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Artemis Fowl: O Mundo Secreto | Crítica

Artemis Fowl: O Mundo Secreto | Crítica

Artemis Fowl: O Mundo Secreto (Artemis Fowl)

Ano: 2019

Direção: Kenneth Branagh

Roteiro: Conor McPherson, Hamish McColl

Elenco: Ferdia Shaw, Lara McDonnell, Josh Gad, Tamara Smart, Nonso Anozie, Colin Farrell, Judi Dench

Não é surpresa para ninguém que, tirando os projetos da Marvel e Star Wars, a Disney têm uma grande dificuldade com live-actions que não sejam remakes de suas animações clássicas. Década passada, tivemos filmes como Uma Dobra no Tempo, O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos e John Carter: Entre Dois Mundos na lista de fracassos de crítica e público, que deixaram prejuízos milionários para o estúdio. Artemis Fowl: O Mundo Escondido, adaptação da famosa saga literária infanto-juvenil, não aprendeu nada com os erros do passado e, além de infiel com o material original, é um longa vazio e sem alma.

O ator, roteirista e diretor Kenneth Branagh consolidou a sua carreira com novas versões cinematográficas das obras shakespearianas, mas reservou os últimos anos para fazer blockbusters. Thor, Cinderela, Jack Ryan e Hercule Poirot foram os protagonistas cujos quais ele dirigiu filmes que, enquanto suficientemente bem recebidos, estavam abaixo de seu nível. Mas, agora, ele definitivamente atingiu o ponto mais baixo de sua carreira como diretor.

Artemis Fowl (Ferdia Shaw) é um jovem prodígio milionário que beira a arrogância. Quando seu pai, o empresário e negociador de relíquias Artemis Fowl (Colin Farrell) desaparece, ele descobre ser de uma famosa família de ladrões de arte com conexões com um mundo de fantasia qual acreditava ser apenas histórias que o pai contava para ele dormir. E é aí que as diferenças começam. No livro, o pai de Artemis já estava morto e o rapaz de 12 anos, já ciente de sua ancestralidade, era um grande ladrão que não se importava com ninguém além de si mesmo. Algo bem mais interessante do que recebemos, porque a Disney não acreditou que o público ia aceitar uma criança vilã – completamente ignorando que a saga literária vendeu mais de 25 milhões de edições mundialmente.

No outro lado da trama, no mundo das fadas, a Capitã Holly Short (Lara McDonell) é uma jovem elfo que está à procura de limpar o nome de seu pai, que morreu acusado de roubar um tal de Aculos (o vago McGuffin da trama, que todo mundo está procurando e nunca fica estabelecido direito o que o poderoso troço faz). Judi Dench está lá como a Comandante Julius Raiz, dando ordens pros outros e não muito além disso. E, mais uma vez, Josh Gad está interpretando outro alívio cômico sem graça. Hollywood, por favor, Josh Gad não é engraçado, parem de forçar ele. Inclusive, estes dois últimos estão fazendo a mesma voz do Christian Bale como Batman e distrai muito.

O elenco é o primeiro problema do filme – e, acredite, existem vários. Ferdia Shaw, em seu primeiro crédito de atuação, não convence em nada como protagonista. Ele é muito limitado e longe de conseguir carregar um projeto nas costas. Os outros atores estão todos no modo automático, o único que conseguiu se safar foi Colin Farrell, que está ausente na maior parte da projeção. O único ponto positivo neste quesito é Lara McDonnell que consegue aproveitar ao máximo o fraquíssimo script e entregar uma personagem interessante e assistível. E é ainda mais triste saber que a personagem sofreu whitewashing, uma vez que ela é originalmente negra. E Domovoi Butler, o segurança de Artemis, é vivido por Nonso Anozie, um ator negro enquanto ele é originalmente eurasiático.

O que nos leva ao roteiro. Não apenas infiel em relação aos livros, fazendo o oposto de tudo o que o autor Eoin Colfer escreveu, mas também completamente incapaz de se manter por conta própria. Com breves 94 minutos de duração, tudo é mal desenvolvido, meio explicado e corrido. Todo mundo fica cuspindo exposição o tempo inteiro numa narrativa sem o menor ritmo, falando suas falas sem qualquer tipo de convicção. Josh Gad mesmo, enquanto interrogado, fica explicando o filme inteiro até mesmo os eventos em que seu personagem não estava presente. Artemis Fowl é uma bagunça boba demais para conquistar o público mais velho e parado demais e confuso para as audiências mais jovens.

Como dito anteriormente, a direção de Branagh pouco faz para salvar o filme do desastre total. Alvo de refilmagens, o produto final é deslocado e sem alma. Os momentos que deveriam ser emocionais não convencem (isso de um diretor que arrasava com Shakespeare!), as cenas de ação desapontam e o CGI é muito mediano – fazem quase 19 anos em que o primeiro Harry Potter foi lançado e o troll aqui não parece muito melhor do que o trasgo no banheiro. Mas, pelo menos, o mundo fantástico apresentado não é exatamente feio, é até visualmente interessante, mas não tem aquele senso de maravilha de outras produções de fantasia.

Artemis Fowl: O Mundo Secreto custou US$ 125 milhões e foi um dos grandes beneficiados pelo fechamento dos cinemas por causa da pandemia do coronavírus, afinal, não há dúvidas que fracassaria feio e estrear direto no Disney+ foi uma saída elegante. Apenas mais um caso de uma adaptação de livros feita sem carinho com a obra original ou qualquer tipo de empenho por parte dos realizadores, resultando em um filme que não agrada nem os fãs e muito menos vai conseguir novos fãs. Já passou da hora da Disney adquirir propriedades que eles vão transformar em produtos sanitizados para o consumo do público infantil.

Nota:


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Estudante de jornalismo, tem 21 anos e é assistidor de séries semi profissional. Viciado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli, slashers e musicais, adora cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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