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Ava | Crítica

Crítica de Ava, da NetflixAva

Ano: 2020

Direção: Tate Taylor

Roteiro: Matthew Newton

Elenco: Jessica Chastain, Colin Farrell, Geena Davis, Common, John Malkovich, Christopher Domig, Joan Chen, Diana Silvers, Jess Weixler, Ioan Gruffudd

O gênero de ação sofreu as mais variadas modificações desde a sua datada e testosterônica era de ouro na década de 80. Longe daquele tom mais cômico de seus filmes mais famosos, os filmes de espiões e assassinos profissionais, em geral, sempre mantiveram uma temática um pouco mais séria. Na última década, a ascensão de Charlize Theron como atriz de ação, ainda que as mulheres como protagonistas no gênero não sejam uma grande novidade, fez com que um nicho específico começasse a chamar atenção de Hollywood mais uma vez. A atriz sul-africana chamou atenção em Mad Max: Estrada da Fúria (2015), e em seguida foi escalada como vilã da franquia Velozes e Furiosos, passando por Atômica (2017) e, por fim, o ação/sci-fi The Old Guard esse ano. Nesse meio tempo, outras atrizes parecem ter se interessado por obras que em outros tempos pareceriam predominantemente masculinas, como Jennifer Lawrence em Operação Red Sparrow (2018), lançado apenas um ano após a espiã quadrinhesca de Theron ganhar vida nas ruas de Berlim.

Jessica Chastain é a mais nova adição a esse tipo de cinema que, independentemente da qualidade, sempre parece chamar atenção do público. No enredo de Ava, a atriz vive uma assassina profissional (homônima ao título) que enfrenta dilemas pessoais que começam a interferir no seu trabalho. O fato de ela conversar com seus alvos antes de eliminá-los, a fim de descobrir o motivo pelo qual foi contratada, incomoda seus superiores, e nem mesmo a proteção de Duke (John Malkovich) vai mantê-la a salvo por muito tempo. É recomendado que ela se afaste por um tempo, o que faz com que Ava volte para sua cidade natal e confronte a família que abandonou, com toda a sua carga de culpa e de confiança destruída.

Coproduzido por Chastain, Ava é dirigido por Tate Taylor, que já havia trabalhado com a atriz no controverso Histórias Cruzadas (2011). O longa é um filme criativo que, além de costurar duas histórias, também costura dois gêneros. Por um lado, temos a ação do conflito dentro da organização de assassinos, com suas subtramas, suas missões e cenas de combate freneticamente coreografadas. Por outro, temos o drama, lento e gradualmente construído, de Ava com seus traumas tentando uma reconciliação com sua família após tantos anos de mágoas.

Caso Ava tivesse se mantido apenas na trama do trabalho da protagonista, ele teria entrado para o gigantesco hall de filmes de ação previsíveis, genéricos e com um roteiro que já foi revisitado algumas milhares de vezes. Mesmo com o talentoso trio de protagonistas nesse arco (Chastain, Malkovich e Colin Farrell), a história do embate da assassina contra seus próprios superiores, com seus personagens unidimensionais e suas surpresas nem um pouco surpreendentes, é um enredo linear e repetitivo. Desde o primeiro momento em que colocamos olhos no Duke de John Malkovich ou no Simon (interpretado por Farrell), já desconfiamos de todos os estereótipos que os compõem, e o pior de tudo: eles se confirmam.

A parte da história que envolve a família de Ava, no entanto, mostra um pouco mais de complexidade e acrescenta camadas interessantes e pouco vistas nesse tipo de filme. A relação da personagem com sua mãe e seu ex-noivo são bem trabalhadas em cenas pouco frequentes mas importantíssimas para se entender a dinâmica da autoconfiança fragmentada de Ava, porém é na problemática entre ela e sua irmã Judy (Jess Weixler) que o filme revela seus melhores momentos. Em certas horas, a dosagem elevada de agressões passivo-agressivas na família Faulkner beira a uma caricatura de um núcleo familiar tóxico, mas o roteiro ajuda a disfarçar esses excessos com uma interposição constante da Ava Assassina Profissional com a Ava Filha Alcoólatra.

Em filmes de assassinos desse calibre ou de espionagem, raramente é mostrado o que aconteceu com as famílias desses agentes ou como são as suas relações em meio a uma vida de tantos segredos e ausências. Ava partiu de uma premissa interessante e entregou um resultado mediano. A parte da ação da obra de Tate Taylor é empobrecida por sua trama simplória, e a parte do drama familiar não é bem o que os fãs do gênero desejam assistir. É visível que Jessica Chastain investiu bastante nessa história, porém o filme não possui nada que o torne um pouco mais memorável, e ele parece não entender qual era o ritmo que pretendia seguir. E, ao contrário do que dita o gênero, é improvável que ele seja um produto que renda uma franquia.

Nota:


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Jornalista que migrou para a veterinária, mas sem deixar para trás as jornalices. Vive e respira horror, seja em quadrinhos, filmes, séries ou livros. Último posto de defesa da DC Comics em relação à Marvel, embora tenha que fazer vista grossa quando o papo é cinema. Fã de Heavy Metal, games single player e cospobre de carteirinha quando sobra dinheiro no final do mês.

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