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Stardust | Crítica

Stardust | Crítica

Crítica de Stardust, filme sobre David Bowie

Stardust

Ano: 2020

Direção: Gabriel Range

Roteiro: Gabriel Range, Christopher Bell

Elenco: Johnny Flynn, Jena Malone, Marc Maron

A cinebiografia musical é um dos gêneros mais batidos do cinema. Extremamente formulaicos em sua essência, esses longas não conseguem passar da checklist básica com clichês como: gravadores/produtores não confia no artista/banda, artista se torna um sucesso mesmo assim, cai nas drogas e depois consegue se recuperar para fazer um número musical climático e emocionante. É muito raro que uma produção consiga se desprender desta formula e entregar algo interessante, como Rocketman, que passou por todos os pontos citados mas com um realismo fantástico maravilhoso ou Não Estou Lá, que reinventou Bob Dylan ao fazer com que a trajetória do músico fosse dividida em seis pessoas de diferentes idades, raças e sexo.

Uma vez que David Bowie foi um dos cantores mais empolgantes, criativos e marcantes, era de se esperar que um filme sobre a vida dele faria jus ao impressionante legado que ele deixou. Não é o caso. Stardust é uma mediocridade nada inspirada, chata e arrastada. Uma vergonha irrevogável no currículo de todos os envolvidos. E o pior de tudo: Bowie era publicamente contra que um longa saísse sobre a sua vida. Tanto que sua família e o seu patrimônio não apenas foram contra a produção como também não cederam o direito de nenhuma das suas músicas. Isso mesmo, um filme sobre um cantor sem a sua obra.

O pior de tudo é que ainda poderia funcionar. Lançado em 1998 e inspirado em Bowie, Velvet Goldmine também não obteve os direitos das canções e criou algo completamente novo. Dirigido por Todd Haynes e protagonizado por Ewan McGregor, Jonathan Rhys Meyers, Christian Bale e Toni Collette, a ficção encontrou uma recepção divisiva, mas foi indicado a Palma de Ouro e recebeu um cult following. Não espere que Stardust seja indicado a nada além do Framboesa de Ouro.

Ambientado em 1971, na sua primeira tour no Estados Unidos, vemos um David Bowie (aqui interpretado por Johnny Flynn) no começo de sua carreira. Depois de um começo promissor e do single famoso Space Oddity, o novo álbum do cantor fez com que os produtores da gravadora Mercury ficassem com dúvidas quanto o lançamento, já que consideraram o trabalho bastante inacessível e sem hits que estourassem nas rádios.

Desacreditada no cantor, a gravadora o encaminha para um publicista azarado, Ron Oberman (Marc Maron), não paga por um hotel pra ele e sequer emite um visto de trabalho, proibindo-o de tocar (bastante conveniente para um filme que não tem os direitos das músicas). Sem qualquer tipo de apoio, os dois entram em uma espécie de road movie, dirigindo pelo país para divulgar o Bowie fazendo entrevistas e performando em lugares poucos prestigiosos.

O filme é não intencionalmente risível. Quando o artista finalmente vai se apresentar (em uma convenção de vendedores de aspiradores de pó), ele senta na cadeira, pega o violão e… canta uma música de outro cantor. Igualmente absurdo quando um entrevistador o questiona sobre a letra de The Man Who Sold the World e o trecho citado é completamente fabricado. Stardust nunca consegue contornar a falta de músicas do Bowie e o resultado final é algo sem energia, parado e que nunca consegue cativar.

Outro grande problema é a retratação de Bowie, que na maior parte do tempo parece uma criança chateada de 10 anos. São raros os momentos em que Johnny Flynn consegue remotamente lembrar o cantor – até Gillian Anderson interpretou o artista melhor em uma cena de cinco minutos de American Gods. Tentando se defender ao colocar o letreiro de que é pouco baseado em uma história real, a produção esbanja erros factuais e imprecisões. Afinal, a gravadora real investiu pesado na primeira tour americana dele. E por optar ser uma história de origem da sua persona de Ziggy Stardust, o longa perde diversas oportunidades em explorar fases mais interessantes do cantor.

Outro motivo que torna o filme detestável, além de ser feito contra a vontade de Bowie e de sua família, o roteiro do estreante Christopher Bell também aborda a saúde mental do artista e do seu meio irmão Terry, que foi internado por esquizofrenia. Um capítulo muito íntimo e particular da vida da família foi adaptado sem sequer consultar os parentes. Tanto a relação do cantor com o irmão quanto as constantes brigas com a esposa Mary (Jena Malone) não vão a lugar algum, sem jamais terem alguma conclusão.

A direção de Gabriel Range é fraca, apenas Marc Maron e Jena Malone conseguem ter alguns momentos decentes de atuação e não sobra mais nada para defender aqui. Stardust é um filme interesseiro, feito sem nenhum tipo de paixão, alma, energia e convencional demais para um artista tão extravagante.  É tão ruim que faz parecer que Bohemian Rhapsody mereceu todos aqueles Óscares.

Nota:


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Estudante de jornalismo, tem 21 anos e é assistidor de séries semi profissional. Viciado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli, slashers e musicais, adora cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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