrez não sai decepcionado, pelo contrário: encontra ali uma grande história, contada de forma inteligente e com um final de aquecer o coração. Certamente será um sucesso por bastante tempo, e é uma pena que tenha sido tão curta.

Nota:


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Ator, escritor, diretor e roteirista, Gabryel é ruim em todas essas coisas. Crítico por natureza, adora reclamar de tudo, e é fã de filmes que ninguém tem paciência pra assistir. Carrega a convicção de que Click é um clássico cult e quem discorda é clubista.

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Comments

  1. Interessante.

  2. Interessante

  3. Muito bem! Já ajuda a conhecermos o filme

  4. Curti. Vou assistir em breve!

  5. Rosana Souza de miranda - 31 de outubro de 2020 at 20:33 - Responder

    Parabéns Gabriel a crítica esta muito boa que quero assistir o filme

  6. Maiara ausani oesterreich - 31 de outubro de 2020 at 21:54 - Responder

    Vale a pena assistir

  7. Parabéns mlkkk!

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