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Mank | Crítica

Crítica de Mank, filme de David Fincher para a Netflix

Mank 

Ano: 2020

Direção: David Fincher

Roteiro: Jack Fincher 

Elenco: Gary Oldman, Amanda Seyfried, Lily Collins, Arliss Howard, Tom Pelphrey, Sam Troughton, Ferdinand Kingsley, Tuppence Middleton, Tom Burke, Charles Dance

Cidadão Kane é um dos filmes mais importantes da história do cinema. Lançado em 1940, o longa detalha a ascensão e a queda de Charles Foster Kane, um fictício magnata da mídia escrita que tinha uma grande influência na população estadunidense. Apesar de não ter sido popular com o público em sua estreia, o longa sobreviveu ao teste do tempo e até hoje é lembrado, cultuado e estudado. E todo o crédito vai para Orson Welles. Depois de fazer sucesso no teatro e na rádio, o homem, com apenas 25 anos, teve total liberdade criativa (algo raro na época para um cineasta iniciante) e escreveu, produziu, dirigiu e protagonizou a produção sozinho. Mas escreveu sozinho mesmo?

Desde o lançamento, existe uma disputa enorme sobre os créditos do roteiro. O dramaturgo tornado roteirista Herman J. Mankiewicz afirmava ter sido contratado como escritor fantasma por Welles e aceitou uma quantia em dinheiro para não ser creditado, o que mudou quando ele notou que o filme seria a sua obra-prima. Oitenta anos depois e o conflito sobre quem escreveu o quê ainda não foi totalmente resolvido. Há quem diga que Mankiewicz criou o roteiro inteiro sozinho e Welles só fez algumas alterações na estrutura. Jack Fincher era um deles.

A partir do roteiro não produzido dos anos 1990 do próprio pai, David Fincher escolheu tocar o projeto alguns 17 anos após a morte dele. Ambientado na Hollywood do final da década de 1930, somos apresentados a Mankiewicz (Gary Oldman), ou apenas Mank, com a missão de escrever Cidadão Kane em apenas 60 dias – 30 dias a menos do que o previamente acordado. Com a perna quebrada, supostamente sem bebidas alcóolicas e com a ajuda da secretária Rita Alexander (Lily Collins), Mank corre contra o tempo para finalizar o roteiro.

O longa também explora a relação de Mank com a atriz Marion Davis (Amanda Seyfried), inspiração para a personagem Susan Alexander, principalmente por conta do caso dela com William Randolph Hearst (Charles Dance), empresário e magnata da mídia o qual o protagonista usou de base para a criação de Charles Kane. Enquanto a produção se prende a teoria de que Mankiewicz escreveu o filme sozinho, em nenhum momento o trata como um herói. O roteirista é retratado como um alcoólatra irrecuperável, viciado em apostas, um pai ausente, um péssimo marido para a pobre Sara (Tuppence Middleton) e alguém tão ruim quanto de estar por perto por conta de seus comentários astuciosos e cruéis. Ou seja, alguém fascinante de se assistir.

E Gary Oldman realmente brilha como o personagem-título. Sem um papel de destaque desde que interpretou Winston Churchill e levou o Oscar para casa, o ator britânico tem a chance de demonstrar todo o seu talento mais uma vez. Como está bêbado a maior parte do tempo, Mank é completamente insensato, mas nunca totalmente fora de si, jamais deixando de lado o gênio brilhante que era. O resto do elenco é ótimo, com destaque para, surpreendentemente, Lily Collins, que está muito bem em cena contracenando com Oldman. Seyfried está realmente carismática como Davies e Tom Burke realmente convence como Orson Welles, apesar de estar presente em apenas uma cena.

Elogiar Fincher pela parte técnica de suas produções é sempre inquestionável. O diretor esteve apurando a sua visão durante toda a carreira e Mank é o seu longa em que seu estilo está menos presente. Não se engane, a precisão técnica cirúrgica dele ainda está aqui, mas desta vez o diretor optou em comandar o longo como se estivesse na década de 1930 ou 1940. Com a exceção do aspecto e do uso de câmeras digitais ao invés de filme, a produção realmente parece que foi feita na época em que é ambientada. Os cortes, transições, movimentos de câmeras, planos – absolutamente tudo remete às obras antigas de Hollywood.

A fotografia de Erik Messerschmidt é impressionante e a iluminação em preto e branco é perfeita – você não encontra iluminações assim em filmes coloridos. Os compositores Trent Reznor e Atticus Ross também estão trabalhando contra seus estilos. Ambos estão acostumados com ambient music e com o uso de sintetizadores, desta vez eles usaram apenas instrumentos existentes na primeira metade do século passado e a trilha é inconfundivelmente apropriada.

Se Mank é perfeito em todos os aspectos o possível, ele peca no principal: o roteiro. Escrito por Jack Fincher e com ajustes do produtor Eric Roth para ter uns discurso menos anti Welles, o longa começa a todo vapor com personagens demais sendo introduzidos ao mesmo tempo sem tempo para introduzi-los de fato. É particularmente difícil de se orientar na primeira hora de projeção. Os diálogos são afiadíssimos, acelerados e com muitos jogos de palavras engenhosos e são definitivamente a melhor parte do script.

Estruturalmente, o filme é similar a Era Uma Vez em… Hollywod, com um enredo principal acontecendo no tempo atual do longa (a escrita de Cidadão Kane) e com diversos flashbacks para explicar os personagens, suas relações e o contexto de diversos elementos. Mas, enquanto o último filme de Quentin Tarantino via a Hollywood dos anos 1960 com bastante nostalgia e saudosismo, Fincher vê a Hollywood dos anos 1940 com desdém e cinismo. Existem críticas fortes ao funcionamento de estúdios e como as coisas funcionavam naquela época, o que é verdade até os dias de hoje levando em consideração que ambos Fincher tiveram problemas com estúdios para convencê-los a produzir o projeto.

E o ponto negativo da estrutura de Mank se desdobra em dois. O primeiro é que não existe urgência no processo de criação do roteiro, por mais que o tempo seja apertado, dificilmente parece um problema para Mankiewicz que permanece inabalado, acaba não tendo conflito algum – e a resolução de um subenredo com a personagem de Lily Collins acontece do nada, uma vez que o conflito não apareceu mais depois de introduzido. Enquanto maioria dos flashbacks são bem empregados, alguns tomam tempo demais e tudo envolvendo uma eleição recebe mais atenção do que deveria.

David Fincher é perfeccionista e é conhecido por ficar muito em cima dos roteiristas cobrando motivações e diversos elementos em inúmeras cenas – mas ele mesmo não escreve nada. E talvez a escolha de não mexer tanto no texto do próprio pai acabou impactando o resultado final, que não é nem de perto tão eficiente quanto seus últimos projetos. O longa também peca a exigir determinados conhecimentos prévios do espectador, como o conflito do lançamento do filme com a RKO e a figura de William Randolph Hearst. Ganhando energia de volta no terceiro ato e chegando a uma conclusão magnífica, Mank merece ser visto e debatido. E Mankiewicz merece ser lembrado.

Nota:


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Estudante de jornalismo, tem 21 anos e é assistidor de séries semi profissional. Viciado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli, slashers e musicais, adora cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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