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Hamilton | Crítica

Hamilton | Crítica

Crítica de Hamilton, musical do Disney+

Hamilton 

Ano: 2020

Direção: Thomas Kail

Livro: Lin-Manuel Miranda

Elenco: Lin-Manuel Miranda, Leslie Odom Jr., Daveed Diggs, Anthony Ramos, Okieriete Onaodowan, Christopher Jackson, Phillipa Soo, Renée Elise Goldsberry, Jasmine Cephas-Jones, Jonathan Groff

Um dos maiores fenômenos da década passada finalmente fica disponível para o grande público. Desde sua estreia em 2015 na Off-Broadway, o musical atraiu milhares de espectadores, incontáveis elogios de crítica e público e recorde de indicações e vitórias no Tony Awards, a maior premiação do teatro. Hamilton: An American Musical foi responsável foi introduzir toda uma geração a musicais e o sucesso da peça foi impressionante. No entanto, assim como as demais produções teatrais, o alcance era limitado uma vez que elas não têm a mesma acessibilidade de filmes. Uma gravação da peça existe desde 2016 e foi adquirida no começo do ano pela Disney, finalmente alcançando todos os lares que se interessarem em assistir.

Escrito e protagonizado por Lin-Manuel Miranda, a peça ficcionaliza Alexander Hamilton, um dos pais fundadores dos Estados Unidos da América durante a guerra da independência contra os colonizadores britânicos e os primeiros anos do país como nação própria. O musical é 100% cantado e Miranda usa de influencias de rap, hip hop e R&B para que os personagens transmitam seus ideais históricos e conflitos por meio de rápidas rimas e ritmo invejável. As pouco mais de duas horas e meia de duração passam voando.

Alexander é um bastardo, órfão e imigrante que se mudou para os Estados Unidos aos 20 anos querendo fazer a diferença. Logo de cara, ele conhece seu futuro rival Aaron Burr (Leslie Odom Jr.), um advogado a quem o protagonista admira apesar de não concordar com sua ideologia (ou falta dela). O jovem logo se torna amigo do francês Lafayette (Daveed Diggs), o abolicionista John Laurens (Anthony Ramos) e o aprendiz de alfaiate Hercules Mulligan (Okieriete Onaodowan), juntos o quarteto ingressa na guerra afim de libertar os EUA da tirania do Rei George (Jonathan Groff) e deixarem a sua marca.

O musical mostra a ascensão de Hamilton durante o conflito, quando ele se tornou mensageiro do futuro primeiro presidente do país, o general George Washington (Christopher Jackson), que aqui surge como uma figura paterna para o órfão. O romance também se faz presente com a relação do protagonista com a filha de rico Eliza Schuyler (Phillipa Soo) e a irmã dela Angelica (Renée Elise Goldsberry). Uma das decisões mais emblemáticas da produção é ter pessoas de cor interpretando figuras históricas brancas na vida real para ressaltar a importância dos imigrantes na construção da América.

Estruturado como a maioria dos musicais, o primeiro ato é divertido, inspirador e otimista. Ser 100% cantado é dificilmente um empecilho, porque todas as músicas são ótimas e a parte instrumental é tão boa quanto as letras afiadíssimas. E assim como os segundos atos geralmente são, depois da ascensão vem a queda. Depois da guerra, vemos Alexader como o primeiro Secretário do Tesouro e o quão turbulenta foram as primeiras décadas dos Estados Unidos independentes. Novos inimigos surgem com os politicamente adversos Thomas Jefferson (Diggs) e James Madison (Onaodowan), assim como a rivalidade com o Burr aumenta.

O maior acerto da peça é não tratar Aaron Burr como apenas o vilão da história. O antagonista tem o mesmo tempo de tela que Hamilton e também age como narrador participante, introduzindo personagens e explicando coisas para a audiência. As desavenças dos dois são bem exploradas desde o começo e o desenvolvimento e motivações por causa do contraste imenso que ele tem com o seu rival, que sempre acaba saindo mais bem-sucedido, são excelentes. No entanto, Thomas Jefferson não tem a mesma multidimensionalidade, apesar de ser muito divertido.

O livro de Lin-Manuel Miranda tem legado como principal tema a ser explorado. Em diversos momentos os americanos se preocupam com as marcas que eles deixariam com o tempo e se eles conseguiriam cumprir com todos os seus objetivos. A consolidação disso é visto em músicas como History Has Its Eyes on You e no epílogo Who Lives, Who Dies, Who Tells Your Story.

Mesmo que não seja completamente acurado como lição de História – a maior parte dos pontos-chave da narrativa realmente aconteceram, mas muitos momentos e enredos usaram de liberdade poética – o musical é fantástico. Geralmente descrito como a América de antes sendo contada pela América de hoje (ou pelo menos da administração Obama), o musical retrata figuras históricas como jovens sonhadores e idealistas que são verdadeiros exemplos, mesmo que na vida real, alguns deles não sejam 100% de acordo com o aqui representado.

Como produção, Hamilton também é exemplar em todos os aspectos. O musical é cheio de momentos de tirar o fôlego (principalmente My Shot, Guns and Ships, Yorktown e The World Was Wide Enough) e de emocionar (Satisfied, Burn, One Last Time e Stay Alive – Reprise), todas as atuações são magníficas com todos os atores tendo pelo menos um momento de destaque. A parte técnica também não desaponta. Coreografia, iluminação e movimentos de câmeras junto da edição (essenciais em transformar a segunda em sétima arte) são todos bem executados.

Depois de anos de espera, a peça não desaponta em nada. A obra de Lin-Manuel Miranda merece todos os elogios e o hype que ainda recebe, anos depois de ter estreado. Um musical que não apenas é bastante inclusivo mas relembra da importância dos imigrantes na sociedade é sempre muito relevante em meio de líderes governamentais que pregam o racismo e a xenofobia. E com o sucesso de Hamilton, que atualmente é a atração audiovisual mais vista em streaming do ano, é de se esperar que um precedente seja criado e que mais musicais da Broadway sejam gravados e disponibilizados para todo o mundo.

Nota:


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Estudante de jornalismo, tem 21 anos e é assistidor de séries semi profissional. Viciado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli, slashers e musicais, adora cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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