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Por que o live-action de Mulan é tão diferente da animação?

Por que o live-action de Mulan é tão diferente da animação?

Depois de muitos adiamentos e incertezas por conta da pandemia do coronavírus, Mulan foi formalmente lançado, disponível para aluguel em países que têm a plataforma de streaming Disney+ e nos cinemas em alguns territórios. O lançamento deste live-action em específico foi rodeado de controvérsias por, principalmente, se distanciar da animação de 1998. Sem músicas, sem Shang, sem Mushu, sem Gri-li e com diversos personagens novos, por melhor que os trailers parecessem do ponto de vista técnico, muito da história como nós a conhecemos foi alterada.

E a recepção do remake foi contrária aos últimos longas readaptados produzidos pela Disney. Aladdin e O Rei Leão não foram tão bem recebidos pela crítica especializada, mas o público adorou. Já Mulan teve uma aprovação maior da parte profissional, enquanto os espectadores não se entusiasmaram tanto com a nova versão do conto. Se o estúdio é tão famoso por capitalizar nostalgia, por que desta vez temos filmes tão dissonantes? A resposta é bem simples: China.

  • Negócio da China

Com o crescimento da economia chinesa, o país se tornou mais presente em diversos mercados e o cinema foi um deles. No geral, a bilheteria global de um filme é dividida em duas: a americana e a do resto do mundo. Mas, de uns anos para cá, a China não apenas consegue trazer lucros massivos para filmes como também salvá-los do fracasso de bilheteria.

Vamos pegar o Círculo de Fogo como exemplo. O blockbuster de Guillermo Del Toro sobre robôs gigantes lutando contra monstros alienígenas estreou abaixo das expectativas, arrecadando apenas US$ 37 milhões nas bilheterias americanas no seu final de semana de estreia. Mesmo que o desempenho de Círculo de Fogo tenha sido decepcionante com apenas US$ 101 milhões arrecadados em todo o seu tempo nos cinemas norte-americanos — algo preocupante contra o orçamento de US$ 190 milhões — o longa conseguiu fechar a bilheteria global com respeitáveis US$ 400 milhões, sendo US$ 100 milhões apenas dos espectadores chineses. Longe de ser um sucesso, mas o suficiente para garantir a sua sequência, Círculo de Fogo: A Revolta, que foi cofinanciado pelo país mandarim.

E este não é o único caso. A adaptação do game Warcraft para as telonas desapontou a crítica e o público, conseguindo apenas US$ 37 milhões nos Estados Unidos. Mas o filme se tornou febre na China e, apenas no país, fez US$ 213 milhões; totalizado a bilheteria mundial em US$ 433 milhões. Vin Diesel parece ser um ator extremamente popular lá, além de ambos Velozes e Furiosos 7 e Velozes e Furiosos 8 arrecadarem US$ 390 milhões cada no país asiático, xXx: Reativado, terceiro filme da franquia protagonizada por Diesel, dobrou o orçamento de US$ 85 milhões na China com US$ 164 milhões, sendo que, nos Estados Unidos, o filme embolsou apenas metade do valor investido. Então, sim, a China possui um mercado extremamente valioso para a indústria cinematográfica.

E, para garantir o sucesso lá, é necessário agradar o país e muitas vezes isso significa fazer alterações. A própria Marvel Studios, propriedade da Disney, já fez isso duas vezes. O Mandarim é provavelmente o único vilão realmente popular do Homem de Ferro nos quadrinhos e, no entanto, uma das exigências chinesas é que eles não sejam retratados como vilões nos filmes. Então, em Homem de Ferro 3, o Mandarim virou um terrorista do Oriente Médio interpretado pelo oscarizado Ben Kingsley. Doutor Estranho recebeu a mudança mais interessante. No material original, o Ancião, além de ser homem, era tibetano. E acontece o seguinte: a China odeia o Tibete. Existem séculos de conflito entre os dois países sobre a independência do Tibete — a China proclama ser soberana da nação. A questão não é um mero debate, uma vez que existem alegações de genocídio com um milhão e duzentos mil tibetanos mortos por ordem de autoridades chinesas. O conflito entre os dois países é delicado e a Marvel mudou a etnia da Anciã para não prejudicar o desempenho do filme do Mago Supremo nas bilheterias do país. Lady Gaga, Bon Jovi e Björk são uns dos artistas simplesmente banidos da China por terem sua imagem relacionada ao Tibete, seja por mencionar o país ou por estar com Dalai Lama. Brad Pitt é banido do país e os filmes que protagoniza não chegam lá, nem mesmo Guerra Mundial Z, maior sucesso da sua carreira. Tudo isso porque ele estrelou Sete Anos no Tibete, que retrata o massacre que a China orquestrou no país.

  • Como isso afetou Mulan?

Primeiro, é preciso entender que Mulan, mesmo que seja um filme popular, não foi um sucesso de bilheteria tão grande quanto às outras animações da Era da Renascença da Disney, com apenas US$ 304 milhões arrecadados mundialmente. Das outras animações lançadas pelo estúdio na década de 1990, A Bela e a Fera (US$ 425 milhões), Aladdin (US$ 504 milhões) e O Rei Leão (US$ 768.6 milhões, sem contar o relançamento em 3D) arrecadaram bem mais. Vale lembrar que o orçamento do novo filme está estimado em US$ 200 milhões, o que o torna o longa o segundo live-action mais caro da Disney até agora – atrás apenas de O Rei Leão. Ou seja, o estúdio investiu praticamente dois terços do valor arrecadado pelo original no remake. Então, sim, os números da China são determinantes para o sucesso do filme.

A situação da produção com a bilheteria se torna ainda mais delicada agora. O filme estava marcado para estrear originalmente em 26 de março, algumas semanas antes do fechamento dos cinemas mundialmente. Ou seja, o estúdio já tinha gastado milhões em marketing e o valor investido na divulgação não permitia que a estreia fosse adiada para o ano seguinte, com a situação já normalizada. A estratégia adotada foi a seguinte: liberar o filme para aluguel no Disney+ por 30 doláres por três meses, antes que o filme fique “gratuito” dentro da própria plataforma, e lançamento nos cinemas de alguns países, incluindo a China. Uma manobra que só o tempo dirá se é acertada.

E se o Mulan de 1998 tivesse sido bem recebido pelo público chinês, seria certo que a Disney faria uma refilmagem fiel à animação – mas não foi bem assim. Assim como tantas das histórias que a Disney adaptou para o cinema, Mulan passou por várias mudanças para ser mais comercial. Não existem dragões na lenda original da Mulan, Mushu (dublado originalmente por Eddie Murphy) e o grilo Gri-li foram criados apenas porque a protagonista não tinha parceiros animais, quase um padrão para a Disney. O comandante Shang também não existe na lenda — a sua presença na animação foi resultante da primeira versão do roteiro que, acredite ou não, era pra ser uma comédia romântica.

Quando lançado no país, Mulan foi duramente criticado pelo público chinês. Eles não aprovaram como o filme retratou a cultura deles, ou melhor, deixou de retratar, muitos dos aspectos do filme eram mais alinhados ao Japão do que à China em si. O Shang é detestado porque ele não existe na história original e usar uma lenda inspiradora de uma mulher que foi à guerra e lutou por 12 anos para transformar a história em um romance é ultrajante. Outro ponto muito criticado é o final do longa, que conta com o Imperador da China se curvando para Mulan, algo que jamais aconteceria.

E musicais também não são muito populares no país asiático. Por anos, musicais até evitavam passar pelo desperdício de gastar dinheiro sendo lançados na China, porque os filmes não fariam sucesso algum lá. O maior exemplo é Mamma Mia!, o musical de maior bilheteria de todos os tempos (até o lançamento do remake de A Bela e a Fera) sequer foi lançado lá. A sequência até tentou, uma vez que o público chinês está ficando mais receptivo ao gênero com filmes como La La Land e O Rei do Show. Acabou que Mamma Mia!: Lá Vamos Nós de Novo arrecadou míseros seiscentos mil dólares. Como é já de se esperar, as canções de Mulan, com a notável exceção de Reflexão, também não caíram nas graças do público. E é por isso que todas as canções foram cortadas sem dó da nova produção. Mas ainda assim melodias delas estão presentes na ótima trilha sonora sinfônica composta por Harry Gregson-Williams e partes das letras estão presentes nos diálogos como referências mais do que bem-vindas.

Por fim, a China odeia o Mushu. O alívio cômico (lê-se desculpa para vender brinquedo) é um dragão e a figura do dragão é sagrada e mítica na cultura chinesa — eles são benignos ao invés das muitas representações da criatura como perigosa no imaginário ocidental. A imagem de um dragão não pode ser representada de qualquer jeito negativo no país. E Mushu, com todas as suas piadas e humor, acabou não sendo bem recebido por ser uma encarnação desrespeitosa da figura do dragão. Gri-li também não foi bem visto. Por que diabos uma guerreira levaria um grilo para a guerra?

  • As mudanças

Dirigido por Niki Caro, Mulan de 2020 foi redesignado para parecer um épico de guerra chinês. A escala, o tom e as ambientações remetem bem mais a uma produção asiática do que americana – mesmo que boa parte dos realizadores sejam brancos. Logo de cara, o humor é o primeiro elemento que está faltando. Enquanto o desenho contava com diversos alívios cômicos e tinha um clima mais leve, a nova versão tem uma atmosfera mais séria e épica, com menos tentativas de fazer piadas (alguma das quais não funcionam).

O sobrenome da família da protagonista na animação era Fa e voltou a ser Hua como na lenda da personagem. A principal inclusão na narrativa foi a presença do Chi, energia interna que dentro da mitologia do filme é capaz de aumentar a habilidade do guerreiro e, se o mesmo o possuir em grande quantidade, consegue externalizar para realizar práticas mágicas. Obviamente, Mulan (Liu Yifei) tem o chi forte desde criança, mas nunca aprendeu a controla-lo propriamente até ser relevante dentro na trama. Esse poder que ela carrega vai de contramão com a mensagem do desenho (e provavelmente do conto) em que Mulan era uma jovem normal motivada a fazer a coisa certa, conseguindo chamar a atenção de todos com uma habilidade que veio do treinamento. Aqui ela funciona como “a escolhida”, quase como uma Jedi tendo que enfrentar uma vilã Sith.

Mulan já é reconhecidamente habilidosa desde criança, fazendo acrobacias impossíveis com a ajuda do Chi. Mesmo que ainda desajeitada como jovem adulta, a personagem perdeu bastante do carisma dela com uma representação mais séria e dramática. Uma das cenas mais icônicas do desenho, quando a protagonista corta o cabelo antes de ir pra guerra não está presente no remake. Por mais emblemática que seja a cena no Ocidente, chineses tiravam sarro dela porque cortar o cabelo não a ajudaria a parecer mais masculina porque na distania onde o conto é ambientado, era normal para homens manterem o cabelo quase tão longo quanto as mulheres.

Enquanto no clássico de 1998 a ameaça são os hunos liderados pelo temível Shan Yu, o longa metragem optou, mais uma vez, por permanecer fiel a história original e aqui temos os bárbaros rourans, que são originários da região hoje conhecida como Mongólia. O líder dos rourans é o fictício Bori Khan (Jason Scott Lee) – cujo visual remete bastante ao de Shan Yu –, que quer expandir o território de seu povo e destronar o Imperador da China (Jet Li). Bem próximo da animação, com a exceção de que ele aqui é o vilão secundário a narrativa. A vilã primária é Xian Lang (Gong Li), uma guerreira com um chi muito forte que é tida como bruxa por todos por causa de suas habilidades metamorfas.

Crítica de Mulan (2020)

Bruxas são proibidas no reino chinês e Xian Lang se alia a Bori Khan para derrubar o Imperador e criar um lugar em que ela e demais pessoas com a habilidade dela sejam aceitas no reino. Por mais que a inclusão de Chi possa ser questionável na trama, cria uma dinâmica interessante entre a protagonista e a vilã. Duas mulheres com Chi poderoso que acabam sendo mal vistas na sociedade por assumirem posições dadas apenas a homens.

Mushu é substituído por uma fênix que não fala, mas serve o mesmo propósito narrativo de guiar a Mulan em sua jornada e prestar auxílio quanto ela mais precisa de ajuda.  Shang foi dividido em dois personagens: Comandante Tung (vivida pelo querido Donnie Yen), que serve como mentor da garota, e Honghui (Yoson An), que performa o papel de interesse amoroso mesmo que o romance tenha um foco bem maior. Todos os companheiros de exército da Mulan, apesar de manterem os nomes de Lin, Yao e Chien-Po, não são nada parecidos com as suas versões do desenho, são todos jovens adultos com idade similar a da Mulan com bem pouco das suas características. Gri-li é ressignificado como um desajeitado guerreiro chamado Grilo, cuja mãe o batizou assim por acreditar que ele seria como um amuleto da sorte.

Mulan de 2020 foi uma grande aposta. Apesar de ser o live-action da Disney que mais teve alterações em relação com a sua versão original, o filme ainda segue os mesmos pontos narrativos e explora os mesmos temas do que a animação. O resultado deste experimento é um híbrido que tenta agradar tanto as audiências ocidentais quanto as chinesas. O resultado acabou dividindo o público americano/europeu que já teve contato com a superprodução. Resta saber se será do agrado dos asiáticos quando estrear na região em 11 de setembro.


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Estudante de jornalismo, tem 21 anos e é assistidor de séries semi profissional. Viciado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli, slashers e musicais, adora cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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